Bioinsumos na pecuária podem reduzir perdas bilionárias com carrapatos, mas dependem de regulamentação
Com prejuízos estimados em US$ 3,2 bilhões por ano provocados pelo carrapato bovino, soluções biológicas ganham espaço no manejo sanitário; setor defende regras específicas para ampliar investimentos, garantir segurança e acelerar a chegada das tecnologias ao produtor.
Publicado em: 03/11/2026 às 10:10hs
A resistência dos parasitas aos produtos químicos e a pressão por uma pecuária mais sustentável estão ampliando o interesse por bioinsumos destinados à saúde animal. No Brasil, onde os prejuízos associados ao carrapato bovino são estimados em cerca de US$ 3,2 bilhões anuais, tecnologias à base de microrganismos surgem como alternativas para diversificar o controle sanitário dos rebanhos.
Apesar do potencial, o avanço comercial dessas soluções ainda enfrenta um obstáculo: a ausência de uma regulamentação específica para o registro de bioinsumos destinados ao controle de parasitas na pecuária. O setor defende que a regulamentação da Lei nº 15.070/2024 estabeleça critérios adequados às características desses produtos, oferecendo segurança jurídica e condições para estimular a inovação.
A discussão ganha relevância diante da perda progressiva de eficácia de determinados carrapaticidas, da preocupação com resíduos químicos em alimentos e das exigências crescentes dos mercados consumidores e importadores.
Resistência a carrapaticidas aumenta procura por alternativas biológicas
O carrapato bovino é apontado como o principal ectoparasito dos rebanhos brasileiros. O uso continuado de antiparasitários químicos sintéticos, associado à seleção de populações resistentes, tem dificultado o controle do problema em diferentes sistemas de produção.
Para Caio Monteiro, pesquisador na área de Parasitologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), esse cenário reforça a necessidade de desenvolver novas ferramentas para o manejo sanitário.
“Esse avanço da resistência tem reforçado a necessidade de novas tecnologias de controle, capazes de contribuir para o aumento da produtividade e do bem-estar animal, ao mesmo tempo em que reduzem a dependência de insumos químicos. Nesse cenário, é fundamental criar condições para que soluções alinhadas ao conceito de Saúde Única, que considera a relação entre a saúde animal, humana e ambiental, cheguem ao mercado e contribuam para um manejo mais seguro e sustentável”, afirma.
A abordagem de Saúde Única considera a conexão entre saúde animal, saúde humana e equilíbrio ambiental. Nesse contexto, os bioinsumos são vistos como parte de uma estratégia mais ampla de diversificação das ferramentas utilizadas na produção pecuária.
Lei dos Bioinsumos precisa contemplar produtos de uso animal
A consolidação desse mercado depende da regulamentação da Lei dos Bioinsumos, instituída pela Lei nº 15.070/2024. O texto final do decreto deverá considerar as particularidades dos produtos destinados ao uso animal, especialmente aqueles voltados ao controle de parasitas externos.
Atualmente, a regulamentação segue em discussão a partir da minuta de decreto encaminhada pelo Ofício nº 440/2025/DSV/SDA/MAPA, de dezembro de 2025. Entre os pontos em debate está a construção de normas específicas para o registro dessas tecnologias.
A ANPII Bio (Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos) defende um ambiente regulatório que combine critérios técnicos, proporcionalidade ao risco e estímulo à inovação.
“O Brasil reúne escala produtiva, capacidade científica e um dos maiores mercados pecuários do mundo, mas transformar esse potencial em avanço concreto depende de um ambiente regulatório claro, que traga previsibilidade e destrave a inovação. Sem isso, o investimento desacelera e o país pode perder competitividade em uma frente estratégica para a produção animal”, explica Larissa Bonotto, diretora de operações da entidade.
ANPII Bio amplia atuação no mercado de bioinsumos para pecuária
A ANPII Bio ampliou sua atuação no último ano para incluir empresas que desenvolvem produtos biológicos destinados à produção animal, especialmente soluções para o controle de parasitas externos nos rebanhos.
A iniciativa busca fortalecer a representação industrial do segmento e ampliar a interlocução com pesquisadores, universidades e instituições envolvidas no desenvolvimento dessas tecnologias.
