Algodão sobe em Nova York e Brasil consolida liderança nas exportações globais
Cotações internacionais avançam 5,9% em agosto, enquanto estoques mundiais devem cair 7%; vendas antecipadas chegam a 74% da safra 2025/26 em Mato Grosso
Publicado em: 20/08/2026 às 10:40hs
O mercado do algodão ganhou força entre julho e agosto, sustentado pela recuperação da demanda internacional, pela redução projetada dos estoques mundiais e pelos riscos climáticos nos principais países produtores. No Brasil, a alta do dólar e o desempenho recorde das exportações impulsionaram os preços e aceleraram a comercialização das safras.
A análise consta no Agro Mensal de agosto, relatório divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. O cenário para a fibra tornou-se mais construtivo, embora o mercado permaneça atento às lavouras dos Estados Unidos, da China e da Índia.
Algodão sobe para 82,12 centavos de dólar em Nova York
No mercado internacional, o primeiro vencimento do algodão negociado em Nova York registrou média de 77,54 centavos de dólar por libra-peso em julho, valorização de 4,9% em relação a junho.
A alta ganhou intensidade em agosto. Na parcial do mês, a média alcançou 82,12 centavos de dólar por libra-peso, avanço de 5,9% sobre julho.
O movimento foi sustentado pelo fortalecimento da demanda dos principais importadores, especialmente na Ásia, e pela expectativa de redução dos estoques em países consumidores e exportadores.
Um ambiente macroeconômico mais favorável às commodities também contribuiu para a recuperação das cotações após meses de elevada volatilidade.
Demanda da China e da Índia sustenta preços
As expectativas de aumento do consumo de algodão na China e na Índia ajudaram a fortalecer o mercado internacional.
O consumo mundial deverá alcançar 26,8 milhões de toneladas na temporada 2026/27, crescimento de 2% em relação às 26,3 milhões de toneladas estimadas para o ciclo anterior.
O avanço da indústria têxtil asiática amplia a necessidade de importação e contribui para absorver parte da oferta dos principais exportadores, incluindo Brasil e Estados Unidos.
As compras chinesas e a evolução das exportações norte-americanas deverão permanecer entre os fatores mais importantes para a formação dos preços nos próximos meses.
Preço do algodão reage no Brasil
No mercado brasileiro, os preços apresentaram comportamentos diferentes entre julho e agosto.
Em julho, a cotação média do algodão em Rondonópolis (MT) ficou em R$ 3,80 por libra-peso, queda de 1,4% sobre o mês anterior. A retração refletiu a entrada da nova safra e o aumento da disponibilidade de pluma.
Na parcial de agosto, o preço médio avançou para R$ 3,91 por libra-peso, alta de 2,9% em relação a julho.
A recuperação foi sustentada pela valorização em Nova York, pelo avanço do dólar e pela demanda firme dos importadores. A menor disposição dos vendedores para negociar em patamares reduzidos também contribuiu para sustentar as cotações.
Brasil exporta 3,4 milhões de toneladas de algodão
O Brasil consolidou sua posição como maior exportador mundial de algodão, ampliando a presença em mercados tradicionalmente atendidos por outros fornecedores.
No ciclo comercial 2025/26, compreendido entre agosto e julho, as exportações brasileiras alcançaram 3,4 milhões de toneladas. O volume representa crescimento de 18,5% em comparação com os 2,9 milhões de toneladas do ciclo anterior.
A evolução dos embarques nos últimos anos evidencia a expansão brasileira no comércio internacional:
- 2022/23: 1,5 milhão de toneladas;
- 2023/24: 2,7 milhões de toneladas;
- 2024/25: 2,9 milhões de toneladas;
- 2025/26: 3,4 milhões de toneladas.
Em três temporadas, o volume exportado pelo Brasil mais que dobrou. Esse crescimento amplia a importância da demanda externa para a formação dos preços domésticos.
Estoques globais de algodão devem cair 7%
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta redução significativa dos estoques mundiais de algodão na temporada 2026/27.
Os estoques finais estão estimados em 15,2 milhões de toneladas, queda de 7% em relação às 16,3 milhões previstas para o ciclo anterior.
A relação entre estoques e consumo deve recuar de 62% para 57%, o menor percentual das quatro temporadas apresentadas no relatório.
Essa redução indica um mercado global mais ajustado e aumenta a sensibilidade das cotações a problemas climáticos, mudanças na demanda e eventuais perdas de produção.
Produção mundial pode cair para 25,6 milhões de toneladas
A produção mundial de algodão está projetada em 25,6 milhões de toneladas em 2026/27. O volume representa retração de 4% em relação às 26,6 milhões estimadas na temporada anterior.
