Trigo tropical ganha espaço no Brasil Central e pode reduzir dependência de importações do cereal
Pesquisa da Embrapa aponta potencial para expansão da área cultivada com trigo no Cerrado para 800 mil hectares, impulsionada por novas cultivares, manejo tecnológico e integração com sistemas produtivos.
Publicado em: 28/07/2026 às 09:30hs
A expansão do trigo tropical brasileiro foi destaque em uma capacitação promovida pela Embrapa para técnicos de cooperativas de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O encontro apresentou avanços em melhoramento genético, manejo da cultura, controle de doenças e oportunidades para ampliar a produção de trigo no Brasil Central.
Realizada na Embrapa Cerrados (DF), a programação reuniu representantes de 13 cooperativas dentro do módulo “Trigo 360: do Sul ao Cerrado”, iniciativa desenvolvida pela Embrapa e pelo Sistema OCB para fortalecer o conhecimento técnico sobre a cadeia produtiva do cereal.
Durante a visita, os participantes conheceram experimentos de campo e estratégias para aumentar a competitividade do trigo tropical, considerado uma alternativa estratégica para diversificar os sistemas agrícolas do Cerrado e reduzir a dependência brasileira das importações.
Brasil ainda depende de trigo importado para atender consumo interno
O Brasil possui uma demanda anual próxima de 12,5 milhões de toneladas de trigo, mas historicamente depende das compras externas para complementar o abastecimento nacional.
Segundo pesquisadores da Embrapa, o avanço da produção no Brasil Central representa uma oportunidade para ampliar a oferta interna, reduzir riscos logísticos e melhorar a balança comercial do país.
Entre 2021 e 2023, a área cultivada com trigo na região Central aumentou de 222 mil para 438 mil hectares, enquanto a produção passou de 600 mil para 1,3 milhão de toneladas, alcançando cerca de 16% da produção nacional no período.
Atualmente, os estados do Sul — Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — concentram aproximadamente 90% da produção brasileira, enquanto o Brasil Central responde pelos demais 10%.
A pesquisa aponta que a região possui grande potencial de expansão, com milhões de hectares em áreas de altitude favorável:
- 6,7 milhões de hectares acima de 800 metros de altitude;
- 7,2 milhões de hectares entre 600 e 800 metros, com condições adequadas ao cultivo.
Cerrado surge como nova fronteira para o trigo brasileiro
A Embrapa destaca que o trigo tropical pode ocupar uma posição estratégica nos sistemas produtivos do Cerrado, especialmente durante o período de inverno, quando alternativas agrícolas são limitadas.
A cultura apresenta benefícios como:
- diversificação de renda para produtores;
- melhoria da qualidade do solo;
- aumento da matéria orgânica e estoque de carbono;
- rotação de culturas;
- redução do ciclo de pragas e doenças;
- melhor aproveitamento de máquinas e mão de obra;
- integração com cadeias de moagem e produção de proteína animal.
Além disso, o trigo pode substituir parcialmente áreas destinadas ao milho de segunda safra em regiões onde a janela climática apresenta maior risco.
Pesquisadores estimam que a área cultivada com trigo no Brasil Central pode alcançar 800 mil hectares nos próximos anos, aumentando a participação da região no abastecimento nacional.
Manejo adequado é fundamental para reduzir riscos climáticos
Apesar do potencial produtivo, o trigo tropical exige planejamento técnico para enfrentar desafios como déficit hídrico, calor e ocorrência de doenças.
No sistema de sequeiro, recomendado principalmente para áreas acima de 700 metros de altitude, o principal desafio é a irregularidade das chuvas durante o ciclo da cultura.
Segundo especialistas da Embrapa Trigo, o sucesso depende da combinação entre:
- escolha correta da cultivar;
- planejamento da época de semeadura;
- conservação da umidade do solo;
- correção da fertilidade;
- manejo adequado da adubação;
- controle de doenças.
A recomendação é utilizar o trigo dentro das janelas indicadas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), reduzindo a exposição da lavoura aos períodos mais críticos.
