Menos de 1% dos pecuaristas calculam o custo completo de produção, revela levantamento
Pesquisa da Coan Consultoria mostra que apenas 0,87% dos produtores consultados dominam os custos da atividade, expondo uma fragilidade na gestão econômica da pecuária brasileira
Publicado em: 24/08/2026 às 13:00hs
Apenas 0,87% dos pecuaristas consultados em levantamento realizado com participantes da última edição do Feedlot Summit Brazil afirmaram calcular o custo completo de produção. O resultado revela uma importante deficiência na gestão econômica das propriedades rurais, justamente em um momento de expansão da pecuária de precisão e do uso de tecnologias no campo.
O índice coloca o controle de custos entre os principais desafios da pecuária brasileira, independentemente do sistema adotado — cria, recria, engorda, ciclo completo ou confinamento. Sem informações financeiras precisas, o produtor pode até conhecer o valor recebido na venda dos animais, mas dificilmente consegue identificar a margem real obtida em cada operação.
Preço de venda não representa lucro do pecuarista
Segundo Rogério Coan, da Coan Consultoria e responsável pela realização do Feedlot Summit Brazil, conhecer o preço pago pelo mercado é diferente de compreender o resultado econômico da atividade.
Na produção de bezerros, por exemplo, muitas propriedades comercializam os animais sem saber quanto foi efetivamente gasto em cada unidade. Dessa forma, o produtor conhece a receita da venda, mas não consegue determinar com precisão o lucro ou o prejuízo da operação.
Na recria e na engorda, o controle precisa ser ainda mais detalhado. O cálculo deve considerar o custo da reposição, as despesas com alimentação, sanidade, mão de obra e estrutura, além do valor necessário para produzir cada arroba ao longo das diferentes fases.
Falta de dados sobre o rebanho dificulta a gestão
Em muitas propriedades, o problema começa antes mesmo da apuração financeira. Há fazendas que não mantêm registros atualizados sobre a composição do rebanho, o número de animais por categoria, o peso médio e o desempenho produtivo.
Sem essa base de dados, torna-se mais difícil organizar o fluxo de caixa, elaborar orçamentos, estabelecer metas e planejar investimentos.
Entre as informações essenciais para uma gestão eficiente estão:
- Número de animais por categoria;
- Peso de entrada e de saída;
- Ganho médio diário;
- Taxa de lotação;
- Custo da reposição;
- Consumo e custo da dieta;
- Despesas sanitárias;
- Gastos com mão de obra e infraestrutura;
- Custo por arroba produzida;
- Receita, margem e rentabilidade da atividade.
O acompanhamento sistemático desses indicadores permite identificar gargalos, comparar resultados e tomar decisões com maior segurança.
Margens dependem da eficiência técnica e econômica
O alerta ganha relevância diante de um mercado marcado pela valorização dos animais de reposição, volatilidade dos preços, oscilações nos contratos futuros e incertezas relacionadas ao comércio internacional.
Barreiras comerciais, cotas de importação e medidas de salvaguarda também podem afetar as cotações e as perspectivas da carne bovina brasileira. Diante dessas variáveis externas, o pecuarista precisa ampliar o domínio sobre os fatores que consegue controlar dentro da porteira.
Nesse contexto, elevar a produtividade não garante, isoladamente, maior rentabilidade. O avanço técnico precisa estar acompanhado de controle econômico e avaliação constante das margens.
Intensificação deve considerar custo da arroba produzida
Decisões como intensificar a produção, modificar a dieta, adquirir determinada categoria de reposição ou buscar maior ganho de peso precisam ser avaliadas pelo impacto financeiro que provocam.
Uma estratégia pode melhorar os indicadores zootécnicos e, ao mesmo tempo, elevar os custos acima do retorno obtido. Por isso, a análise deve considerar não apenas o desempenho animal, mas também o custo por arroba produzida e a margem final do sistema.
O controle permite ao pecuarista responder questões fundamentais para a gestão da fazenda: quanto custa produzir, quais categorias apresentam melhor retorno, onde estão as maiores despesas e quais investimentos realmente ampliam a rentabilidade.
Feedlot Summit Brazil 2026 discutirá gestão e eficiência
Para aprofundar os debates sobre gestão, produtividade e controle econômico, a Coan Consultoria realizará o Feedlot Summit Brazil 2026 entre os dias 16 e 18 de setembro, no Espaço dos Ipês, em Goiânia (GO).
A programação abordará temas relacionados à eficiência técnica, gestão da propriedade, liderança, formação de equipes, mercado pecuário e gerenciamento de riscos.
Nos painéis voltados à recria e engorda, serão discutidos o impacto do custo da reposição sobre as margens, os instrumentos de proteção contra oscilações de preços e as perspectivas para o mercado do boi gordo.
As exportações brasileiras de carne bovina também estarão em pauta, com análises sobre cotas, salvaguardas e barreiras comerciais que podem influenciar a cadeia produtiva.
Especialistas internacionais vão comparar sistemas pecuários
O Feedlot Summit Brazil reunirá especialistas do Brasil, Estados Unidos, Argentina, África do Sul, Uruguai, Paraguai, Panamá e Bolívia.
A participação internacional permitirá comparar sistemas produtivos submetidos a diferentes custos de terra, limitações tecnológicas, condições climáticas e exigências comerciais.
De acordo com Rogério Coan, a proposta não é simplesmente transferir modelos estrangeiros para a realidade brasileira. O objetivo é compreender como diferentes países trabalham nutrição, sanidade, manejo e gestão diante de suas próprias restrições técnicas e mercadológicas.
A organização estima a participação de aproximadamente 2 mil produtores e profissionais do setor. Além das palestras, o encontro contará com espaços de relacionamento e troca de experiências, incluindo o Feedlot Podcast e o Buteco do Feedlot.
Gestão de custos torna-se estratégica para a pecuária
O levantamento reforça que a profissionalização da pecuária não depende apenas da adoção de tecnologias produtivas. Para transformar desempenho em rentabilidade, o produtor precisa conhecer detalhadamente os custos, acompanhar indicadores e utilizar os dados no planejamento da atividade.
Com margens cada vez mais condicionadas à combinação entre produtividade e controle econômico, saber quanto custa produzir uma arroba deixa de ser apenas uma prática administrativa e passa a representar uma condição essencial para a sustentabilidade financeira da propriedade.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias