Trigo paulista ganha força com qualidade superior e demanda aquecida; safra mundial amplia oportunidades para o setor
Mesmo diante da previsão de uma das maiores safras globais da história, especialistas apontam que o trigo de São Paulo conquista espaço pela qualidade, enquanto demanda internacional segue em crescimento e favorece perspectivas para a cadeia produtiva
Publicado em: 03/08/2026 às 11:45hs
A combinação entre uma oferta mundial elevada e uma demanda crescente mantém o mercado internacional de trigo em equilíbrio, mas também abre novas oportunidades para produtores brasileiros que apostam em qualidade. Em São Paulo, a expectativa é de uma safra de aproximadamente 320 mil toneladas no ciclo 2026/2027, com elevado padrão tecnológico e potencial para ampliar a participação do estado no abastecimento da indústria moageira.
O cenário foi debatido durante a segunda reunião da Câmara Setorial do Trigo do Estado de São Paulo, realizada em Pilar do Sul (SP), reunindo representantes da produção, da indústria, cooperativas e especialistas do mercado nacional e internacional.
Qualidade do trigo paulista fortalece competitividade
Durante o encontro, o presidente da Câmara Setorial do Trigo do Estado de São Paulo, Ruy Zanardi, destacou que a evolução das lavouras e as condições de desenvolvimento da cultura sustentam uma expectativa positiva para a próxima safra.
Segundo ele, embora fatores externos continuem pressionando o setor — como oscilações nas cotações internacionais, aumento dos custos dos fertilizantes e incertezas geopolíticas —, a perspectiva é de obtenção de grãos com excelente qualidade.
A previsão é de que São Paulo produza cerca de 320 mil toneladas de trigo na safra 2026/2027, mantendo o foco em produtividade e qualidade industrial, características que vêm diferenciando o cereal paulista no mercado.
Indústria destaca padrão de excelência do trigo produzido em São Paulo
O presidente do Sindustrigo, Max Piermartiri, afirmou que o trigo paulista atingiu um nível de qualidade que o coloca entre os melhores da América do Sul.
De acordo com ele, além de apresentar desempenho superior em comparação a outras regiões produtoras brasileiras, o cereal atende às exigências da indústria de moagem e da panificação, agregando valor ao produto final.
Piermartiri ressaltou ainda que, caso a expansão das áreas cultivadas continue nos próximos anos, os moinhos terão capacidade para absorver o aumento da produção, mantendo uma demanda consistente pelo trigo paulista.
Safra mundial de trigo deve alcançar 820 milhões de toneladas
O panorama internacional foi apresentado pelo Head of Wheat Trading Business da CJ Internacional, Douglas Araújo, que destacou que o mundo caminha para uma produção estimada em 820 milhões de toneladas, configurando a segunda maior safra da história, atrás apenas do ciclo anterior, quando foram produzidas cerca de 840 milhões de toneladas.
Apesar da elevada oferta global, o consumo segue avançando impulsionado por fatores estruturais, como:
- crescimento da população mundial;
- aumento da renda em diversos países;
- mudanças nos hábitos alimentares;
- maior valorização dos macronutrientes na alimentação.
Segundo o especialista, esses fatores sustentam uma perspectiva positiva para o mercado de trigo no longo prazo.
El Niño preocupa produtores e pode afetar grandes exportadores
Entre os principais fatores de risco para o mercado está a influência do El Niño, que começa a impactar as lavouras de primavera em importantes países produtores.
Na Austrália, as estimativas de produção foram reduzidas de 34 milhões para 28 milhões de toneladas.
No Canadá, a previsão caiu de 35,9 milhões para 34 milhões de toneladas, com possibilidade de novos ajustes conforme a evolução das condições climáticas.
Já nos Estados Unidos, a produção é estimada em 41,8 milhões de toneladas, uma das menores dos últimos anos, reflexo da seca nas planícies centrais e da redução da área cultivada com trigo de inverno.
Enquanto isso, a Rússia mantém uma produção confortável, estimada em 88,5 milhões de toneladas, embora as tensões envolvendo o Mar Negro continuem representando risco para a logística internacional.
Argentina segue como principal fornecedor para o mercado brasileiro
Na avaliação dos especialistas, a Argentina permanece como a origem mais competitiva para abastecer o mercado paulista.
Com expectativa de colher cerca de 21 milhões de toneladas, o país oferece vantagens relacionadas ao menor custo logístico, maior previsibilidade comercial e melhor relação entre risco e preço quando comparado a outros fornecedores internacionais.
Esse cenário fortalece o comércio entre Brasil e Argentina, especialmente para atender a demanda da indústria moageira instalada em São Paulo.
Clima pode reduzir produção no Sul do Brasil
Para o mercado brasileiro, as maiores preocupações concentram-se na Região Sul.
Os efeitos climáticos associados ao El Niño podem comprometer o desempenho das lavouras, principalmente no Rio Grande do Sul e no Paraná, estados responsáveis por grande parte da produção nacional.
Além da possibilidade de redução de produtividade, especialistas alertam que os impactos climáticos poderão influenciar inclusive o planejamento da safra 2027/2028, exigindo maior atenção dos produtores.
Cadeia do trigo debate investimentos e fortalecimento da produção
Além das análises sobre mercado e clima, a programação reuniu representantes da Ouro Safra, Castrolanda, RFA e Capal, que apresentaram iniciativas voltadas ao fortalecimento da triticultura paulista.
O evento também apresentou o Diagnóstico dos Produtores de Trigo do Estado de São Paulo, elaborado pelas Câmaras Setoriais e Temáticas, além das linhas de financiamento disponibilizadas pela Desenvolve SP para incentivar investimentos, modernização das propriedades e expansão da produção.
Perspectivas permanecem positivas
Mesmo diante da elevada oferta mundial, especialistas avaliam que a expansão do consumo global, aliada ao reconhecimento da qualidade do trigo paulista, cria um ambiente favorável para novos investimentos na cadeia produtiva.
A expectativa é que o estado continue ampliando sua competitividade, consolidando-se como referência nacional na produção de trigo de alta qualidade e fortalecendo sua participação no abastecimento da indústria brasileira.
Fonte: Portal do Agronegócio
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