Preço do trigo sobe no Brasil com oferta restrita de grãos para moagem, apesar da queda externa
Colheita prejudicada pelas chuvas reduz disponibilidade de cereal de qualidade no Sul; alta do dólar encarece importações e amplia cautela dos moinhos
Publicado em: 27/10/2026 às 11:30hs
A oferta restrita de trigo adequado à moagem mantém os preços firmes no Brasil, mesmo com a queda recente das cotações internacionais. As chuvas e a elevada umidade prejudicaram a qualidade dos grãos em parte das lavouras do Sul, enquanto a valorização do dólar elevou o custo do cereal importado em Santa Catarina.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), as médias parciais de outubro, até o dia 23, foram as mais elevadas do ano em termos reais, com valores corrigidos pelo IGP-DI. A sustentação ocorre em um cenário de maior disponibilidade de trigo destinado à alimentação animal e dificuldade dos moinhos para encontrar lotes dentro dos padrões exigidos.
No mercado internacional, a perspectiva de uma colheita volumosa na Argentina e o enfraquecimento das vendas externas dos Estados Unidos pressionaram os preços na semana anterior. No entanto, a mudança recente do câmbio também passou a pesar na conta das importações brasileiras.
Qualidade da safra restringe oferta para os moinhos
De acordo com colaboradores do Cepea, grande parte do trigo colhido apresenta padrão feed, utilizado na alimentação animal, e tem sido direcionada à exportação.
Com isso, a disponibilidade de cereal de qualidade para a indústria moageira permanece limitada. No Sul, a umidade prolongada e a dificuldade para concluir a colheita ampliam a preocupação com as características dos grãos e a formação de preços.
Embora a queda das cotações externas possa melhorar a competitividade do trigo importado, a valorização do dólar pode reduzir essa vantagem quando o custo é convertido em reais.
Dólar eleva custo do trigo importado em Santa Catarina
Segundo a TF Agroeconômica, o movimento do câmbio elevou em aproximadamente R$ 170 por tonelada o custo do trigo importado em Santa Catarina. O aumento acrescenta pressão às compras dos moinhos, que também relatam dificuldade para encontrar lotes de boa qualidade no Paraguai.
A Epagri estima que a produção catarinense de trigo alcance 243 mil toneladas em 2026/27, queda de 37%. A área cultivada deve recuar cerca de 35%, enquanto a produtividade tem redução projetada de 2,5%.
Nos balcões do estado, as referências variaram de R$ 72 por saca em Rio do Sul a R$ 80 em Xanxerê.
O trigo novo da região de Ponta Grossa, no Paraná, foi indicado a R$ 1.600 por tonelada, com entrega em Santa Catarina. Não havia, contudo, informação sobre a qualidade do produto nessa indicação.
No Rio Grande do Sul, vendedores elevam pedidos
No Rio Grande do Sul, vendedores que haviam negociado trigo a R$ 1.700 por tonelada na semana anterior passaram a pedir R$ 1.850 por tonelada, segundo a consultoria. Até o levantamento, não havia confirmação de negócios no novo patamar.
O trigo argentino era indicado a US$ 320 por tonelada em Porto Alegre. Nas lavouras gaúchas, a falta de sol continuava dificultando a secagem, mesmo nos períodos sem chuva, e a qualidade do cereal novo permanecia no radar dos compradores.
Em Panambi, a cotação de balcão recuou R$ 2, para R$ 73 por saca.
Paraná registra diferenças de preço conforme a qualidade
No Paraná, as chuvas mantiveram as lavouras úmidas, e houve relatos de trigo brotado no campo, condição que pode comprometer o aproveitamento industrial.
As indicações da TF Agroeconômica mostram a diferença de preços entre os padrões de qualidade:
- Trigo tipo 1: R$ 1.650 por tonelada;
- Tipo 2: R$ 1.450 por tonelada, na condição CIF;
- Tipo 3: R$ 1.200 por tonelada, na condição CIF, com queda de R$ 100;
- Trigo para ração: entre R$ 1.100 e R$ 1.150 por tonelada no porto.
Na condição CIF, o valor indicado considera a entrega no destino informado. As referências variam conforme a qualidade do lote e as condições de negociação.
No mercado de importação, foi relatado negócio com trigo argentino a US$ 300 por tonelada no porto. O produto paraguaio foi ofertado a US$ 330 por tonelada em Ponta Grossa, sem confirmação de venda.
Argentina pode colher 23,8 milhões de toneladas de trigo
A pressão externa está relacionada, entre outros fatores, à expectativa de maior oferta argentina. Conforme o Cepea, a Bolsa de Comércio de Rosário (BCR) elevou sua projeção para a safra de trigo 2026/27 do país de 21 milhões para 23,8 milhões de toneladas.
Se confirmado, o resultado será o segundo maior dos últimos 17 anos, segundo a comparação apresentada pelo centro de pesquisas. A estimativa ainda depende das condições climáticas durante o restante do ciclo.
Para o mercado brasileiro, a evolução da safra argentina será acompanhada ao lado do câmbio e da qualidade do trigo colhido no Sul. Esses fatores influenciarão o custo das importações e a disponibilidade de matéria-prima para os moinhos nos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
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