Laudos do Mapa apontam irregularidades em azeites vendidos como extravirgem e aumentam pressão por fiscalização no Brasil
Análises oficiais identificaram produtos comercializados como azeite extravirgem que foram classificados como virgens ou até lampantes; entidades defendem maior controle sobre importações e proteção ao consumidor.
Publicado em: 13/08/2026 às 14:00hs
O mercado brasileiro de azeites entrou novamente no centro das discussões sobre qualidade e fiscalização após análises oficiais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) indicarem que produtos vendidos nos supermercados como azeite de oliva extravirgem apresentavam classificação diferente da informada nos rótulos.
Os exames foram realizados pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária (LFDA), unidade oficial do Mapa responsável pelas análises sensoriais, após determinação judicial dentro de uma ação civil pública conduzida pelo Ministério Público em São Paulo.
Segundo os laudos, marcas amplamente comercializadas no país apresentaram divergências entre a classificação declarada e as características identificadas pelos especialistas.
Produtos vendidos como extravirgem foram classificados em categorias inferiores
De acordo com os resultados divulgados, azeites de marcas como Andorinha, Gallo, Borges, Gomes da Costa, Filippo Berio e Carrefour, entre outras, comercializados como extravirgem, foram classificados pelos testes como azeites virgens.
Já produtos das marcas Costa D’Oro e Terras de Camões foram classificados como azeites lampantes, categoria considerada inadequada para consumo direto sem processo de refino.
A investigação faz parte de uma ação civil pública que busca ampliar os mecanismos de controle sobre a importação e comercialização de azeites no Brasil, incluindo produtos importados a granel e já envasados.
Ministério Público afirma que análises confirmam suspeitas de fraude
A procuradora da República Karen Louise Jeanette Kahn afirmou que os resultados das análises oficiais reforçam as suspeitas levantadas pelo Ministério Público durante a investigação.
Segundo ela, os laudos indicam problemas relacionados à classificação dos produtos, possíveis fraudes em azeites importados e irregularidades em itens comercializados no mercado brasileiro.
“As suspeitas se confirmaram”, afirmou a procuradora, destacando que novas medidas judiciais deverão ser solicitadas com base nos resultados apresentados.
Para o Ministério Público, o problema ultrapassa a questão comercial e envolve também a proteção da saúde pública, especialmente diante da venda de produtos classificados como azeite, mas que poderiam não apresentar as características esperadas pelo consumidor.
MP alerta para risco da comercialização de azeites lampantes
Segundo a avaliação do Ministério Público, a presença de azeites classificados como lampantes comercializados como produtos próprios para consumo representa um ponto de preocupação.
O azeite lampante é uma categoria obtida a partir de frutos ou processos que apresentam defeitos sensoriais e, em sua condição original, não é destinado ao consumo humano direto.
A procuradora destacou que a investigação continua e que o órgão avalia novas providências dentro da ação judicial para reforçar os mecanismos de fiscalização e controle do setor.
Ibraoliva defende maior fiscalização sobre azeites importados
O Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) afirmou que os resultados dos laudos confirmam alertas feitos anteriormente pela entidade sobre a qualidade de parte dos azeites importados comercializados no Brasil.
O presidente do instituto, Flávio Obino Filho, afirmou que os testes reforçam a necessidade de aumentar o rigor no controle dos produtos que chegam ao país.
Segundo ele, alguns azeites vendidos como extravirgem apresentariam características de produtos de menor qualidade, que não correspondem ao padrão esperado dessa categoria.
O dirigente também destacou que diferenças significativas de preço entre produtos importados e azeites extravirgens de maior qualidade podem estar relacionadas ao tempo de armazenamento, características sensoriais e qualidade da matéria-prima utilizada.
Mercado brasileiro discute diferença entre azeite extravirgem e produtos inferiores
A classificação do azeite não representa apenas uma questão comercial, mas também está relacionada às características nutricionais do alimento.
A nutricionista Isabel Kasper explica que todos os azeites de oliva possuem predominância de ácido oleico, uma gordura monoinsaturada associada a benefícios para a saúde cardiovascular.
Entretanto, segundo a especialista, o azeite extravirgem apresenta um diferencial importante: a presença de compostos bioativos, como polifenóis e antioxidantes.
Essas substâncias estão relacionadas a mecanismos de proteção contra processos inflamatórios, manutenção da saúde cerebral e intestinal, além de possíveis efeitos positivos na prevenção de determinadas doenças.
Extravirgem concentra compostos bioativos importantes
De acordo com Isabel Kasper, os compostos presentes no azeite extravirgem dependem diretamente da qualidade da matéria-prima, do processamento adequado e das condições de armazenamento.
Com o envelhecimento do produto, parte desses compostos pode sofrer degradação natural, reduzindo seus efeitos funcionais.
Já o azeite virgem mantém a composição de gorduras consideradas benéficas, porém apresenta menor concentração de compostos antioxidantes.
No caso do azeite lampante, a nutricionista reforça que o produto não deve ser consumido diretamente antes de passar por processos específicos de tratamento.
Fiscalização do azeite ganha importância no mercado brasileiro
O caso reacende o debate sobre a necessidade de maior rastreabilidade e fiscalização na cadeia de importação e comercialização de azeites no Brasil.
Para produtores nacionais e entidades do setor, garantir que a classificação indicada no rótulo corresponda ao produto entregue ao consumidor é fundamental para fortalecer a confiança no mercado.
Com o aumento do consumo de azeite no país, especialistas defendem que controles mais rigorosos podem contribuir para combater fraudes, valorizar produtores que seguem padrões de qualidade e assegurar que o consumidor tenha acesso a produtos compatíveis com as informações apresentadas na embalagem.
Fonte: Portal do Agronegócio
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