Crise dos antibióticos amplia debate sobre bem-estar animal na produção de carne brasileira
Análise da Sinergia Animal relaciona suspensão das importações pela União Europeia ao uso de antimicrobianos, às condições de criação e à necessidade de maior transparência na indústria de proteína
Publicado em: 03/09/2026 às 11:35hs
A suspensão das importações brasileiras pela União Europeia colocou o uso de antimicrobianos na produção animal no centro das discussões comerciais e sanitárias. Para Cristina Diniz, diretora-geral da Sinergia Animal no Brasil, porém, o episódio também deveria estimular um debate mais amplo sobre as condições oferecidas aos animais que sustentam uma das maiores indústrias de proteína do mundo.
Na avaliação da dirigente, as discussões no Brasil estão concentradas nos prejuízos econômicos, na competitividade das exportações e nas medidas necessárias para recuperar o acesso ao mercado europeu. As práticas adotadas antes de a carne chegar ao consumidor, entretanto, recebem menos atenção.
Cristina destaca que, antes de se tornar commodity, produto exportado ou receita para a balança comercial, o animal passa por um sistema produtivo orientado à eficiência. Dependendo do modelo empregado, esse processo pode envolver confinamento, alta densidade, transporte, estresse, doenças, procedimentos dolorosos e intervenções medicamentosas.
Suspensão da União Europeia coloca antimicrobianos no centro do debate
A partir de 3 de setembro, a União Europeia suspende as importações de carne brasileira devido à ausência de garantias consideradas suficientes sobre a conformidade do país com as regras europeias para o uso de antimicrobianos.
Embora a medida tenha caráter sanitário e efeitos comerciais imediatos, a diretora da Sinergia Animal considera que o episódio expõe questionamentos estruturais sobre a criação de animais no Brasil.
Para Cristina, o antibiótico não deve ser considerado o problema em si. Esses medicamentos possuem função legítima e indispensável na medicina veterinária, uma vez que os animais doentes precisam receber tratamento adequado. O alerta está na possibilidade de os antimicrobianos deixarem de ser utilizados exclusivamente como ferramenta terapêutica e passarem a fazer parte da rotina produtiva.
OMS recomenda redução do uso de antibióticos em animais
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a redução global do uso de antibióticos em animais destinados à produção de alimentos. A entidade defende que medidas preventivas, como higiene, vacinação e biossegurança, sejam priorizadas para diminuir a ocorrência de infecções e, consequentemente, a necessidade desses medicamentos.
A preocupação está relacionada ao avanço da resistência antimicrobiana, considerada uma das principais ameaças à saúde pública mundial. Segundo a OMS, infecções resistentes estiveram associadas a quase 5 milhões de mortes em 2019.
A organização também orienta que os antimicrobianos sejam usados de maneira prudente e fundamentada em evidências nos sistemas agroalimentares e na saúde animal.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por sua vez, reconhece que o uso responsável desses medicamentos é importante para preservar a saúde e o bem-estar dos animais, além de reduzir o desenvolvimento de microrganismos resistentes.
Nesse contexto, Cristina defende que a indústria avalie não apenas os procedimentos adotados depois do aparecimento das doenças, mas também as condições de criação capazes de preveni-las.
Porcos em Foco avalia políticas da indústria suína
A utilização de antimicrobianos já era acompanhada pela Sinergia Animal antes de o tema se transformar em barreira ao comércio com a União Europeia.
Publicado anualmente pela organização, o relatório Porcos em Foco — Monitor da Indústria Suína Brasileira analisa políticas, práticas e compromissos divulgados pelas principais companhias do setor para melhorar as condições de vida dos animais.
Na edição de 2025, o monitor dividiu o uso não terapêutico de antimicrobianos em três categorias: promoção de crescimento, uso profilático e uso metafilático.
Pela metodologia adotada, essas aplicações deveriam ser eliminadas, direcionando os medicamentos exclusivamente ao tratamento dos animais doentes.
Seis empresas apresentavam políticas para promotores de crescimento
Entre as 16 empresas avaliadas pelo Porcos em Foco, seis apresentavam políticas consideradas adequadas para abolir o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento: Ecofrigo, MBRF, JBS, Pamplona, Alibem e Master.
Segundo o relatório, as outras dez companhias analisadas ainda não haviam publicado compromissos que atendessem aos critérios estabelecidos pela metodologia.
No caso do uso profilático, destinado à prevenção de doenças, somente a Ecofrigo havia anunciado compromisso público considerado adequado para eliminar a prática até 2027.
De acordo com o levantamento, MBRF, JBS, Pamplona, Alibem, Master, Aurora, Frimesa, Pif Paf, Coopavel, Ceratti, Frivatti, Nutribras, Palmali e Gran Corte não haviam divulgado compromissos para abolir essa modalidade até o período considerado na análise.
Uso metafilático também apresenta poucos compromissos
O cenário identificado para o uso metafilático foi semelhante. Essa modalidade envolve a administração do medicamento a um grupo de animais quando parte deles apresenta sinais de doença ou risco elevado de contaminação.
Conforme o Porcos em Foco, apenas a Ecofrigo havia assumido compromisso público, considerado adequado pelo levantamento, para eliminar a prática até o final de 2027.
A Minerva mencionava um compromisso relacionado ao tema, mas com abrangência limitada a 80% de sua rede de fornecedores e prazo estabelecido até 2040. Por não atender aos parâmetros definidos pela metodologia, a companhia não recebeu pontuação nesse critério.
