Mercado de trigo encerra agosto com oferta restrita e preços divergentes no Brasil
Entrada gradual da nova safra pressiona cotações no Paraná, enquanto menor disponibilidade sustenta altas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina
Publicado em: 04/09/2026 às 18:00hs
O mercado brasileiro de trigo encerrou agosto em um cenário de transição entre a safra velha e a entrada gradual da nova produção. A disponibilidade de lotes de melhor qualidade permaneceu limitada, enquanto o avanço da colheita começou a influenciar as negociações e os preços nas principais regiões produtoras.
Segundo o analista da Safras & Mercado, Elcio Bento, a liquidez continuou reduzida ao longo do mês. Os moinhos adotaram uma postura cautelosa diante da baixa movimentação no mercado de farinhas e da dificuldade de repassar o aumento dos custos aos compradores.
As cotações apresentaram comportamentos distintos entre os estados. Enquanto a expectativa de crescimento da oferta pressionou os preços no Paraná, a disponibilidade mais restrita sustentou valorizações em algumas praças de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.
Preço do trigo recua no Paraná
O preço médio estadual do trigo no Paraná encerrou agosto em R$ 1.480 por tonelada. Embora as lavouras apresentassem boas condições, a proximidade da nova colheita limitou o potencial de valorização do cereal.
De acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral), 93% das lavouras paranaenses estavam classificadas em condições ótimas. Esse cenário reforçou a expectativa de aumento da oferta nas semanas seguintes, levando compradores a adotar maior cautela nas negociações.
Maringá registrou a maior queda mensal entre as principais praças acompanhadas, com recuo de 5,33% e cotação de R$ 1.520 por tonelada.
Em Curitiba, no mercado CIF, o trigo caiu 3,31%, para R$ 1.560 por tonelada. Cascavel e Ponta Grossa registraram retração de 3,45%, com o cereal negociado a R$ 1.500 por tonelada.
Rio Grande do Sul monitora qualidade das lavouras
No Rio Grande do Sul, o preço médio estadual ficou em R$ 1.340 por tonelada. A evolução das lavouras permaneceu dentro da normalidade, mas as condições climáticas aumentaram a preocupação com a sanidade e a qualidade dos grãos.
Segundo a Emater, 28% das áreas estavam na fase de floração e 10% haviam alcançado o estágio de enchimento de grãos. A combinação de umidade elevada e baixa luminosidade favoreceu a ocorrência de oídio e manchas foliares.
O cenário mantém os produtores atentos à necessidade de controle fitossanitário, especialmente porque problemas durante as fases reprodutivas podem comprometer o rendimento e a qualidade industrial do trigo.
Apesar dos riscos nas lavouras, algumas referências gaúchas avançaram em agosto. Em Porto Alegre, no mercado CIF, a cotação subiu 2,88%, alcançando R$ 1.510 por tonelada. Em Santa Rosa, o preço aumentou 3,08%, para R$ 1.420 por tonelada.
Trigo sobe em Santa Catarina e cai em São Paulo
Campos Novos, em Santa Catarina, apresentou a maior valorização mensal entre as praças avaliadas. O preço do trigo avançou 3,70% e encerrou agosto em R$ 1.480 por tonelada.
Em São Paulo, no mercado CIF, a cotação recuou 4,89% no mês, para R$ 1.600 por tonelada. Mesmo com a queda mensal, o cereal ainda acumulou valorização de 9,16% em 12 meses.
A diferença entre as cotações regionais reflete fatores como disponibilidade local, qualidade dos lotes, custos de transporte, proximidade da colheita e necessidade de reposição dos moinhos.
Alta do trigo em Chicago oferece suporte ao mercado brasileiro
No mercado internacional, a valorização do trigo negociado na Bolsa de Chicago ajudou a limitar as quedas no Brasil. O contrato com vencimento em dezembro de 2026 acumulou alta de 17,71% em agosto.
O movimento foi impulsionado pelo aumento das preocupações com a logística e o fluxo de exportações na região do Mar Negro. Exportadores russos passaram a redirecionar parte das cargas para portos do Báltico, ampliando as despesas com transporte e seguros.
Os riscos logísticos envolvendo importantes fornecedores mundiais mantiveram os preços internacionais sustentados e elevaram a atenção dos importadores para eventuais dificuldades no abastecimento global.
Trigo argentino continua como referência no Sudeste
Na Argentina, o trigo com 11% de proteína permaneceu cotado ao redor de US$ 250 por tonelada no mercado FOB. Em São Paulo, a paridade de importação do trigo argentino Hard alcançou R$ 1.655 por tonelada, nível próximo ao observado no mercado físico doméstico.
As referências do trigo uruguaio e russo ficaram em R$ 1.573 e R$ 1.555 por tonelada, respectivamente.
De acordo com Elcio Bento, a proximidade entre a paridade argentina e os preços internos reduziu o espaço para grandes volumes de importação. Ainda assim, o produto da Argentina continuou funcionando como o principal referencial para a formação das cotações no Sudeste brasileiro.
Colheita e mercado de farinhas definirão preços em setembro
A direção dos preços do trigo em setembro deverá depender principalmente do avanço da colheita no Sul do Brasil, da qualidade da nova produção e do desempenho das vendas de farinha.
A entrada da safra tende a ampliar a oferta doméstica e poderá pressionar as cotações em algumas regiões. Por outro lado, os custos de reposição do trigo importado e os riscos logísticos no Mar Negro permanecem como fatores de sustentação.
Com moinhos cautelosos e produtores atentos à qualidade das lavouras, o mercado deverá seguir regionalizado, apresentando diferenças importantes de preços conforme a disponibilidade e as condições comerciais de cada praça.
Fonte: Portal do Agronegócio
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