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Pesquisas

Unicamp desenvolve tecnologia com RNA que combate percevejo da soja sem uso de inseticidas tradicionais

Pesquisa de quatro anos em parceria com a TMG utiliza RNA de interferência para controlar o percevejo-marrom da soja com maior precisão, segurança ambiental e potencial para transformar o manejo de pragas no agronegócio


Publicado em: 10/08/2026 às 11:55hs

Unicamp desenvolve tecnologia com RNA que combate percevejo da soja sem uso de inseticidas tradicionais
Foto: Igor Alisson

Uma nova tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pode mudar a forma de controle do percevejo da soja, uma das principais pragas responsáveis por perdas econômicas nas lavouras brasileiras. O método utiliza RNA de interferência (RNAi) para bloquear genes essenciais do inseto, eliminando a praga de maneira mais específica e sustentável do que os inseticidas convencionais.

A inovação foi desenvolvida pelo Instituto de Biologia (IB) da Unicamp em parceria com a empresa TMG Tropical Melhoramento e Genética S.A., após quatro anos de pesquisa. A tecnologia não depende de alteração genética da planta e atua diretamente sobre o organismo-alvo, reduzindo impactos sobre outros insetos presentes no ambiente agrícola.

O Brasil é líder mundial na produção e exportação de soja, mas enfrenta desafios constantes relacionados ao ataque de pragas. Entre elas, o percevejo-marrom (Euschistus heros) está entre os principais problemas fitossanitários da cultura, causando prejuízos bilionários aos produtores.

“Levando em consideração que o Brasil é um país tropical e muito quente, existem muitas pragas que podem afetar o cultivo de soja, mas o percevejo é o mais danoso a essa cultura”, explica o professor associado Henrique Marques de Souza, coordenador da pesquisa na Unicamp.

Tecnologia usa defesa natural das células para eliminar o percevejo da soja

O diferencial da tecnologia está no uso do RNA de interferência, um mecanismo natural presente nos organismos vivos.

A estratégia consiste em identificar genes fundamentais para a sobrevivência do inseto e produzir, em laboratório, moléculas de RNA de dupla fita semelhantes às utilizadas pelas células como defesa contra vírus.

Quando o percevejo entra em contato com essa molécula, seu organismo reconhece a sequência genética como uma ameaça e ativa um processo que interrompe a expressão daquele gene específico.

Com o bloqueio da produção da proteína essencial, o inseto perde funções importantes, podendo deixar de se alimentar, se desenvolver ou se reproduzir.

“Estudamos a biologia de uma praga e identificamos qual gene, se removido, levará o inseto à morte, a parar de se alimentar ou de procriar. Podemos desenhar a fita dupla de acordo com o que é identificado como vital para o inseto”, destaca Souza.

RNAi oferece maior precisão que inseticidas convencionais

Uma das principais vantagens da tecnologia está na alta especificidade de ação.

Enquanto muitos inseticidas tradicionais atingem diferentes organismos presentes na lavoura, incluindo insetos benéficos como polinizadores e inimigos naturais das pragas, o RNA produzido pela tecnologia é desenvolvido para atuar exclusivamente sobre o alvo selecionado.

Segundo os pesquisadores, o método apresenta potencial para reduzir impactos ambientais por utilizar uma molécula biodegradável e com menor risco de afetar organismos não desejados.

Além disso, a tecnologia pode contribuir para uma agricultura mais sustentável, integrando novas ferramentas biológicas ao manejo de pragas.

Entretanto, os pesquisadores ressaltam que o RNAi não deve ser utilizado como uma solução isolada, mas como parte de um sistema integrado de controle agrícola.

“Não é uma técnica de choque. Ela depende que a molécula de RNA entre, silencie o gene e pare de produzir proteína para que a praga morra”, explica Henrique Marques de Souza.

Percevejo-marrom é um dos maiores desafios da soja brasileira

O percevejo-marrom está entre os insetos que mais preocupam produtores de soja no país.

A praga provoca danos principalmente durante a formação e enchimento dos grãos, reduzindo produtividade e qualidade da produção. Em determinadas situações, pode comprometer significativamente o rendimento das lavouras.

O problema ganha ainda mais relevância devido às condições climáticas brasileiras, que favorecem a presença e reprodução de diversas espécies de insetos ao longo do ciclo agrícola.

A nova tecnologia surge como alternativa complementar aos métodos tradicionais, ampliando as ferramentas disponíveis para o manejo integrado da cultura.

Pesquisa começou na Alemanha e avançou para aplicação agrícola no Brasil

O desenvolvimento da tecnologia tem origem nos estudos realizados por Henrique Marques de Souza durante seu doutorado na Universidade de Colônia, na Alemanha.

Inicialmente, as pesquisas estavam voltadas ao entendimento básico do funcionamento do RNAi no desenvolvimento de insetos, sem uma aplicação agrícola definida.

Após ingressar na Unicamp, o pesquisador direcionou os estudos para o controle de pragas agrícolas, transformando uma descoberta científica em uma possível solução tecnológica para o campo.

O projeto foi estruturado por meio de um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) entre o Instituto de Biologia da Unicamp e a TMG.

Ao longo de quatro anos, cerca de 15 pesquisadores, incluindo estudantes de pós-graduação, iniciação científica e pós-doutorado, participaram do desenvolvimento da tecnologia.

Parceria entre Unicamp e TMG viabiliza patente e aplicação comercial

A TMG recebeu a licença para utilização comercial da tecnologia e passou a compartilhar a titularidade da patente desenvolvida durante o projeto.

A estratégia de proteção intelectual foi conduzida pela Agência de Inovação da Unicamp (Inova Unicamp), com apoio da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp).

A expectativa é que a inovação avance nas próximas etapas de desenvolvimento até chegar ao mercado agrícola, oferecendo uma nova ferramenta para produtores brasileiros no controle do percevejo da soja.

Biotecnologia amplia futuro do controle de pragas no agronegócio

O avanço da tecnologia baseada em RNA de interferência reforça a tendência de crescimento dos bioinsumos e das soluções biológicas aplicadas ao agronegócio.

Com maior precisão, menor impacto ambiental e possibilidade de integração ao manejo sustentável, ferramentas como o RNAi representam uma nova fronteira para aumentar a eficiência produtiva da agricultura brasileira.

A inovação desenvolvida pela Unicamp e pela TMG coloca a pesquisa científica nacional no centro das soluções para um dos principais desafios da produção de soja no Brasil.

Fonte: Portal do Agronegócio

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