Etanol pressiona oferta de milho e déficit pode saltar para 7,2 milhões de toneladas em 2026/27
Datagro projeta crescimento de 14% no consumo de milho pelas usinas, enquanto produção deve avançar apenas 1,5%; estoques brasileiros podem cair para 8,9 milhões de toneladas
Publicado em: 24/08/2026 às 10:40hs
O forte crescimento da indústria de etanol de milho deve ampliar o desequilíbrio entre oferta e demanda do cereal no Brasil durante a safra 2026/27. A Datagro estima que o déficit no balanço doméstico poderá alcançar 7,2 milhões de toneladas, contra 2,7 milhões de toneladas na temporada anterior.
A projeção foi apresentada durante a Abertura de Safra Soja, Milho e Algodão, promovida pela consultoria em Goiás. O cenário considera uma produção de 147,5 milhões de toneladas e uma demanda total de 154,7 milhões de toneladas.
Embora a colheita brasileira esteja projetada para crescer 1,5% em relação ao ciclo anterior, o consumo deverá avançar 4,5%. Essa diferença deve aumentar a necessidade de utilização dos estoques acumulados pelo país.
Produção de milho deve alcançar 147,5 milhões de toneladas
A estimativa para a safra brasileira de milho 2026/27 ainda é preliminar, uma vez que a maior parte da produção do ciclo será colhida somente em 2027. Mesmo assim, os números já mostram uma expansão insuficiente para acompanhar o crescimento do consumo.
O Brasil, terceiro maior produtor mundial de milho, atrás dos Estados Unidos e da China, deverá colher 147,5 milhões de toneladas. Do outro lado do balanço, a demanda doméstica somada às exportações poderá chegar a 154,7 milhões de toneladas.
O avanço limitado da produção ocorre em um momento de margens mais apertadas para os agricultores, crédito rural mais caro e restrito e aumento das dificuldades financeiras em parte do setor. Pedidos de recuperação judicial e preocupações com os possíveis efeitos do El Niño também elevam as incertezas para a nova temporada.
Etanol de milho consumirá 32,49 milhões de toneladas
A indústria de etanol será o principal vetor de crescimento da demanda brasileira pelo cereal. Segundo a Datagro, as usinas deverão processar 32,49 milhões de toneladas de milho em 2026/27, avanço superior a 14% na comparação com a temporada anterior.
“O déficit é muito puxado pelo incremento das usinas de etanol”, afirmou Gabriel Bastos, analista da Datagro, durante o evento.
Atualmente, o país possui 33 usinas de etanol de milho em operação. Considerando as unidades em construção e os projetos anunciados, esse número poderá mais do que dobrar nos próximos seis anos.
A expansão consolida o milho como uma das principais matérias-primas da indústria brasileira de biocombustíveis, especialmente em regiões produtoras do Centro-Oeste. Ao mesmo tempo, aumenta a competição pelo grão entre usinas, fábricas de ração e exportadores.
Ração animal continuará como principal destino do milho
Apesar do avanço do etanol, a alimentação animal seguirá como a maior fonte de consumo do cereal no Brasil. A Datagro projeta que a indústria de rações utilizará 64,2 milhões de toneladas em 2026/27, crescimento anual próximo de 4%.
O milho é um insumo fundamental para as cadeias de aves, suínos, bovinos confinados, leite e aquicultura. Por isso, uma eventual valorização do grão também pode elevar os custos de produção das proteínas animais.
A demanda total estimada pela consultoria considera ainda o uso do cereal na produção de sementes, no consumo humano e em outras aplicações industriais.
Exportações brasileiras devem permanecer em 45 milhões de toneladas
As exportações de milho do Brasil deverão ficar estáveis em 45 milhões de toneladas durante a safra 2026/27. Nos últimos anos, o país consolidou-se como o segundo maior exportador mundial do cereal, atrás apenas dos Estados Unidos.
A manutenção desse volume, combinada ao crescimento acelerado da demanda interna, tende a aumentar a pressão sobre a disponibilidade do produto.
Caso a produção seja afetada por problemas climáticos ou fique abaixo das projeções, o equilíbrio entre exportações, abastecimento doméstico e recomposição dos estoques poderá ficar ainda mais delicado.
Estoques de milho podem cair para 8,9 milhões de toneladas
O déficit projetado não significa necessariamente falta imediata de milho no mercado, mas indica que o consumo total deverá superar a produção, exigindo retirada dos estoques existentes.
Para o encerramento da safra 2026/27, em 31 de janeiro, a Datagro estima estoques finais de apenas 8,9 milhões de toneladas. O volume representa uma forte redução diante dos 16,1 milhões de toneladas registrados em 2024/25.
A continuidade desse movimento diminui a margem de segurança do abastecimento nacional e deixa o mercado mais sensível a perdas de produção, oscilações cambiais e mudanças no ritmo das exportações.
Déficit pode sustentar preços do milho ao produtor
Apesar dos riscos para o abastecimento e para os setores consumidores, o aperto no balanço de oferta e demanda poderá oferecer algum suporte às cotações do milho no mercado brasileiro.
O head de Grãos da Datagro, Flávio França Júnior, avaliou que o cenário pode resultar em preços mais favoráveis aos agricultores, especialmente depois de um período marcado pela compressão das margens.
“Quando se fala que há uma possível melhora dos preços, isso representa um alento. Também existe a preocupação com o El Niño, em um cenário nervoso, mas pelo menos em termos de preços a perspectiva é um pouco melhor”, afirmou.
A intensidade dessa valorização dependerá do desenvolvimento das lavouras, das condições climáticas, do ritmo das exportações, do câmbio e da velocidade de expansão das usinas de etanol.
Com a indústria de biocombustíveis ganhando participação no consumo, o milho brasileiro entra na safra 2026/27 diante de um novo desafio: ampliar a produção em ritmo suficiente para atender simultaneamente à alimentação animal, às exportações e à crescente fabricação de etanol.
Fonte: Portal do Agronegócio
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