Bioinsumos avançam no campo e reduzem em até 81% o uso de ingredientes ativos em propriedades rurais
Experiências apresentadas no III Fórum Bioinsumos no Agro mostram ganhos de produtividade, menor dependência de insumos químicos e avanços na recuperação da saúde do solo
Publicado em: 24/08/2026 às 09:30hs
O uso de bioinsumos está avançando nas propriedades rurais brasileiras, impulsionado pela busca por maior eficiência produtiva, redução de custos e recuperação da saúde do solo. A adoção em larga escala, entretanto, depende de mudanças no manejo, adaptação de equipamentos, capacitação técnica e uma compreensão mais integrada do sistema de produção.
Experiências práticas foram apresentadas durante o III Fórum Bioinsumos no Agro, no painel “Quem decide é o campo: a realidade da adoção dos bioinsumos — o que está limitando a adoção em larga escala?”. Participaram do debate José Eugênio Rezende Barbosa, proprietário da Agroterenas, e Pelerson Penido, CEO do Grupo Roncador.
Os produtores compartilharam resultados obtidos com biodefensivos, remineralizadores, matéria orgânica e práticas destinadas a melhorar as condições químicas, físicas e biológicas do solo.
Grupo Roncador reduz uso de ingredientes ativos
O Grupo Roncador iniciou a utilização de biodefensivos em 2019. Desde então, a empresa precisou adaptar equipamentos, horários de aplicação e estratégias de manejo para incorporar os produtos biológicos ao sistema produtivo.
Atualmente, o modelo denominado “soja inteligente” é adotado em toda a área cultivada pela propriedade. A estratégia combina defensivos químicos e biológicos, considerando o nível de pressão de pragas e doenças registrado em cada ciclo.
Segundo Pelerson Penido, o sistema permitiu reduzir em 81% o uso de ingredientes ativos por hectare em uma das duas últimas safras. No ciclo seguinte, a diminuição foi de 68%, diferença atribuída às condições fitossanitárias e à maior pressão de pragas.
Os números mostram que os bioinsumos podem diminuir a dependência de defensivos convencionais, mas os resultados variam conforme o clima, as condições da lavoura, a incidência de pragas e o planejamento técnico adotado em cada safra.
Integração entre produtos químicos e biológicos ganha espaço
A experiência do Grupo Roncador indica que a transição não exige necessariamente a retirada imediata dos produtos químicos. A propriedade adotou um sistema integrado, no qual as diferentes ferramentas são utilizadas de maneira complementar.
Essa combinação permite ajustar o controle fitossanitário às necessidades de cada talhão, mantendo os produtos convencionais disponíveis para situações de maior pressão e ampliando o uso dos biológicos quando as condições são favoráveis.
O processo exige monitoramento constante e decisões baseadas no comportamento da lavoura. Horário de aplicação, qualidade da água, temperatura, umidade, compatibilidade entre produtos e condições de armazenamento estão entre os fatores que podem interferir na eficiência dos bioinsumos.
Remineralizadores diminuem dependência de fertilizantes solúveis
Além dos biodefensivos, o Grupo Roncador utiliza pó de rocha, remineralizadores e matéria orgânica para melhorar a fertilidade e reduzir a dependência de fertilizantes altamente solúveis.
De acordo com Penido, a combinação entre composto orgânico e um remineralizador desenvolvido na própria fazenda já permite substituir integralmente o fertilizante químico em determinadas áreas.
A estratégia busca fortalecer a construção da fertilidade do solo no médio e longo prazo. Os remineralizadores fornecem minerais de forma gradual, enquanto a matéria orgânica contribui para aumentar a atividade biológica, melhorar a retenção de água e favorecer a ciclagem de nutrientes.
A substituição, no entanto, depende das características de cada solo, da cultura implantada, da composição do remineralizador e do acompanhamento por análises agronômicas.
Agroterenas amplia produtividade em solos arenosos
Na Agroterenas, a incorporação de práticas biológicas surgiu da necessidade de aumentar a produtividade em áreas com solos arenosos, que apresentam menor capacidade de retenção de água e nutrientes.
José Eugênio Rezende Barbosa explicou que a empresa passou a trabalhar simultaneamente os componentes químicos, físicos e biológicos do solo. A estratégia inclui a movimentação de mais de 100 mil toneladas de produtos orgânicos destinados à nutrição das culturas.
A companhia também incorporou biólogos à equipe técnica para acompanhar o funcionamento de bactérias e fungos e entender como esses microrganismos participam da disponibilidade de nutrientes, da estruturação do solo e do desenvolvimento das plantas.
Produtividade da cana-de-açúcar alcança novos patamares
Segundo Barbosa, a produtividade média da cana-de-açúcar na Agroterenas, que anteriormente ficava próxima de 75 toneladas por hectare, avançou para 83 a 84 toneladas por hectare mesmo em anos de condições climáticas desfavoráveis.
Em safras com clima mais favorável, o rendimento passou a se aproximar de 90 toneladas por hectare.
Os resultados são atribuídos ao conjunto de práticas adotadas, e não exclusivamente a um único produto. O trabalho envolve nutrição, matéria orgânica, manejo físico do solo, atividade microbiológica e acompanhamento técnico das lavouras.
Complexidade biológica exige novo modelo de manejo
Os participantes do fórum destacaram que o ambiente biológico é mais complexo do que o modelo tradicional baseado apenas em respostas químicas. Bactérias, fungos, plantas, nutrientes, umidade, temperatura e características físicas do solo interagem simultaneamente.
Por isso, um bioinsumo que apresenta bons resultados em determinada área pode ter desempenho diferente em outra propriedade. A eficiência depende da qualidade do produto, das condições de aplicação, do manejo agronômico e do equilíbrio do sistema produtivo.
Essa complexidade também ajuda a explicar por que a adoção em larga escala ainda enfrenta obstáculos. Além do investimento em conhecimento, o produtor precisa adaptar rotinas operacionais e acompanhar os resultados por mais de uma safra.
Bioinsumos devem fazer parte de uma estratégia integrada
As experiências apresentadas no III Fórum Bioinsumos no Agro reforçam que os produtos biológicos não devem ser tratados como soluções isoladas. O melhor desempenho ocorre quando eles são incorporados a uma estratégia que considera a saúde do solo, a nutrição das plantas, o controle fitossanitário e as condições ambientais.
A expansão dos bioinsumos no agronegócio brasileiro deverá depender da integração entre pesquisa, assistência técnica, indústria e produtores rurais. Também será necessário ampliar a oferta de informações sobre qualidade, aplicação, armazenamento e compatibilidade dos produtos.
Com planejamento e acompanhamento técnico, os bioinsumos podem contribuir para reduzir o uso de ingredientes ativos, diminuir a dependência de fertilizantes convencionais e elevar a produtividade. O avanço observado nas propriedades mostra, porém, que a transformação exige uma mudança mais ampla na forma de compreender e manejar o sistema agrícola.
Fonte: Portal do Agronegócio
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