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Mercado de trigo: safra brasileira recua 37%, importações podem bater recorde histórico de 9,75 milhões de toneladas

Congresso da Abitrigo confirma cenário de maior dependência externa, enquanto problemas climáticos reduzem a produção e comprometem a qualidade do cereal. Câmbio e oferta limitada sustentam os preços do trigo de melhor qualidade no mercado nacional.


Publicado em: 30/10/2026 às 17:00hs

Mercado de trigo: safra brasileira recua 37%, importações podem bater recorde histórico de 9,75 milhões de toneladas

O mercado brasileiro de trigo encerra outubro sob pressão de uma combinação de fatores que desafia produtores, moinhos e demais integrantes da cadeia: redução da safra nacional, perda de qualidade dos grãos, aumento da dependência externa e instabilidade cambial. Nesse cenário, as cotações do trigo de melhor qualidade permanecem firmes, enquanto os produtos inferiores enfrentam descontos mais expressivos.

O panorama foi um dos principais assuntos do 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, realizado nos dias 21, 22 e 23 de outubro. O encontro reuniu representantes do setor para discutir os desafios da cadeia produtiva e as perspectivas de abastecimento.

Durante o evento, a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) consolidou a expectativa de que o Brasil importe aproximadamente 9 milhões de toneladas de trigo, volume que representa um recorde histórico em três décadas.

As projeções da consultoria Safras & Mercado, entretanto, apontam para um cenário ainda mais desafiador: as importações brasileiras podem alcançar 9,75 milhões de toneladas, diante de uma produção doméstica significativamente menor.

Safra brasileira de trigo 2026/27 deve recuar 37%

De acordo com a Safras & Mercado, a produção brasileira de trigo na temporada 2026/27 está estimada em 5,096 milhões de toneladas, uma redução de 449 mil toneladas, ou 8,1%, em relação à estimativa anterior.

Na comparação com as 8,12 milhões de toneladas colhidas na temporada 2025/26, a queda chega a aproximadamente 37%.

O desempenho negativo está relacionado principalmente às condições climáticas desfavoráveis durante o desenvolvimento das lavouras. Chuvas frequentes, baixa luminosidade e maior incidência de doenças comprometeram tanto a produtividade quanto a qualidade dos grãos nas principais regiões produtoras.

Segundo o analista da Safras & Mercado, Thiago Oleto, os problemas climáticos afetaram praticamente todas as regiões produtoras do país.

Em São Paulo, os levantamentos indicam perdas que podem atingir aproximadamente 95% da safra. No Paraná, apesar de a colheita ter alcançado 88% da área cultivada, a avaliação das lavouras apresentou deterioração significativa.

A parcela das áreas classificadas em boas condições caiu de 60% para 41% ao longo de outubro, evidenciando os impactos das adversidades climáticas.

Trigo Tipo 1 fica escasso e amplia diferença entre preços

Além da redução no volume produzido, a perda de qualidade dos grãos tornou o abastecimento ainda mais desafiador para a indústria moageira.

O trigo Tipo 1, que apresenta características adequadas para a fabricação de farinha destinada à panificação, tornou-se mais escasso no mercado brasileiro.

Com a oferta limitada de lotes de melhor qualidade, os preços desse produto passaram a encontrar maior sustentação. Em contrapartida, os lotes de qualidade inferior precisam oferecer descontos mais elevados para atrair compradores.

Essa diferença reforça a importância da classificação dos grãos na formação dos preços e aumenta a seletividade dos moinhos na aquisição da matéria-prima.

Paraná mantém preços firmes, enquanto Rio Grande do Sul registra recuos

O comportamento das cotações apresentou diferenças importantes entre os dois principais estados produtores de trigo do Brasil.

No Paraná, a disponibilidade reduzida de cereal com qualidade adequada à indústria contribuiu para sustentar os preços. Em Ponta Grossa, a tonelada encerrou outubro cotada a R$ 1.520.

No Rio Grande do Sul, por outro lado, o avanço da colheita aumentou a oferta disponível e pressionou as referências comerciais.

