Trigo tem negócios travados no Brasil, enquanto alta em Chicago eleva atenção para oferta e importações
Baixa demanda por farinha reduz o ritmo de moagem e limita as negociações no Sul do Brasil, enquanto interrupções nas exportações pelo Mar Negro impulsionam o trigo na Bolsa de Chicago
Publicado em: 20/08/2026 às 11:40hs
O mercado de trigo segue com baixa liquidez no Brasil, especialmente na região Sul, diante da demanda enfraquecida por farinha, do menor ritmo de moagem e da diferença entre os preços pedidos por vendedores e os valores aceitos pelos compradores. Ao mesmo tempo, o cenário internacional ganhou força com a forte alta do trigo na Bolsa de Chicago, impulsionada pelas interrupções nas exportações do Mar Negro.
O contraste entre um mercado doméstico mais lento e um ambiente internacional mais firme mantém os agentes atentos aos próximos movimentos de preços, à necessidade de importações e ao comportamento da nova safra brasileira.
Baixa demanda limita os negócios de trigo no Sul
Segundo a TF Agroeconômica, o mercado brasileiro permanece marcado por negociações pontuais e pouca disposição dos compradores em assumir posições maiores.
No Rio Grande do Sul, a cobertura dos moinhos avançou pouco e chega, como referência, até 30 de setembro. A situação combina oferta restrita de matéria-prima com qualidade adequada e uma demanda mais fraca por farinha.
Os vendedores gaúchos trabalham com pedidos próximos de R$ 1.350 por tonelada FOB, enquanto os compradores indicam valores de até R$ 1.320, sem que a diferença tenha permitido novos fechamentos relevantes.
As operações mais recentes foram realizadas a R$ 1.300 por tonelada para embarque em agosto e R$ 1.320 para setembro, envolvendo trigo não segregado. Para produtos segregados, os valores são superiores.
Trigo argentino ganha espaço no Rio Grande do Sul
A disponibilidade regional também está sendo complementada por produto importado.
Um carregamento de aproximadamente 31 mil toneladas de trigo argentino chegou ao Rio Grande do Sul, com indicação de US$ 290 por tonelada CIF Canoas.
A presença do trigo argentino reforça a importância das importações para o abastecimento da indústria brasileira, principalmente em períodos de menor disponibilidade de trigo nacional com características adequadas à moagem.
Nova safra ainda encontra resistência entre compradores e vendedores
Para a nova safra, aproximadamente 60 mil toneladas foram negociadas até o momento entre moinhos e exportadores.
Houve interesse comprador em torno de R$ 1.400 por tonelada FOB para dezembro, mas as negociações não avançaram porque os vendedores esperam preços mais elevados.
Em Panambi, o preço de balcão permanece em aproximadamente R$ 69 por saca.
A diferença de expectativas entre os agentes mantém o mercado cauteloso e reduz o volume de negócios antecipados.
Santa Catarina tem oferta local limitada
Em Santa Catarina, a falta de ofertas locais faz com que os moinhos recorram eventualmente ao trigo produzido no Rio Grande do Sul para complementar o abastecimento.
As referências para o trigo pão estão entre R$ 1.350 e R$ 1.400 por tonelada.
No mercado de balcão, os preços permanecem estáveis na maioria das praças. A exceção fica por conta de Canoinhas, onde a cotação avançou para R$ 72 por saca.
Paraná enfrenta demanda fraca por farinha
No Paraná, a situação também é marcada pela baixa demanda por farinha e pelo ritmo mais lento de moagem, fatores que restringem a comercialização do trigo.
Para a safra velha, a referência está em aproximadamente R$ 1.500 por tonelada CIF nos Campos Gerais.
Já para a nova safra, as indicações ficam próximas de:
- R$ 1.450 por tonelada em setembro;
- R$ 1.400 por tonelada em novembro.
Além da demanda mais fraca, o mercado paranaense acompanha com atenção a redução da área cultivada e os riscos climáticos durante a colheita.
Clima pode aumentar necessidade de importação
A possibilidade de chuvas durante a colheita aumenta as preocupações com produtividade e qualidade do trigo paranaense.
Caso a oferta de trigo com qualidade adequada fique abaixo das necessidades da indústria, a tendência é de maior dependência do mercado externo para complementar o abastecimento.
