Preço do arroz sobe 22% no RS com oferta menor, exportações firmes e risco de El Niño
Saca de 50 quilos avança de R$ 60,33 para R$ 73,60; Itaú BBA aponta redução da produção e dos estoques brasileiros na safra 2026/27, mas descarta escassez no curto prazo
Publicado em: 20/08/2026 às 10:10hs
O mercado brasileiro de arroz iniciou um processo de recuperação, sustentado pela redução dos excedentes disponíveis, pela necessidade de reposição das indústrias e pelo crescimento das exportações. A possibilidade de um El Niño mais intenso acrescenta riscos à próxima safra e reforça o cenário de preços firmes nos próximos meses.
A análise consta no Agro Mensal de agosto, relatório divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. O estudo mostra que a valorização recente representa um alívio para os produtores, após um período de margens pressionadas, mas destaca que os estoques ainda são suficientes para atender ao consumo doméstico no curto prazo.
Preço do arroz avança 22% no Rio Grande do Sul
O preço do arroz em casca registrou forte valorização durante julho e o início de agosto. No Rio Grande do Sul, principal estado produtor do país, a saca de 50 quilos passou de R$ 60,33 em 1º de julho para R$ 73,60 em 13 de agosto.
O aumento foi de aproximadamente 22% em pouco mais de um mês.
A recuperação reflete o aperto gradual da oferta, provocado pela redução dos estoques disponíveis, pela retenção de volumes por parte dos produtores e pela necessidade de reposição das indústrias beneficiadoras.
Com a menor presença dos vendedores e a necessidade de garantir matéria-prima, os compradores passaram a atuar de maneira mais ativa, contribuindo para a sustentação das cotações.
Indústrias aumentam procura por arroz
A demanda das indústrias beneficiadoras ganhou força à medida que os estoques adquiridos anteriormente começaram a diminuir.
Parte dos produtores, por sua vez, passou a restringir as vendas diante da expectativa de preços mais elevados. Essa postura reduziu a liquidez em alguns momentos, mas fortaleceu as referências de mercado.
O cenário também é influenciado pelas perspectivas para a safra 2026/27, que apontam nova redução da produção brasileira e menor disponibilidade de arroz no Mercosul.
Exportações crescem 25% e ajudam a reduzir excedentes
As exportações brasileiras desempenham papel importante na recuperação dos preços. Embora os embarques tenham recuado em julho, o desempenho acumulado no ano permanece positivo.
Entre janeiro e julho, o Brasil exportou aproximadamente 1,2 milhão de toneladas de arroz. O volume representa crescimento de 25% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A valorização do dólar aumentou a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional, favorecendo os embarques e ajudando a retirar excedentes do mercado interno.
A continuidade desse fluxo exportador será determinante para o equilíbrio entre oferta e demanda durante a entressafra.
Conab anuncia compra de 310 mil toneladas de arroz
Diante dos riscos climáticos e da perspectiva de menor produção, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) anunciou a aquisição de 310 mil toneladas de arroz por meio de Aquisições do Governo Federal (AGF).
A operação busca recompor os estoques públicos e criar uma reserva estratégica para reduzir os impactos de eventuais problemas climáticos sobre o abastecimento nacional.
A retirada desse volume do mercado também contribui para reduzir parte dos excedentes e fortalecer os preços pagos aos produtores.
O Itaú BBA pondera, entretanto, que a medida pode estimular uma retenção ainda maior de arroz nas propriedades, justamente no momento em que o mercado passa por um processo de reequilíbrio.
Estoques brasileiros podem cair para 694 mil toneladas
As projeções apresentadas pelo relatório apontam queda expressiva nos estoques brasileiros de arroz ao longo da safra 2026/27.
O estoque inicial está estimado em 1,67 milhão de toneladas. Ao final do ciclo, o volume poderá recuar para aproximadamente 694 mil toneladas, redução próxima de 58%.
Na temporada 2025/26, os estoques iniciais estavam em 2,19 milhões de toneladas e os finais foram projetados em 1,67 milhão.
A possível redução para menos de 700 mil toneladas representa uma mudança importante nos fundamentos do mercado e tende a limitar a disponibilidade durante a entressafra seguinte.
Mercado começa a superar período de preços baixos
Segundo o Itaú BBA, a recuperação observada nos últimos meses indica que o mercado pode ter superado o período de piso das cotações.