Assim, entre as 16 empresas avaliadas em 2025, apenas uma apresentava compromissos públicos considerados adequados pelo monitor para eliminar as três formas de uso não terapêutico de antimicrobianos.
Os resultados refletem as informações e os compromissos públicos disponíveis no período analisado pelo relatório.
Condições de criação podem aumentar risco de doenças
Para Cristina Diniz, a aplicação de medicamentos aparece no final de uma cadeia de fatores que começa nas condições de criação. Densidade, espaço disponível, higiene, ventilação, manejo, estresse, exposição a doenças e possibilidade de manifestar comportamentos naturais podem influenciar diretamente a saúde dos animais.
A análise sustenta que não basta saber se determinada companhia utiliza antibióticos. É necessário conhecer a finalidade, as circunstâncias da aplicação, a abrangência das políticas corporativas e as iniciativas adotadas para reduzir os usos não terapêuticos.
A metodologia prevista para o Porcos em Foco 2026 pretende aprofundar essa avaliação. Em vez de considerar somente as metas anunciadas, o levantamento deverá diferenciar os compromissos públicos das medidas efetivamente implementadas.
A mudança busca verificar não apenas o que as empresas prometem fazer, mas o que já foi comprovadamente realizado.
Exigências europeias aumentam pressão por evidências
A nova metodologia converge com parte das exigências que ganharam relevância no comércio internacional. As discussões com a União Europeia envolvem garantias sanitárias, evidências, rastreabilidade e capacidade de demonstrar o cumprimento das normas.
Na visão da Sinergia Animal, as empresas precisam tornar mais transparentes suas políticas para o uso de antimicrobianos, informar quais práticas foram eliminadas, apresentar o alcance dos compromissos e demonstrar os resultados alcançados.
Essa comprovação pode ganhar importância tanto para a manutenção dos mercados externos quanto para o fortalecimento da confiança dos consumidores na indústria brasileira de proteína animal.
Bem-estar animal ganha importância na pecuária moderna
O modelo industrial de produção animal foi estruturado para elevar a produtividade, reduzir custos e acelerar os ciclos. Esse avanço permitiu ampliar a oferta de carne, leite e ovos, mas também aumentou a necessidade de discutir os limites da eficiência econômica.
Cristina ressalta que os animais são seres sencientes, capazes de sentir dor, medo e estresse. Por isso, aspectos como liberdade de movimento, descanso, conforto, interação com o ambiente e ausência de sofrimento não deveriam ser avaliados somente pelo impacto financeiro para a cadeia produtiva.
Na avaliação da dirigente, o bem-estar animal precisa deixar de ser tratado como tema secundário e passar a integrar os indicadores de desempenho, sustentabilidade e competitividade das empresas.
Exportação de bovinos vivos reforça questionamentos
A Sinergia Animal também relaciona esse debate às exportações brasileiras de bovinos vivos. Apesar de ser uma atividade diferente da produção intensiva e do uso de antimicrobianos, Cristina avalia que o transporte marítimo evidencia a transformação do animal em uma unidade comercial.
Em 2024, mais de 1 milhão de bovinos vivos foram exportados pelo Brasil. Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação indicam que mais de 2,3 mil animais morreram durante o transporte marítimo entre janeiro de 2020 e março de 2025.
No período, foram realizadas 393 viagens, das quais 306 registraram mortes de bovinos, o equivalente a aproximadamente 78% das travessias.
Em uma viagem do navio Nada, realizada em 2024, 108 animais morreram durante uma travessia de aproximadamente uma semana. A embarcação transportava quase 23 mil bovinos.
Naufrágio do Haidar permanece como alerta
Outro episódio citado na análise ocorreu em 6 de outubro de 2015, quando o navio Haidar naufragou no Pará com quase 5 mil bois vivos a bordo.
Além da morte dos animais, o acidente provocou o derramamento de aproximadamente 700 mil litros de resíduos oleosos. O episódio tornou-se um dos principais desastres socioambientais registrados na região e continuou gerando discussões judiciais anos depois.
Para Cristina, casos dessa natureza deveriam estimular uma avaliação mais profunda sobre as condições do transporte de animais vivos e os limites éticos da atividade.
Indústria de proteína enfrenta desafios econômicos e sanitários
Quando uma cadeia produtiva é atingida por uma restrição sanitária, o debate costuma se concentrar rapidamente nas perdas financeiras.
Em 2025, as exportações do agronegócio brasileiro alcançaram US$ 169,2 bilhões. A carne bovina registrou US$ 17,9 bilhões em receitas, acompanhada de crescimento de 20,4% no volume exportado, segundo dados do Ministério da Agricultura.
A dimensão econômica confirma a importância da produção animal para o Brasil. Ao mesmo tempo, aumenta a responsabilidade do país na adoção de padrões elevados de sanidade, rastreabilidade e bem-estar.
Para a diretora da Sinergia Animal, a liderança mundial na produção de proteína não deveria ser medida apenas pelo volume produzido ou exportado. Também deveria considerar a capacidade de prevenir doenças, reduzir o sofrimento e demonstrar de forma transparente que as práticas anunciadas estão sendo efetivamente cumpridas.
A crise envolvendo os antimicrobianos, portanto, ultrapassa a disputa comercial com a União Europeia. Ela abre espaço para uma discussão sobre qual modelo de produção animal o Brasil pretende consolidar e quais padrões deseja apresentar aos consumidores nacionais e internacionais.
Fonte: Portal do Agronegócio
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