Trigo no Brasil: área plantada deve cair 20% em 2026, produção encolhe e país pode ampliar importações acima de 8 milhões de toneladas
Redução da rentabilidade, aumento dos custos de produção e menor acesso ao crédito levam produtores a reduzir investimentos na cultura; Paraná registra queda nas importações no primeiro semestre, mas moinhos devem intensificar compras na segunda metade do ano
Publicado em: 20/07/2026 às 18:00hs
A triticultura brasileira enfrenta um dos cenários mais desafiadores dos últimos anos. A combinação entre custos elevados de produção, preços pressionados no mercado interno, concorrência do trigo importado e dificuldades de acesso ao crédito deve provocar uma forte retração na safra de 2026. Segundo estimativa da consultoria Safras & Mercado, a área cultivada com trigo no Brasil deve cair 20%, reduzindo significativamente a oferta nacional e aumentando a dependência das importações.
Ao mesmo tempo, dados do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab), mostram que as importações de trigo pelo estado diminuíram no primeiro semestre de 2026. No entanto, especialistas avaliam que os moinhos deverão ampliar as compras externas ao longo da segunda metade do ano para recompor estoques diante da menor produção nacional.
Área plantada e produção devem registrar forte retração
A projeção da Safras & Mercado indica que o Brasil deverá cultivar 1,905 milhão de hectares de trigo em 2026, contra 2,381 milhões de hectares na temporada anterior.
Com a redução da área e menor produtividade esperada, a produção nacional poderá atingir 5,855 milhões de toneladas, volume 27,9% inferior às 8,120 milhões de toneladas colhidas no ciclo anterior.
O rendimento médio das lavouras também tende a diminuir, passando de 3.410 quilos por hectare para 3.073 quilos por hectare, uma queda de aproximadamente 10%.
Custos elevados e baixa rentabilidade desestimulam produtores
Segundo o especialista em inteligência de mercado da Safras & Mercado, Elcio Bento, a redução da área cultivada reflete uma mudança no comportamento dos produtores diante do agravamento da relação entre custos e preços.
Entre os principais fatores estão:
- aumento expressivo dos fertilizantes, principalmente nitrogenados;
- impactos das tensões geopolíticas no Oriente Médio sobre os insumos agrícolas;
- preços internos pressionados pela ampla oferta internacional;
- concorrência crescente do trigo importado;
- sucessivas safras com margens reduzidas ou negativas.
De acordo com o analista, muitos produtores chegaram à safra de 2026 mais endividados, com menor capacidade de investimento e maior dificuldade para acessar crédito rural.
Outro ponto que pesa nas decisões é a limitada cobertura do seguro agrícola. A combinação entre elevado risco climático e baixa expectativa de retorno econômico reduziu o interesse em ampliar a área ou investir em tecnologias de maior custo.
Brasil pode ampliar importações acima de 8 milhões de toneladas
Caso a produção estimada de 5,855 milhões de toneladas seja confirmada, o Brasil deverá elevar significativamente suas compras no mercado internacional.
A expectativa é que as importações superem 8 milhões de toneladas, sobretudo se ocorrer um evento de El Niño, fenômeno climático que pode comprometer tanto a produtividade quanto a qualidade dos grãos produzidos no país.
Esse cenário tende a aumentar a dependência brasileira do trigo importado, principalmente da Argentina e de outros fornecedores internacionais.
Rio Grande do Sul e Paraná lideram as maiores quedas
O impacto da retração deverá atingir praticamente todas as regiões produtoras.
No Rio Grande do Sul, principal produtor nacional, a área plantada deverá cair 28,6%, totalizando 750 mil hectares. A produção poderá recuar 33,3%, para 2,4 milhões de toneladas, enquanto a produtividade média ficará em 3.200 quilos por hectare.
No Paraná, segundo maior produtor brasileiro, a área deverá diminuir 13,5%, alcançando 740 mil hectares. A produção é estimada em 2,2 milhões de toneladas, retração de 21,4%, com produtividade média de 2.973 quilos por hectare.
Também são esperadas reduções em:
- Santa Catarina, com queda de 21,1% na produção;
- São Paulo, retração de 19%;
- Minas Gerais, que registra a maior redução proporcional da produção, de 40%, devido aos impactos da estiagem nas lavouras de sequeiro;
- Goiás e Distrito Federal, com queda de 22%;
- Mato Grosso do Sul, retração de 28,6%;
- Bahia, onde área e produção deverão recuar cerca de 16,7%.
Segundo Safras & Mercado, as projeções representam o potencial produtivo inicial da safra e, na maior parte das regiões, ainda não incorporam possíveis perdas climáticas futuras.
Paraná reduz importações no primeiro semestre
Apesar da perspectiva de menor produção nacional, o Paraná importou menos trigo entre janeiro e junho de 2026.
Dados do Boletim Conjuntural do Deral mostram que o estado adquiriu 413 mil toneladas do cereal no período, frente às 481 mil toneladas registradas no mesmo intervalo de 2025, uma redução de 14%.
No cenário nacional, as importações brasileiras passaram de 3,57 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2025 para 2,77 milhões de toneladas em igual período de 2026.
Moinhos devem ampliar compras na segunda metade do ano
Embora as importações tenham diminuído no início do ano, a expectativa é de que os moinhos intensifiquem as compras externas durante o segundo semestre para recompor estoques.
Com menor oferta doméstica, o mercado interno poderá ficar mais sensível às oscilações dos preços internacionais e às variações do câmbio, fatores que influenciam diretamente os custos da indústria de moagem.
O impacto tende a ser relativamente menor no Paraná, que concentra o maior parque moageiro do Brasil e possui maior proximidade com as regiões produtoras. Nos estados do Sul, menos de 20% do trigo consumido pela indústria é importado, enquanto em outras regiões brasileiras essa participação supera 60%.
Mercado acompanha custos, clima e câmbio
As perspectivas para a safra brasileira de trigo em 2026 indicam um ambiente de maior cautela para produtores e indústria. A redução da área plantada, o avanço dos custos de produção, os riscos climáticos e a necessidade crescente de importações devem manter o mercado atento à evolução do câmbio, da oferta global e das condições climáticas durante todo o ciclo da cultura.
Caso as projeções se confirmem, o Brasil voltará a depender ainda mais do mercado externo para abastecer a indústria moageira, aumentando a sensibilidade do setor às oscilações internacionais e reforçando os desafios para a competitividade da triticultura nacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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