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Bovinos Leite

Cruzamento com Angus pode ampliar receita de produtores de leite com carne a pasto

Pesquisador do INRAE apresenta em Chapecó sistema que combina sêmen sexado, genética de corte e alimentação com pastagens; animais chegaram a cerca de 600 quilos ao abate na experiência francesa


Publicado em: 07/10/2026 às 11:55hs

Cruzamento com Angus pode ampliar receita de produtores de leite com carne a pasto

A produção de carne bovina a partir do rebanho leiteiro pode abrir uma fonte complementar de receita nas propriedades. A estratégia apresentada pelo pesquisador francês Luc Delaby, do Instituto Nacional de Pesquisa para Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da França (INRAE), combina o uso de sêmen sexado para reposição das vacas leiteiras com cruzamentos Angus destinados à produção de carne, em sistemas alimentados principalmente com pastagens.

O modelo foi apresentado nesta terça-feira (6), em Chapecó (SC), durante o 5º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte. O encontro abriu a programação do 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet).

Com aproximadamente quatro décadas de pesquisa na França, Delaby estuda a produção leiteira a pasto, o aproveitamento das pastagens e as relações entre genética e ambiente. Na experiência relatada, o planejamento reprodutivo permite aproveitar parte das vacas leiteiras para gerar animais com características valorizadas pela cadeia da carne.

Sêmen sexado permite direcionar parte do rebanho à produção de carne

A integração começa pela definição dos animais que produzirão as futuras vacas do plantel. O sêmen sexado é utilizado nas fêmeas selecionadas para gerar a reposição leiteira. As demais podem receber sêmen de touros de corte, criando um programa de produção de carne dentro da propriedade.

Segundo Delaby, essa organização amplia as possibilidades de aproveitamento econômico do rebanho. Os animais destinados ao abate passam a ser tratados como um coproduto planejado da atividade leiteira, com genética, alimentação e manejo próprios.

O avanço das tecnologias reprodutivas é central para essa mudança. Ao concentrar a produção de fêmeas de reposição nos animais de maior interesse, o produtor ganha espaço para utilizar genética de corte em outra parcela do plantel.

Por que o Angus foi escolhido para os cruzamentos

Na pesquisa conduzida pelo INRAE, touros Angus foram cruzados com vacas das raças Holandesa, Normanda e Jersey.

Delaby destacou características que favorecem a utilização do Angus nesse sistema, como facilidade de parto, precocidade, ausência de chifres e capacidade de deposição de gordura em dietas com forte participação de pastagem. A qualidade da carne e sua adequação à demanda do mercado também orientaram a escolha.

A proposta busca reunir atributos úteis para toda a cadeia: reprodução compatível com o rebanho leiteiro, desempenho em sistemas a pasto e carcaças que atendam às exigências dos frigoríficos e dos consumidores.

Animais chegaram a cerca de 600 quilos ao abate

Após o nascimento e a fase inicial de criação, os animais da experiência francesa permaneceram grande parte do ciclo em pastagens. O objetivo do sistema é atingir o abate em aproximadamente dois anos, com baixa dependência de concentrados.

Os cruzamentos Angus com Holandês e Normando apresentaram pesos próximos de 600 quilos ao abate. Nos animais originados de vacas Jersey, o peso ficou em torno de 515 quilos.

O ganho médio de peso foi próximo de 700 gramas por dia ao longo do ciclo, chegando a aproximadamente um quilo diário na fase final. Segundo o pesquisador, nos últimos meses a terminação foi realizada com silagem de gramínea, sem fornecimento de concentrado.

Esses resultados se referem à experiência conduzida na França e apresentada durante o evento em Chapecó.

Pastagem e volumosos sustentam o sistema alimentar

O modelo utiliza aproximadamente 400 quilos de concentrado por animal na fase inicial de criação. No restante do ciclo, a alimentação é baseada principalmente em pastagem, silagem e outros volumosos.

Para Delaby, controlar o custo alimentar e a demanda de mão de obra é decisivo para tornar a produção de carne uma atividade complementar ao leite. O sistema precisa acrescentar valor ao rebanho e ser compatível com a rotina da propriedade.

Nesse contexto, o aproveitamento das pastagens ocupa posição central na estratégia. A proposta é associar o desempenho dos cruzamentos à disponibilidade de alimento volumoso, reduzindo a dependência de concentrados ao longo da criação.

Rendimento de carcaça ficou próximo de 50%

A pesquisa também avaliou rendimento de carcaça, proporções de músculo, gordura e ossos, além de características sensoriais da carne.

O rendimento de carcaça ficou próximo de 50%, com diferenças relativamente pequenas entre os cruzamentos. Delaby relatou resultados positivos nos testes de cor, aparência e maciez.

A avaliação desses atributos ajuda a verificar se o ganho obtido dentro da fazenda se traduz em um produto adequado ao mercado. Para o pesquisador, o sucesso do modelo depende de atender às necessidades do produtor, da indústria frigorífica e do consumidor.

Integração entre leite e carne abre alternativa de diversificação

A experiência francesa parte de um cenário em que o país importa parte da carne bovina consumida, apesar de possuir tradição pecuária e um expressivo rebanho leiteiro. O cruzamento com raças de corte representa uma possibilidade de ampliar a oferta aproveitando animais já presentes nas propriedades.

A principal mudança está no planejamento. Em vez de considerar os bezerros que não serão utilizados na reposição apenas como resultado secundário da produção de leite, o sistema estabelece uma estratégia específica para sua criação e terminação.

Na avaliação de Delaby, o produtor pode agregar valor ao rebanho, enquanto os frigoríficos recebem carcaças adequadas ao mercado e os consumidores encontram carne produzida com elevada participação de pastagens.

O modelo apresentado também contribui para o debate sobre diversificação de receitas em regiões de forte atividade leiteira, como o Sul do Brasil. A combinação de planejamento reprodutivo, genética de corte e manejo alimentar abre possibilidades de integração entre as duas cadeias.

O 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite segue até quinta-feira (8), no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó. A edição celebra os 15 anos do encontro e integra as comemorações dos 55 anos do Nucleovet.

Fonte: Portal do Agronegócio

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