Esse fator ganha ainda mais relevância diante da dinâmica dos preços internacionais e da situação das exportações pelo Mar Negro.
Trigo dispara em Chicago com problemas no Mar Negro
Enquanto o mercado brasileiro apresenta baixa liquidez, o trigo fechou a sessão de quarta-feira (19) em forte alta na Bolsa de Chicago (CBOT).
O principal fator de suporte foi a interrupção dos embarques pelo Mar Negro, em meio à continuidade dos ataques entre Rússia e Ucrânia contra estruturas ligadas ao transporte marítimo e à logística de exportação de grãos.
A redução do fluxo da região aumenta a preocupação dos participantes do mercado com a disponibilidade internacional de trigo.
A queda do dólar frente a outras moedas também contribuiu para a valorização, ao melhorar a competitividade do trigo norte-americano no mercado global.
Exportações da Ucrânia enfrentam forte impacto
De acordo com informações divulgadas pela Reuters, os ataques continuam afetando a navegação e a logística de exportação.
Na Ucrânia, as exportações agrícolas somaram aproximadamente 794 mil toneladas entre 1º e 15 de agosto, enquanto o país embarcou cerca de 3,67 milhões de toneladas durante todo o mês de julho.
Os problemas logísticos também atingiram áreas próximas de Novorossiysk, um importante centro russo de exportação de grãos.
A possibilidade de manutenção das interrupções mantém o mercado internacional em alerta, principalmente diante da relevância do Mar Negro para o comércio mundial de trigo.
Contratos de trigo sobem mais de 2% em Chicago
Na CBOT, o contrato de trigo com vencimento em setembro encerrou a sessão a US$ 6,80¼ por bushel, alta de 15,75 centavos de dólar, equivalente a 2,37%.
O vencimento dezembro fechou a US$ 6,97½ por bushel, avanço de 16,25 centavos, ou 2,38%.
A forte valorização mostra como os riscos logísticos e geopolíticos continuam influenciando a formação dos preços internacionais dos cereais.
Mercado brasileiro monitora preços internacionais
O movimento de Chicago adiciona um novo componente ao mercado brasileiro de trigo.
Embora a demanda doméstica permaneça fraca, a valorização internacional pode influenciar a paridade de importação, os custos de reposição dos moinhos e as expectativas para a nova safra.
No Paraná, em particular, o risco de uma menor oferta de trigo com qualidade adequada pode aumentar a necessidade de compras externas.
No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, a disponibilidade regional e o fluxo de trigo argentino também permanecem no radar.
Trigo hoje: principais fatores no radar
O mercado brasileiro de trigo entra em uma fase de atenção aos seguintes fatores:
- Demanda por farinha: permanece fraca e limita a moagem;
- Negócios domésticos: seguem pontuais e com baixa liquidez;
- Paraná: preços da nova safra entre R$ 1.400 e R$ 1.450 por tonelada;
- Rio Grande do Sul: vendedores pedem cerca de R$ 1.350 por tonelada FOB;
- Santa Catarina: oferta local restrita mantém moinhos recorrendo ao trigo gaúcho;
- Importações: trigo argentino complementa o abastecimento gaúcho;
- Chicago: forte valorização dos contratos futuros;
- Mar Negro: interrupções nas exportações sustentam os preços internacionais;
- Clima: risco de chuvas na colheita preocupa o mercado paranaense;
- Nova safra: divergência entre compradores e vendedores reduz os negócios antecipados.
Perspectivas para o mercado de trigo
O cenário do trigo combina demanda doméstica enfraquecida e fatores externos de sustentação dos preços. No Brasil, a baixa procura por farinha mantém moinhos cautelosos e limita a formação de novos negócios, enquanto produtores resistem a reduzir suas expectativas de preço.
No exterior, os problemas logísticos no Mar Negro elevam a percepção de risco para o abastecimento global e impulsionam as cotações em Chicago.
Para o mercado brasileiro, a evolução da nova safra, a qualidade do trigo colhido, o comportamento das importações, o câmbio e a continuidade das restrições às exportações do Mar Negro serão determinantes para a formação dos preços nas próximas semanas.
Fonte: Portal do Agronegócio
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