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Exportações recordes de café pressionam preços, mas clima mantém riscos para a oferta global

Brasil embarcou 4,16 milhões de sacas em agosto, alta de 31%; arábica opera entre 270 e 280 centavos de dólar por libra-peso, enquanto El Niño amplia incertezas para as próximas safras


Publicado em: 21/09/2026 às 20:00hs

Exportações recordes de café pressionam preços, mas clima mantém riscos para a oferta global

Os preços futuros do café arábica perderam força nos últimos dias, pressionados pelo recorde das exportações brasileiras e pela melhora das condições climáticas nas regiões produtoras do país. Os contratos passaram a operar entre 270 e 280 centavos de dólar por libra-peso, segundo análise da Hedgepoint Global Markets.

A maior chegada de café brasileiro aos mercados consumidores reduziu as preocupações com a disponibilidade imediata. Ao mesmo tempo, as chuvas generalizadas e as primeiras floradas elevaram as expectativas para a safra 2027/28.

Os estoques certificados continuam nos menores níveis em décadas e ainda oferecem suporte às cotações. O risco climático também permanece elevado, especialmente diante dos possíveis impactos do El Niño sobre Brasil, Vietnã e Indonésia.

Contrato de dezembro pode se aproximar de 270 centavos

A combinação entre exportações mais fortes, clima favorável no Brasil e possível aumento do café pendente de classificação nos armazéns certificados da ICE mantém o mercado sob pressão no curto prazo.

“Os estoques certificados seguem nos níveis mais baixos em décadas e dão algum suporte aos preços. Ainda assim, o aumento dos estoques pendentes para classificação, o clima no Brasil e o avanço das exportações podem ampliar a pressão baixista, com o contrato de dezembro potencialmente mais perto dos 270 c/lb”, afirma Laleska Moda, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets.

A perspectiva apresentada pela consultoria indica que o contrato dezembro pode permanecer abaixo de 280 centavos de dólar por libra-peso, principalmente se a oferta brasileira continuar chegando aos principais centros consumidores.

Brasil exporta recorde de 4,16 milhões de sacas

As exportações brasileiras de café verde e industrializado somaram 4,16 milhões de sacas em agosto, crescimento de 31% em relação ao mesmo mês de 2025. O resultado é recorde para agosto, segundo dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

Considerando apenas o café verde, os embarques chegaram a 3,8 milhões de sacas, alta de 31,1% na comparação anual e de 42,7% em relação a julho.

O arábica respondeu por 2,8 milhões de sacas. O volume aumentou mais de 1 milhão de sacas em relação ao mês anterior e superou em 25,7% o resultado de agosto de 2025.

As exportações de conilon alcançaram 953,5 mil sacas, maior volume já registrado para a variedade. O crescimento foi de 53,6% em um ano.

Estados Unidos e Bélgica lideram compras

Estados Unidos e Bélgica foram os dois principais destinos do café brasileiro em agosto, com mais de 500 mil sacas adquiridas por cada país.

O forte crescimento dos embarques para esses mercados ganhou relevância após informações de que grandes empresas podem destinar aproximadamente 300 mil sacas de arábica brasileiro aos estoques certificados da ICE.

O relatório da bolsa mostra que 31,16 mil sacas de café brasileiro aguardam classificação em um armazém de Antuérpia. Esse volume poderá aumentar nas próximas semanas, reforçando a percepção de melhora da oferta de curto prazo.

O desempenho das exportações também sinaliza uma retomada da comercialização, após meses de menor presença dos produtores no mercado e embarques mais fracos.

Chuvas favorecem safra brasileira 2027/28

Com a colheita do ciclo 2026/27 praticamente concluída em agosto, a atenção se voltou para a formação da próxima safra.

Desde o fim de agosto, as chuvas alcançaram todas as regiões cafeeiras do Brasil. Os acumulados parciais de setembro ficaram acima da média dos últimos dez anos na maior parte das áreas produtoras.

As exceções foram a Chapada da Bahia e a região Atlântico/Sul. Segundo a Hedgepoint, o padrão de precipitações provavelmente está relacionado à influência do El Niño.

Algumas áreas produtoras de arábica e conilon já registraram as primeiras floradas, embora o mercado ainda aguarde um florescimento mais generalizado.

Excesso de chuva também exige monitoramento

As previsões apontam para a continuidade das precipitações durante o restante de setembro e ao longo de outubro. A umidade favorece o desenvolvimento das lavouras e a recuperação dos solos, mas volumes excessivos precisam ser acompanhados.

Ainda é cedo para definir o potencial da safra 2027/28. A evolução das floradas, o pegamento das flores e a regularidade das chuvas serão determinantes para as estimativas de produção.

“Apesar de ainda ser cedo para estimar a produção da safra 2027/28, a expansão da área plantada nos últimos anos, combinada às condições climáticas favoráveis até o momento, poderá compensar parcialmente os efeitos negativos do ano de baixa bienalidade do arábica”, avalia Laleska.

Vietnã registra maior exportação para agosto em sete anos

No mercado de robusta, o Vietnã exportou 2,1 milhões de sacas em agosto, maior volume para o mês em sete anos.

Os embarques acumulados na safra 2025/26, entre outubro e agosto, chegaram a 27,7 milhões de sacas. O resultado representa crescimento de 19,6% em relação ao ciclo anterior e está entre os melhores desempenhos das últimas sete temporadas.

Apesar do ritmo forte das exportações, os estoques vietnamitas estão em níveis extremamente baixos. A disponibilidade restrita tende a limitar os embarques nos próximos meses.

A entrada de volumes mais significativos da safra 2026/27 no mercado é esperada apenas depois de novembro, embora alguns produtores possam iniciar os trabalhos de campo no começo de outubro.

El Niño ameaça lavouras de robusta na Ásia

A Hedgepoint mantém sua projeção para a produção vietnamita em 30,5 milhões de sacas na safra 2026/27, volume semelhante ao do ciclo anterior. A expansão da área cultivada pode compensar parte dos efeitos do clima menos favorável.

Desde o início do desenvolvimento das lavouras, as chuvas permaneceram abaixo da média em diversas regiões, e parte dos produtores já considera a possibilidade de redução da produtividade.

O El Niño também representa uma ameaça para o ciclo 2027/28. O fenômeno pode prolongar a estação seca no Vietnã, diminuindo a umidade do solo e a disponibilidade de água para irrigação.

A Indonésia enfrenta risco semelhante nas áreas de robusta que já estão em desenvolvimento. Caso os efeitos climáticos sejam mais intensos, os problemas de produção nos dois países poderão oferecer sustentação às cotações internacionais.

“O El Niño pode prolongar a estação seca no Vietnã e reduzir a disponibilidade de água para irrigação. Os possíveis efeitos sobre Vietnã e Indonésia poderão dar suporte aos preços do robusta nos próximos meses”, explica a analista.

Oferta melhora, mas mercado depende do clima

O recorde das exportações brasileiras, as chuvas no Brasil e o desempenho dos embarques vietnamitas indicam maior disponibilidade de café no curto prazo.

Esse cenário pressiona os contratos do arábica, especialmente diante da possibilidade de aumento dos estoques certificados da ICE. A oferta ainda não pode ser considerada confortável, porém, porque os estoques permanecem historicamente baixos.

Para os próximos meses, a direção dos preços dependerá do desenvolvimento da safra brasileira 2027/28, da intensidade do El Niño e de seus efeitos sobre os países produtores de robusta.

“O clima nas principais origens seguirá determinante para o balanço global de oferta e para a direção dos preços”, conclui Laleska.

Fonte: Portal do Agronegócio

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