O movimento oferece algum alívio ao setor produtivo e permite uma recomposição gradual das margens. Entretanto, a continuidade da alta dependerá da velocidade com que os excedentes serão absorvidos.
Entre os fatores determinantes para os preços estão:
- Ritmo das exportações brasileiras;
- Necessidade de reposição das indústrias;
- Comportamento dos produtores na comercialização;
- Evolução dos estoques durante a entressafra;
- Área cultivada na próxima temporada;
- Condições climáticas no Sul do Brasil;
- Oferta disponível nos países do Mercosul.
Estoques ainda garantem abastecimento no curto prazo
Apesar da previsão de queda, o relatório ressalta que os estoques atuais permanecem confortáveis e suficientes para atender ao consumo doméstico no curto prazo.
Essa disponibilidade limita movimentos mais intensos de valorização. Portanto, o cenário não indica uma escassez imediata de arroz no mercado brasileiro.
Para que os preços mantenham uma trajetória consistente de alta, será necessário que as exportações continuem firmes, que as indústrias avancem nas compras e que os produtores mantenham uma comercialização mais restritiva.
Produção brasileira pode recuar na safra 2026/27
As perspectivas para a próxima temporada apontam uma nova redução da produção nacional. A retração esperada está associada aos preços baixos observados anteriormente, que comprometeram as margens e podem desestimular o plantio.
A diminuição da área cultivada, combinada aos riscos climáticos, tende a reduzir a oferta disponível ao longo do ciclo 2026/27.
O Rio Grande do Sul concentra a maior parte da produção brasileira e, por isso, qualquer problema climático no estado pode provocar impactos relevantes sobre o abastecimento e os preços nacionais.
El Niño aumenta risco para lavouras de arroz
O possível fortalecimento do El Niño durante o segundo semestre é um dos principais pontos de atenção para o mercado.
O fenômeno costuma elevar o volume de chuvas no Sul do Brasil. Precipitações excessivas podem atrasar o plantio, prejudicar a implantação das lavouras, dificultar o manejo e aumentar os riscos durante a colheita.
O El Niño também pode afetar países produtores da Ásia, elevando a incerteza sobre a oferta mundial e aumentando a sensibilidade dos preços às previsões meteorológicas.
Ainda não há, segundo a análise, evidências de uma quebra generalizada. O clima, entretanto, deverá permanecer como um dos principais componentes de risco para a formação das cotações.
Oferta mundial também pode diminuir
No mercado internacional, as perspectivas apontam redução da produção e dos estoques mundiais de arroz durante a temporada 2026/27.
A combinação entre oferta menor e demanda firme contribuiu para a recuperação das cotações internacionais nos últimos meses. O avanço do El Niño acrescenta incertezas, especialmente para os principais países produtores da Ásia.
Mesmo assim, o mercado global ainda apresenta algum conforto. Os estoques mundiais permanecem elevados e a Índia dispõe de ampla oferta exportável, o que reduz o risco de uma escassez iminente.
Índia limita altas mais intensas no mercado internacional
A disponibilidade de arroz indiano funciona como um importante fator de equilíbrio para o comércio mundial.
A Índia possui grande capacidade de exportação e pode ampliar os embarques quando os preços internacionais se tornam mais atrativos. Esse potencial limita movimentos mais fortes de alta, mesmo diante das preocupações climáticas.
Assim, o cenário internacional tende a permanecer firme, mas condicionado às decisões comerciais indianas e ao desenvolvimento das lavouras asiáticas.
Perspectiva para o preço do arroz é mais positiva
Os fundamentos do mercado tornaram-se mais favoráveis para os produtores brasileiros. A redução da produção esperada, o crescimento das exportações, a queda projetada dos estoques e os riscos associados ao El Niño podem sustentar as cotações nos próximos meses.
A valorização, contudo, tende a ocorrer de forma gradual. Os estoques disponíveis e a oferta internacional ainda funcionam como limitadores para altas mais expressivas.
Para o produtor, o cenário exige planejamento na comercialização, acompanhamento dos custos e atenção às oportunidades de venda durante a entressafra. Para a indústria, a reposição antecipada pode ganhar importância diante da perspectiva de menor disponibilidade na safra 2026/27.
Fonte: Portal do Agronegócio
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