El Niño ameaça semeadura do arroz em Santa Catarina e coloca produtores em alerta
Pico do fenômeno entre outubro e dezembro pode elevar o volume de chuvas, atrasar o plantio e dificultar a entrada de máquinas nas lavouras catarinenses
Publicado em: 02/09/2026 às 13:00hs
A aproximação do pico do El Niño acendeu um alerta para a cadeia produtiva do arroz em Santa Catarina. A previsão de maior influência do fenômeno entre outubro e dezembro coincide com uma etapa decisiva do calendário agrícola: o preparo do solo e a semeadura das lavouras.
O aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial pode favorecer chuvas acima da média, alta umidade, baixa luminosidade e oscilações de temperatura na Região Sul. Dependendo da intensidade e da distribuição das precipitações, essas condições podem atrasar as operações agrícolas, dificultar o acesso de máquinas às áreas cultivadas e causar danos às estruturas rurais.
Os possíveis efeitos sobre a rizicultura foram debatidos durante palestra promovida pelo Sindicato das Indústrias de Arroz de Santa Catarina (SindArroz-SC), na Associação Empresarial de Criciúma (ACIC). O encontro teve a participação do agrônomo, agrometeorologista e doutor em agrometeorologia da Epagri, Márcio Sônego.
El Niño aumenta risco climático para o arroz catarinense
Fenômeno climático de ocorrência natural, o El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Conforme as informações apresentadas no encontro, o episódio atual começou em maio e pode permanecer ativo até maio de 2027.
Em Santa Catarina, a principal preocupação está relacionada ao aumento das chuvas durante a primavera, período que coincide com a implantação de parte significativa das lavouras de arroz.
O excesso de precipitação pode encharcar o solo e interromper atividades fundamentais, como:
- preparo das áreas de cultivo;
- sistematização do terreno;
- semeadura do arroz;
- aplicação de tratamentos fitossanitários;
- manejo da irrigação;
- entrada de tratores e outros equipamentos;
- manutenção das estruturas das propriedades.
A dificuldade de acesso às lavouras também pode comprometer o cumprimento do calendário agrícola. Atrasos na semeadura tendem a deslocar outras fases do ciclo produtivo, com possíveis impactos sobre o desenvolvimento das plantas e a colheita.
Chuvas frequentes e baixa luminosidade desafiam lavouras
Na Região Sul, a influência do El Niño não se limita às chuvas intensas. O fenômeno também pode provocar períodos de alta umidade, pouca luminosidade e alternância com veranicos.
Para a cultura do arroz, a combinação desses fatores exige atenção. A baixa incidência de radiação solar pode afetar o desenvolvimento das plantas, enquanto a umidade persistente favorece condições propícias à ocorrência de doenças.
Ao mesmo tempo, a irregularidade das chuvas dificulta a tomada de decisões sobre semeadura, adubação, aplicação de defensivos e manejo da água. Por isso, o acompanhamento das previsões meteorológicas e das condições específicas de cada propriedade torna-se ainda mais importante.
Aquecimento do Pacífico amplia preocupação com intensidade do fenômeno
Durante a palestra, Márcio Sônego explicou as características do El Niño, os fatores responsáveis pela sua formação e o comportamento climático esperado no Sul de Santa Catarina.
Segundo o especialista, um dos pontos de maior atenção é o aumento histórico da temperatura do Pacífico Equatorial, que teria alcançado uma anomalia de até 3,5 °C.
“Desde 1984, quando houve aquela grande enchente que impactou todo o estado de Santa Catarina, o El Niño tem sido mais frequente. Quando o fenômeno ocorre, a Região Sul costuma receber mais chuvas intensas durante a primavera e isso pode prejudicar a cadeia produtiva do arroz se os produtores e as indústrias não estiverem preparados”, afirma Sônego.
Apesar do sinal de alerta, os impactos não ocorrem de forma uniforme. A intensidade das chuvas, sua distribuição ao longo dos meses e as características locais das áreas produtoras serão determinantes para os efeitos sobre cada lavoura.
Planejamento será decisivo para reduzir perdas na safra
De acordo com o presidente do SindArroz-SC, Walmir Rampinelli, a palestra teve como objetivo esclarecer dúvidas e fornecer informações técnicas para auxiliar produtores e indústrias na preparação para o período de maior instabilidade climática.
“Há alguns meses tem se ouvido falar sobre o El Niño, e esse tema tem gerado certa preocupação nos agricultores e nas indústrias como um todo. Entretanto, são poucos os que sabem identificar corretamente o que de fato é esse fenômeno e como ele pode impactar a nossa região, especialmente em relação à agricultura”, afirma.
Rampinelli acrescenta que o encontro buscou combater a desinformação e apresentar alternativas para diminuir os possíveis impactos sobre o setor.
“Trouxemos a palestra para evitar a desinformação, levar conhecimento aos nossos associados e apresentar soluções para os possíveis efeitos do fenômeno”, completa o presidente.
Entre as medidas que podem contribuir para reduzir os riscos estão o planejamento antecipado das operações, a manutenção de canais de drenagem, a revisão de máquinas e estruturas, o acompanhamento frequente das previsões meteorológicas e a definição de estratégias adaptadas às condições de cada propriedade.
Indústrias também podem ser afetadas pelo clima
Os efeitos do El Niño não se restringem às lavouras. A ocorrência de atrasos na semeadura e de perdas produtivas pode modificar o calendário de recebimento do arroz pelas indústrias, afetar a oferta regional e aumentar a necessidade de planejamento logístico.
Eventos climáticos severos também podem provocar danos em estradas rurais, unidades armazenadoras, sistemas elétricos e outras estruturas utilizadas no transporte, recebimento e beneficiamento do cereal.
Por esse motivo, o SindArroz-SC defende que o planejamento envolva produtores, indústrias e demais agentes da cadeia orizícola catarinense.
SindArroz-SC prepara abertura da colheita de 2027
Além da palestra sobre o El Niño, o sindicato realizou sua assembleia anual. Durante o encontro, foram apresentadas as contas e os resultados da gestão 2025-2026, além de propostas destinadas ao fortalecimento do segmento.
A entidade também iniciou as discussões sobre a 9ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz de Santa Catarina, programada para janeiro de 2027.
Com a possibilidade de maior instabilidade climática durante a primavera, a preparação para a próxima safra ganha importância estratégica. O monitoramento do El Niño e a adoção antecipada de medidas preventivas serão fundamentais para proteger as lavouras, reduzir perdas e preservar a regularidade da produção de arroz em Santa Catarina.
Fonte: Portal do Agronegócio
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