Ao mesmo tempo, o consumo global deverá avançar para 26,8 milhões de toneladas. A demanda, portanto, poderá superar a produção em aproximadamente 1,2 milhão de toneladas.
Esse déficit deverá ser compensado pelos estoques acumulados, provocando a redução das reservas mundiais.
Balanço global do algodão para 2026/27
- Produção mundial: 25,6 milhões de toneladas;
- Consumo global: 26,8 milhões de toneladas;
- Estoque inicial: 16,3 milhões de toneladas;
- Estoque final: 15,2 milhões de toneladas;
- Relação estoque/consumo: 57%;
- Produção do Brasil: 4 milhões de toneladas;
- Produção dos Estados Unidos: 3 milhões de toneladas;
- Produção da China: 7,3 milhões de toneladas;
- Produção da Índia: 5,2 milhões de toneladas;
- Produção do Paquistão: 1,1 milhão de toneladas.
Produção brasileira pode recuar 3%
Para o Brasil, o balanço aponta produção de 4 milhões de toneladas de algodão em 2026/27, redução de 3% em relação às 4,1 milhões de toneladas estimadas para o ciclo anterior.
Apesar do recuo, o volume permanece elevado e mantém o país entre os maiores produtores e na liderança das exportações mundiais.
O desafio será equilibrar a entrada da produção com a demanda internacional. O forte ritmo dos embarques e o avanço da comercialização antecipada reduzem o risco de pressão excessiva sobre o mercado interno durante a colheita.
Safra dos Estados Unidos enfrenta risco de produtividade
O USDA reduziu levemente sua projeção para a produção de algodão dos Estados Unidos devido à expectativa de menor produtividade, mesmo após ampliar a estimativa de área plantada.
A redução da produção foi integralmente transferida para os estoques finais norte-americanos, mantidos em aproximadamente 900 mil toneladas.
As condições climáticas nas principais regiões produtoras dos Estados Unidos serão acompanhadas com atenção. Perdas adicionais de produtividade poderão apertar ainda mais o balanço norte-americano e oferecer suporte às cotações em Nova York.
Calor ameaça produção de algodão na China
Na China, as temperaturas acima da média em Xinjiang, principal província produtora do país, elevaram as preocupações com a queda das maçãs de algodão.
A produção chinesa está projetada em 7,3 milhões de toneladas para 2026/27, redução de 6% sobre as 7,8 milhões estimadas para a temporada anterior.
Após sucessivos recordes de produção, uma perda de produtividade poderá ampliar o impacto da redução da área plantada e aumentar a necessidade chinesa de importação.
Esse cenário tende a favorecer os principais exportadores, especialmente o Brasil.
El Niño coloca safra da Índia no radar
A possibilidade de desenvolvimento do El Niño no Oceano Pacífico também acrescenta incertezas para a produção indiana.
O principal risco é a ocorrência de déficit hídrico durante o ciclo agrícola. As lavouras de algodão da Índia dependem fortemente das chuvas de monção, o que aumenta sua vulnerabilidade a alterações no regime de precipitações.
Apesar de um início mais lento, a monção avançou sobre grande parte do país e reduziu os temores de uma temporada excessivamente seca.
A produção indiana está projetada em 5,2 milhões de toneladas, praticamente estável em relação ao ciclo anterior.
Mato Grosso comercializa 74% da safra 2025/26
O avanço dos preços internacionais, a valorização do dólar e o ritmo acelerado das exportações impulsionaram a comercialização em Mato Grosso.
As vendas da safra 2025/26 alcançaram aproximadamente 74% da produção estimada, retornando a níveis próximos da média histórica.
Para a safra 2026/27, cerca de 32% da produção já foi negociada antecipadamente.
O avanço das vendas futuras demonstra maior confiança dos produtores nas oportunidades de proteção de margens. A comercialização antecipada também reduz a exposição às oscilações do mercado durante a colheita.
Cenário do algodão é mais favorável, mas clima exige atenção
Os fundamentos globais apontam um ambiente mais positivo para o algodão. A combinação entre consumo crescente, produção menor e redução dos estoques tende a sustentar as cotações internacionais.
No Brasil, a liderança nas exportações, o dólar e o avanço da comercialização oferecem suporte adicional aos preços.
O mercado, entretanto, continuará sujeito à volatilidade. As condições climáticas nos Estados Unidos, na China e na Índia, além do comportamento das compras chinesas, serão determinantes para a trajetória das cotações.
Para o produtor brasileiro, a estratégia deve considerar vendas escalonadas, proteção cambial e acompanhamento das margens. O avanço já registrado na comercialização reduz riscos, mas ainda preserva parte da produção para eventuais oportunidades de valorização.
Fonte: Portal do Agronegócio
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