No Distrito Federal e em Goiás, por exemplo, a pesquisa indica que a melhor janela para o trigo de sequeiro ocorre entre 5 e 25 de março.
Trigo irrigado amplia produtividade no Cerrado
Além do sistema de sequeiro, o trigo irrigado apresenta grande potencial no Brasil Central, principalmente em áreas com pivôs centrais.
Nesse modelo, a cultura pode atingir elevados índices produtivos, desde que o manejo seja realizado com precisão.
Entre os principais cuidados estão:
- escolha de cultivares adaptadas;
- controle do crescimento das plantas;
- equilíbrio nutricional;
- manejo correto da irrigação;
- prevenção ao acamamento.
A janela indicada pelo Zarc para o trigo irrigado no Planalto Central ocorre entre 11 de abril e 10 de junho, sendo o período de 5 a 20 de maio considerado ideal para explorar o potencial produtivo.
Brusone é principal desafio para expansão do trigo tropical
A brusone continua sendo apontada como a principal ameaça fitossanitária ao trigo cultivado no Cerrado.
A doença pode causar perdas severas quando encontra condições favoráveis, principalmente com temperaturas elevadas e longos períodos de molhamento das plantas.
De acordo com pesquisadores da Embrapa Cerrados, o controle depende de um conjunto de estratégias integradas:
- escolha de cultivares resistentes;
- respeito à época adequada de plantio;
- monitoramento climático;
- aplicação correta de fungicidas quando necessária;
- tecnologia adequada de pulverização.
Experimentos realizados pela Embrapa demonstraram que o posicionamento correto da lavoura pode reduzir significativamente a incidência da doença.
Cultivares submetidas a condições menos favoráveis apresentaram níveis inferiores a 5% de incidência, enquanto materiais suscetíveis expostos ao ambiente ideal para desenvolvimento da brusone chegaram a registrar aproximadamente 70% de infecção.
Melhoramento genético acelera desenvolvimento do trigo tropical
O avanço da triticultura no Cerrado depende diretamente da evolução genética das cultivares.
Segundo pesquisadores da Embrapa Trigo, os programas de melhoramento buscam materiais com:
- maior produtividade;
- resistência à brusone;
- tolerância à seca e ao calor;
- estabilidade produtiva;
- qualidade industrial para panificação.
Entre as tecnologias utilizadas estão ferramentas como seleção genômica, inteligência artificial aplicada à avaliação de plantas e o sistema de “speed breeding”, que permite acelerar a obtenção de novas gerações.
A combinação de genes de resistência à brusone e tolerância ao déficit hídrico é considerada uma das estratégias para aumentar a segurança da produção diante das mudanças climáticas.
Novas cultivares ampliam oportunidades para indústria e produtores
Durante a capacitação, foram apresentadas cultivares desenvolvidas para atender às demandas da indústria de moagem, incluindo materiais como BRS Savana e BRS Cracker.
As novas variedades buscam unir produtividade no campo, qualidade industrial e adaptação às condições do Cerrado brasileiro.
A expectativa é que o crescimento da produção regional estimule também a ampliação da moagem no Brasil Central, aproximando produtores, cooperativas, moinhos e indústrias de alimentos.
Trigo tropical ganha importância estratégica para o agronegócio brasileiro
Com avanços em genética, manejo e transferência de tecnologia, o trigo tropical desponta como uma das alternativas para fortalecer a segurança alimentar brasileira e ampliar a eficiência dos sistemas agrícolas.
A consolidação dessa nova fronteira produtiva dependerá da combinação entre pesquisa, assistência técnica, oferta de sementes, crédito rural, seguro agrícola e expansão das tecnologias recomendadas.
Para a Embrapa, o trigo cultivado no Cerrado representa uma oportunidade de agregar valor ao sistema produtivo, reduzir a dependência externa e tornar o Brasil mais competitivo na cadeia global do cereal.
Fonte: Portal do Agronegócio
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