Safra nova de trigo avança no Brasil e clima aumenta risco de pressão sobre os preços
Colheita começa a ampliar a oferta no Paraná, enquanto excesso de umidade preocupa produtores no Rio Grande do Sul; liquidez permanece baixa e mercado monitora produtividade e qualidade
Publicado em: 28/08/2026 às 17:00hs
O mercado brasileiro de trigo encerrou a semana em transição, com o avanço inicial da safra nova começando a elevar a disponibilidade do cereal. O movimento, porém, ainda não provocou uma queda generalizada dos preços, diante da baixa liquidez e das incertezas envolvendo clima, produtividade e qualidade dos grãos.
Moinhos e produtores adotam posições cautelosas nas negociações. Enquanto os compradores procuram aproveitar a pressão sazonal esperada com o avanço da colheita, os vendedores evitam fixar grandes volumes antecipadamente sem conhecer o desempenho efetivo das lavouras.
O clima passou a ocupar o centro das atenções, especialmente na Região Sul. No Paraná, a confirmação de boa produtividade e qualidade poderá aumentar a pressão baixista sobre as cotações. No Rio Grande do Sul, o excesso de umidade, a nebulosidade e a baixa incidência de radiação solar ampliam os riscos de doenças e perdas produtivas.
Preço do trigo no Paraná fica próximo de R$ 1.480 por tonelada
No Paraná, a referência do trigo ficou próxima de R$ 1.480 por tonelada. Os compradores, contudo, passaram a apresentar propostas mais direcionadas à safra nova, considerando a expectativa de maior disponibilidade do cereal durante a colheita.
Nos Campos Gerais, as indicações variaram entre R$ 1.400 e R$ 1.450 por tonelada, conforme o período previsto para entrega. No Norte do estado, os valores negociados para setembro ficaram próximos de R$ 1.400 por tonelada.
O avanço da colheita ainda é limitado. Até 21 de agosto, apenas 1% da área paranaense havia sido colhida, enquanto 93% das lavouras eram classificadas em boas condições.
Segundo o analista da Safras & Mercado, Elcio Bento, a confirmação de produtividade elevada e boa qualidade dos grãos à medida que os trabalhos avançarem poderá intensificar a pressão sobre os preços do trigo no Paraná.
Colheita de trigo alcança 6,7% da área nacional
Nos oito principais estados produtores, a colheita do trigo atingiu aproximadamente 6,7% da área cultivada até 21 de agosto, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
O estágio inicial dos trabalhos ainda limita a oferta disponível da safra nova. Com isso, os preços permanecem sustentados em algumas regiões, mesmo diante da expectativa de aumento sazonal da disponibilidade nas próximas semanas.
O comportamento das cotações dependerá principalmente dos resultados de produtividade, do padrão industrial do cereal colhido e da necessidade de compra dos moinhos.
Trigo permanece mais firme no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, os preços do trigo disponível mostraram maior firmeza. Os lotes de qualidade considerada normal foram negociados em torno de R$ 1.350 por tonelada, enquanto os produtos de padrão superior alcançaram até R$ 1.400 por tonelada.
Para a safra nova, as indicações ficaram próximas de R$ 1.260 por tonelada no porto. Mesmo assim, os produtores demonstraram pouca disposição para antecipar vendas, preferindo aguardar uma definição mais clara sobre o potencial das lavouras e a evolução do mercado.
A postura cautelosa também está relacionada aos riscos climáticos. O excesso de chuvas pode elevar a incidência de doenças, dificultar os tratos culturais e comprometer tanto o rendimento quanto a qualidade industrial do trigo.
Excesso de chuva ameaça lavouras gaúchas
As condições meteorológicas ganharam relevância no mercado de trigo durante a semana. No Rio Grande do Sul, a combinação de chuva frequente, nebulosidade persistente e menor radiação solar aumenta a preocupação com o desenvolvimento das plantas.
A umidade elevada favorece doenças fúngicas e pode afetar características importantes para a comercialização, como peso hectolítrico, força do glúten e qualidade dos grãos. Eventuais perdas qualitativas também podem ampliar a diferença de preços entre os lotes destinados à moagem e aqueles direcionados à alimentação animal.
De acordo com Bento, a atenção do mercado está concentrada no estado das lavouras. Uma eventual redução da produtividade ou da qualidade poderia limitar a pressão de baixa normalmente associada ao avanço da colheita.
Trigo argentino e câmbio influenciam mercado brasileiro
No mercado internacional, o trigo argentino permaneceu cotado próximo de US$ 250 por tonelada. O país vizinho é um dos principais fornecedores do cereal ao Brasil e exerce influência direta sobre a formação das cotações domésticas.
O dólar ao redor de R$ 5,15, entretanto, reduz parte do impacto da valorização do produto argentino sobre os custos de importação. A apreciação do real torna a conversão do trigo estrangeiro menos onerosa e aumenta a competitividade do cereal importado diante da produção nacional.
Segundo o analista da Safras & Mercado, parte da valorização do trigo argentino é neutralizada pelo fortalecimento da moeda brasileira quando os preços são convertidos em reais.
Mercado de trigo aguarda avanço da safra nova
As próximas semanas serão decisivas para a formação dos preços do trigo no Brasil. A ampliação da colheita tende a elevar a oferta, sobretudo no Paraná, mas o efeito sobre as cotações dependerá dos resultados obtidos no campo.
Caso produtividade e qualidade sejam confirmadas, a pressão sazonal poderá provocar novos ajustes nos preços. Por outro lado, problemas climáticos no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, podem limitar a disponibilidade de trigo de padrão industrial e sustentar os lotes de melhor qualidade.
Nesse cenário, produtores, moinhos e tradings devem continuar acompanhando o avanço da colheita, o comportamento do câmbio e as cotações do trigo argentino antes de definir novas estratégias de compra e comercialização.
Fonte: Portal do Agronegócio
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