Com aproximadamente 19% da área colhida, os preços gaúchos registraram recuos de até 9% desde o início do mês. Em Carazinho, a tonelada foi negociada a R$ 1.420.

A diferença entre os dois mercados demonstra como a disponibilidade regional e a qualidade do produto continuam sendo fatores determinantes para a formação das cotações.

Dólar e trigo argentino influenciam o mercado brasileiro

Durante boa parte de outubro, o trigo argentino funcionou como referência para limitar as altas dos preços no mercado brasileiro.

Segundo Thiago Oleto, a combinação de dólar abaixo de R$ 5,00 e redução dos preços de exportação na Argentina diminuiu o custo de aquisição do cereal importado, aumentando a competitividade do produto estrangeiro.

Até 20 de outubro, aproximadamente 41% do trigo embarcado pela Argentina naquele mês tinha o Brasil como destino.

Entretanto, o cenário mudou na reta final do período. Após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais, o dólar registrou valorização superior a 8% frente ao real no pregão de 26 de outubro.

A disparada cambial encareceu a aquisição do trigo importado e ofereceu sustentação adicional às cotações do produto nacional.

Com isso, o câmbio voltou a desempenhar papel decisivo na competitividade do trigo brasileiro e na definição dos preços praticados pelos fornecedores internacionais.

Argentina concentra 75,3% das importações programadas de trigo

Os dados do line-up de importação, que acompanha a programação dos desembarques de trigo nos portos brasileiros, indicam a previsão de chegada de 1,208 milhão de toneladas entre setembro e dezembro.

O volume representa crescimento de 37,9% em relação às 875,9 mil toneladas programadas para o mesmo intervalo da temporada anterior.

A distribuição mensal dos desembarques previstos é a seguinte:

  • Setembro: 305,3 mil toneladas;
  • Outubro: 539,1 mil toneladas;
  • Novembro: 334 mil toneladas;
  • Dezembro: 30 mil toneladas.

A Argentina permanece como principal fornecedora do cereal para o Brasil, concentrando 910.255 toneladas, equivalentes a 75,3% do volume programado.

O Canadá aparece na segunda posição, com 97.066 toneladas, representando 8% das importações previstas. Outros 201 mil toneladas, correspondentes a 16,6%, ainda têm origem a confirmar.

A concentração das compras no mercado argentino reforça a importância do país vizinho para a segurança do abastecimento da indústria brasileira.

São Paulo lidera os desembarques de trigo importado

A distribuição regional das importações também evidencia a concentração logística do abastecimento nacional.

São Paulo aparece como principal destino do trigo importado, com 327.494 toneladas programadas para desembarque.

Na sequência estão:

  • Ceará: 201.837 toneladas;
  • Paraná: 188.175 toneladas;
  • Bahia: 154.769 toneladas;
  • Pernambuco: 120.800 toneladas.

Juntos, os cinco estados concentram 82,2% do volume total previsto para desembarque no período.

Até o momento do levantamento, não havia registros de movimentação de trigo por cabotagem.

Perspectivas para o mercado brasileiro de trigo

O cenário para o mercado brasileiro de trigo permanece condicionado à combinação entre oferta interna, qualidade dos grãos, disponibilidade internacional e comportamento do câmbio.

A redução da safra 2026/27 e os problemas de qualidade aumentam a necessidade de importações para atender à demanda da indústria moageira. Com isso, o Brasil tende a ampliar sua exposição às condições comerciais dos fornecedores internacionais, especialmente da Argentina.

Para os produtores nacionais, a escassez de trigo de melhor qualidade pode representar oportunidades de preços mais firmes, embora o comportamento do dólar e a competitividade do cereal importado continuem limitando a valorização.

Para os moinhos, o desafio será garantir o abastecimento e encontrar lotes com características adequadas para atender às diferentes demandas da indústria alimentícia.

A perspectiva de importações próximas de 9,75 milhões de toneladas evidencia a dimensão do desequilíbrio entre produção e consumo e reforça a importância de recuperar a produtividade e a qualidade do trigo brasileiro nas próximas temporadas.

Fonte: Portal do Agronegócio

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