Pão francês pode ficar mais caro: dependência do trigo importado aumenta custos e desafia produção brasileira
Mesmo com avanço da safra nacional, Brasil ainda não produz trigo suficiente para atender o consumo interno. Especialistas defendem ganhos de produtividade para reduzir a dependência das importações e conter impactos no preço do pão.
Publicado em: 06/08/2026 às 10:50hs
O tradicional pão francês, presente diariamente na mesa de milhões de brasileiros, pode sofrer novos reajustes de preço caso o Brasil continue dependente do trigo importado para abastecer sua indústria de moagem. Embora seja uma das maiores potências do agronegócio mundial, o país ainda não alcançou autossuficiência na produção do cereal, tornando o mercado interno vulnerável às oscilações do câmbio, da oferta internacional e das condições climáticas dos principais países exportadores.
A elevada demanda ajuda a explicar a importância estratégica da cultura do trigo. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip), cada brasileiro consome, em média, 31 quilos de pão por ano, volume que abastece uma cadeia formada por mais de 80 mil padarias distribuídas em todo o território nacional.
Produção de trigo cresce, mas ainda não atende a demanda nacional
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a safra brasileira de trigo alcançou aproximadamente 7,8 milhões de toneladas em 2025, representando crescimento de 3,7% em relação ao ano anterior. Apesar do avanço, a produção segue insuficiente para atender o consumo doméstico, obrigando o Brasil a importar milhões de toneladas do cereal todos os anos.
Essa dependência externa influencia diretamente os custos da cadeia produtiva. Como o trigo é adquirido no mercado internacional, fatores como valorização do dólar, problemas climáticos em países exportadores e oscilações nas cotações globais acabam refletindo no preço da farinha e, posteriormente, dos produtos derivados, especialmente o pão francês.
Produtividade é apontada como principal caminho para reduzir importações
Na avaliação de Francisco de Carvalho, gerente comercial da Hydroplan-EB, ampliar a produção brasileira passa menos pela expansão da área cultivada e mais pelo aumento da produtividade nas lavouras.
Segundo o especialista, o manejo nutricional adequado permite que as plantas expressem seu máximo potencial produtivo, reduzam perdas e produzam grãos com a qualidade exigida pela indústria moageira.
"O desafio não é apenas plantar mais trigo, mas produzir mais e melhor. Um manejo eficiente contribui para elevar a produtividade, aumentar a qualidade dos grãos e fortalecer toda a cadeia produtiva", destaca.
Panificação responde pela maior demanda de farinha de trigo
O setor de panificação é o principal destino da farinha produzida no Brasil. Dados da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), reproduzidos em estudos da Embrapa, indicam que cerca de 55% da farinha de trigo nacional é destinada à fabricação de pães.
O restante da produção abastece segmentos como massas alimentícias, biscoitos, confeitaria, uso doméstico e diversas aplicações industriais, evidenciando a importância do cereal para a segurança alimentar e para a indústria de alimentos.
Expansão do trigo no Cerrado amplia perspectivas para o setor
Tradicionalmente concentrada nos estados do Paraná e do Rio Grande do Sul, a triticultura brasileira começa a avançar para novas fronteiras agrícolas, especialmente em áreas do Cerrado.
O desenvolvimento de cultivares mais adaptadas às diferentes condições climáticas, aliado ao avanço das tecnologias de manejo, tem ampliado as possibilidades de expansão da cultura em regiões antes consideradas pouco favoráveis ao cultivo.
Para Francisco de Carvalho, o sucesso dessa expansão dependerá da adoção de práticas que garantam maior eficiência durante todo o ciclo produtivo.
Segundo ele, plantas bem nutridas apresentam maior resistência aos períodos de estresse climático, maior estabilidade produtiva e produzem grãos de melhor qualidade, fatores que contribuem para aumentar a competitividade da cadeia nacional.
Dependência do mercado externo pode pressionar o preço do pão
Embora o Brasil importe principalmente o grão e não a farinha já processada, essa dependência internacional continua sendo um fator de risco para consumidores e indústrias.
Sempre que há valorização do dólar, redução da oferta global ou problemas nas safras dos principais fornecedores, os custos de aquisição do trigo aumentam e tendem a ser repassados para moinhos, padarias e fabricantes de alimentos.
Nesse cenário, o preço do pão francês — um dos alimentos mais consumidos pelos brasileiros — torna-se sensível às variações do mercado internacional.
Eficiência no campo fortalece toda a cadeia do trigo
Especialistas avaliam que aumentar a produtividade das lavouras brasileiras é uma das principais estratégias para reduzir a necessidade de importações, ampliar a competitividade do setor e oferecer maior estabilidade aos preços dos alimentos.
Além de beneficiar os produtores rurais, uma cadeia do trigo mais eficiente fortalece a indústria, reduz a exposição às oscilações externas e contribui para garantir maior segurança no abastecimento de um dos alimentos mais presentes na rotina das famílias brasileiras.
Fonte: Portal do Agronegócio
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