Inteligência artificial reduz classificação da soja de 90 para quatro minutos
Tecnologia brasileira usa fotônica e visão computacional para identificar defeitos nos grãos, reduzir a subjetividade das análises e ampliar a rastreabilidade nas negociações
Publicado em: 10/09/2026 às 13:30hs
Uma tecnologia brasileira poderá transformar a classificação da soja ao reduzir de até 90 minutos para aproximadamente quatro minutos o tempo necessário para avaliar a qualidade de uma amostra. Desenvolvido com inteligência artificial, fotônica e visão computacional, o Grain Analytic System (Gras) automatiza uma atividade ainda realizada predominantemente de forma manual no Brasil e em outros países.
O equipamento analisa individualmente os grãos de soja e identifica características e defeitos sem a necessidade de cortá-los. A proposta é tornar a classificação mais rápida, objetiva e padronizada, ampliando a confiabilidade das informações utilizadas nas negociações entre produtores, armazenadores, cooperativas, tradings, processadores e exportadores.
A inovação resulta de uma parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e a startup Brasil Agritest, primeira empresa a firmar contrato com a Unidade Embrapii Itech-Agro.
Classificação da soja ainda depende de análise manual
A avaliação da qualidade dos grãos é uma etapa estratégica na comercialização da soja. Fatores como defeitos, impurezas e condições físicas do produto podem influenciar a formação dos preços, os descontos aplicados e a destinação da carga.
Apesar da importância econômica da oleaginosa, o processo de classificação ainda depende, em grande parte, da inspeção visual realizada por profissionais especializados. A atividade é manual, exige tempo e pode apresentar variações relacionadas à interpretação do avaliador.
O Gras foi desenvolvido justamente para enfrentar essas limitações. Segundo a pesquisadora Débora Milori, coordenadora da Unidade Embrapii Itech-Agro, a tecnologia converte uma inspeção essencialmente manual em uma análise automatizada e fundamentada em critérios objetivos.
Como funciona a classificação automática dos grãos
O funcionamento do equipamento começa com a inserção de uma amostra de soja. A partir daí, o sistema analisa os grãos individualmente com o auxílio de iluminação especial, câmeras de alta precisão e modelos de inteligência artificial.
As imagens captadas são processadas para reconhecer características visuais e identificar diferentes tipos de defeitos. Todo o procedimento ocorre sem a necessidade de cortar os grãos, preservando a amostra e acelerando a obtenção dos resultados.
A principal inovação está na integração de diferentes recursos tecnológicos em um único sistema:
- fotônica;
- iluminação especializada;
- sistemas de imageamento;
- visão computacional;
- inteligência artificial;
- processamento automatizado de dados.
Essa combinação permite substituir parte das avaliações visuais por parâmetros digitais, aumentando a uniformidade das análises.
Tecnologia pode reduzir subjetividade e aumentar rastreabilidade
Além de diminuir o tempo de classificação, o Gras busca elevar a repetibilidade e a rastreabilidade dos resultados. Isso significa que as análises podem ser realizadas com critérios mais uniformes, reduzindo diferenças entre avaliadores, unidades armazenadoras e etapas da comercialização.
“Além da expressiva redução do tempo de análise, a tecnologia contribui para diminuir a subjetividade inerente à avaliação visual e aumentar a padronização, repetibilidade e rastreabilidade dos resultados”, explica Débora Milori.
A digitalização também pode facilitar o armazenamento das informações e a consulta ao histórico das avaliações. Para a cadeia produtiva, esses registros tendem a aumentar a transparência nas relações comerciais e a oferecer maior segurança na definição da qualidade dos lotes.
Parceria aproximou startup e ambiente de pesquisa
Segundo Thomas Martins Ceglia, sócio, cofundador e responsável pelo desenvolvimento de negócios da Brasil Agritest, o apoio da Embrapii foi fundamental para aproximar a startup do ambiente científico e viabilizar o desenvolvimento dos componentes tecnológicos.
A parceria permitiu aprimorar os sistemas e modelos utilizados pelo equipamento, além de avançar na parametrização necessária para sua aplicação comercial.
“O projeto permite aperfeiçoar e parametrizar os equipamentos, ajustando seus sistemas e modelos e contribuindo para maior precisão, padronização e confiabilidade dos resultados”, afirma Ceglia.
Equipamento entra na fase final de validação
Em 2023, o projeto recebeu apoio da VLI, companhia de soluções logísticas com atuação em ferrovias, terminais e portos. A participação da empresa contribuiu para o avanço da etapa de conclusão do equipamento.
Atualmente, o Gras encontra-se na fase final de desenvolvimento e validação em ambiente operacional. A máquina já passou por testes em condições reais e continua sendo aprimorada com base nos resultados obtidos em parceria com empresas do setor.
A Brasil Agritest busca novos investimentos para concluir os ajustes e preparar o equipamento para a produção em escala.
Automação pode modernizar comercialização da soja
A chegada da classificação automatizada representa uma oportunidade de modernização para armazenadores, cooperativas, tradings, indústrias e operadores logísticos. A redução do tempo de análise pode agilizar o recebimento das cargas, diminuir filas e aumentar a capacidade operacional das unidades.
Ao mesmo tempo, a utilização de critérios digitais pode reduzir divergências comerciais e fortalecer a confiabilidade dos resultados apresentados a produtores e compradores.
Em uma cadeia que movimenta bilhões de reais por ano e ocupa posição estratégica nas exportações brasileiras, a automação da classificação da soja surge como mais uma etapa da transformação digital do agronegócio. O avanço do Gras poderá contribuir para operações mais rápidas, transparentes e rastreáveis, desde o recebimento dos grãos até sua comercialização e processamento.
Fonte: Portal do Agronegócio
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