Café: Rabobank prevê superávit global de 8,82 milhões de sacas e pressão sobre preços em 2027
Relatório apresentado no AgroInfo 2026 estima safra brasileira de 73,3 milhões de sacas e exportações de até 45 milhões; estoques baixos, qualidade dos grãos e El Niño devem manter a volatilidade
Publicado em: 05/11/2026 às 20:00hs
A recuperação da oferta brasileira e a chegada de café de outras origens devem pressionar as cotações internacionais entre o fim de 2026 e o início de 2027. Segundo o Rabobank, o balanço mundial poderá registrar superávit de 8,82 milhões de sacas em 2026/27, favorecido pelo elevado volume produzido no Brasil.
A projeção integra o relatório “Perspectivas para o Agronegócio Brasileiro 2027”, divulgado no contexto do AgroInfo 2026. Embora o banco indique uma perspectiva de preços mais baixos, a recomposição lenta dos estoques, os problemas de qualidade e os riscos climáticos devem sustentar as oscilações do mercado.
Safra brasileira é estimada em 73,3 milhões de sacas
O Rabobank estima a produção brasileira de café em 73,3 milhões de sacas no ciclo 2026/27, distribuídas entre:
- Arábica: 48,7 milhões de sacas;
- Conilon: 24,6 milhões de sacas.
Na comparação com a temporada anterior, o relatório aponta crescimento de 27,8% na produção de arábica e redução de 3,9% na de robusta/conilon.
A maior disponibilidade brasileira é um dos principais fatores por trás da expectativa de recuperação da oferta mundial. A entrada de produto de outras origens, especialmente do Vietnã, também contribui para esse cenário.
Preços do café devem enfrentar pressão no próximo trimestre
Para o trimestre seguinte ao levantamento, o banco trabalha com uma faixa de US$ 2,70 a US$ 2,90 por libra-peso para o arábica, equivalente a 270 a 290 cents por libra-peso. Para o robusta/conilon, a projeção fica entre US$ 3.500 e US$ 3.700 por tonelada.
Esses valores representam estimativas do relatório, e não cotações em tempo real ou garantia de preços futuros.
Até o período analisado, o arábica acumulava desvalorização próxima de 11% em 2026, enquanto o robusta registrava queda de aproximadamente 15%. Ainda assim, o banco ressalta que a recuperação dos estoques ocorre de maneira gradual, mantendo o mercado sensível a mudanças nas perspectivas de abastecimento.
Chuvas afetam qualidade e diferenciam a oferta
O aumento da produção não elimina as preocupações com a disponibilidade de cafés de melhor padrão.
Segundo o Rabobank, chuvas acima da média histórica de 15 anos em diversas cidades atrasaram a colheita do arábica e provocaram a queda de frutos maduros no solo. Parte dos lotes sofreu perda de qualidade, ampliando a atenção sobre a oferta de cafés classificados como “fine cup” e “good cup”.
Os efeitos não foram generalizados. O relatório indica impactos mais relevantes entre produtores que dependiam exclusivamente de terreiros para a secagem.
Esse quadro ajuda a explicar por que uma safra volumosa pode coexistir com restrições em segmentos específicos: maior quantidade disponível não significa oferta uniforme de qualidade.
Safra 2027/28 terá perspectivas distintas para arábica e conilon
Para o ciclo 2027/28, o Rabobank espera redução da produção de arábica em razão da bienalidade negativa, após a elevada produtividade da temporada atual. A realização de podas em parte das propriedades também poderá limitar o volume colhido no próximo ciclo.
No robusta/conilon, a perspectiva é de recuperação do potencial produtivo. O banco destaca o desenvolvimento favorável dos ramos e as chuvas satisfatórias observadas no cinturão produtor durante o período avaliado.
Entretanto, ainda há um intervalo importante até a próxima colheita. Veranicos e temperaturas elevadas associados ao El Niño permanecem entre os riscos capazes de alterar as estimativas.
Exportações brasileiras podem alcançar 45 milhões de sacas
O Rabobank projeta exportações próximas de 41 milhões de sacas no ano civil de 2026. Para o ciclo comercial 2026/27, de julho a junho, a estimativa varia entre 42 milhões e 45 milhões de sacas.
Os períodos são diferentes e não devem ser comparados diretamente. A previsão para a temporada comercial considera a maior disponibilidade da safra e estoques de passagem mais elevados.
Nos primeiros três meses do ciclo 2026/27, os embarques brasileiros somaram 11,21 milhões de sacas, crescimento de 15,5% frente às 9,70 milhões exportadas no mesmo intervalo anterior.
Já entre janeiro e setembro de 2026, as exportações totalizaram 29,09 milhões de sacas, ligeira redução de 0,2% na comparação anual.
Apesar da recuperação recente dos embarques, o banco descreve negociações cautelosas, com produtores capitalizados retendo oferta e compradores atentos à possibilidade de maior disponibilidade e preços menores.
Rastreabilidade pode diferenciar fornecedores no mercado europeu
O relatório também destaca as exigências de sustentabilidade e rastreabilidade como fatores relevantes para os fluxos comerciais.
Na avaliação do Rabobank, o regulamento europeu sobre desmatamento, conhecido como EUDR, pode ampliar a segmentação entre fornecedores preparados para comprovar a origem e a legalidade do café e aqueles direcionados a outros destinos.
O banco considera que o Brasil possui instrumentos que podem contribuir para essa adaptação, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Entretanto, ressalta a necessidade de integrar informações de geolocalização, monitoramento ambiental, rastreabilidade e comprovação de legalidade.
Consumo brasileiro mostra recuperação
No mercado interno, o levantamento identifica sinais de retomada do consumo após a retração de 2025.
Conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) apresentados no relatório, as vendas no varejo cresceram 4,65% no segundo quadrimestre de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior, alcançando aproximadamente 7 milhões de sacas.
O preço médio ao consumidor ficou em R$ 56,91 por quilo em setembro, abaixo dos R$ 65,29 registrados em janeiro e dos R$ 64,75 de setembro de 2025. Para o banco, o alívio no varejo contribui para tornar o produto mais acessível.
O cenário traçado pelo Rabobank combina, portanto, maior oferta global e pressão sobre as cotações, mas mantém clima, estoques e qualidade no centro das decisões de comercialização para 2027.
Fonte: Portal do Agronegócio
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