A entidade também destaca sua participação no Grupo de Trabalho (GT) instituído pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) para contribuir com a construção do marco regulatório da Lei de Bioinsumos. No grupo, participou como única representante exclusiva da indústria, com conhecimento específico sobre soluções biológicas para o controle de parasitas na pecuária.
Com o avanço das discussões sobre o decreto, a associação pretende manter sua contribuição técnica e institucional para que as regras contemplem as necessidades desse mercado.
Como funcionam os bioinsumos utilizados na produção animal
Os bioinsumos de uso animal abrangem produtos e processos de origem biológica, principalmente desenvolvidos a partir de microrganismos e seus metabólitos. Essas soluções podem ser aplicadas na produção pecuária e aquícola com objetivos relacionados à saúde, ao bem-estar, ao desempenho e à eficiência produtiva.
A base tecnológica é semelhante à utilizada nos bioinsumos agrícolas, com a aplicação de organismos benéficos, como fungos e bactérias.
A principal diferença está no ambiente de utilização. Enquanto os produtos agrícolas atuam sobre plantas, solo e organismos associados às doenças vegetais, os bioinsumos pecuários interagem diretamente com os animais ou com o ambiente em que eles vivem.
Essa característica exige protocolos próprios de aplicação, manejo e avaliação de segurança, especialmente quando as soluções são destinadas ao controle de carrapatos, moscas e outros parasitas.
Fungos e bacteriófagos estão entre as tecnologias em desenvolvimento
Entre as alternativas pesquisadas para a pecuária estão os fungos entomopatogênicos, capazes de infectar carrapatos em diferentes fases de desenvolvimento. A aplicação pode ocorrer diretamente nos animais ou nas pastagens, conforme a tecnologia e o protocolo adotado.
Outra frente envolve os bacteriófagos, vírus que infectam bactérias. Esses organismos vêm sendo estudados como aditivos zootécnicos para ajudar na prevenção de infecções do trato gastrointestinal em aves, suínos e bovinos.
O potencial dessas tecnologias inclui a possibilidade de reduzir ou substituir o uso de antibióticos em determinadas aplicações, conforme a eficácia e a segurança demonstradas.
Além da diversificação do controle sanitário, os produtos biológicos podem contribuir para diminuir a exposição de organismos não-alvo a substâncias químicas e reduzir riscos relacionados à presença de resíduos em alimentos de origem animal.
“O uso de biológicos na produção animal possui enorme potencial, principalmente onde os problemas não têm solução eficiente disponível. A aplicação dessas tecnologias poderá reduzir o uso de produtos químicos e diminuir o risco de que organismos resistentes, como bactérias multirresistentes, sejam transmitidos para humanos via alimentação ou manejo”, ressalta Luciano Lopes Queiroz, CEO da Karaja Biosciences.
Exigências sanitárias e comércio internacional reforçam debate
A resistência dos parasitas aos antiparasitários químicos não é o único desafio para a pecuária. O uso inadequado desses produtos também pode aumentar o risco de resíduos nos alimentos e gerar dificuldades para a comercialização.
Ao mesmo tempo, o controle e a rastreabilidade do uso de antimicrobianos vêm ganhando importância nas relações comerciais internacionais.
No início de setembro, a União Europeia suspendeu temporariamente a entrada de produtos brasileiros de proteína animal no bloco, com base nas regras europeias relacionadas ao uso dessas substâncias.
Para a ANPII Bio, o episódio evidencia a importância de fortalecer os controles sanitários e desenvolver alternativas eficazes e sustentáveis para a produção animal.
A ampliação do uso de soluções biológicas, nesse cenário, é apresentada pelo setor como uma possibilidade de diversificar as ferramentas de manejo e responder às exigências de mercados cada vez mais atentos à segurança dos alimentos.
Setor propõe regras específicas para registro de bioinsumos pecuários
A ANPII Bio estruturou duas frentes de atuação no grupo de trabalho do MAPA: uma técnica e outra institucional. O objetivo é contribuir para uma regulamentação que considere as particularidades dos produtos biológicos destinados ao controle de parasitas na pecuária.
Entre as propostas apresentadas pela entidade estão:
- Validação de metodologias analíticas: definição de critérios para comprovar a qualidade e as características dos produtos.
- Registro de estabelecimentos: adequação das exigências às características da produção de bioinsumos de uso animal.
- Reconhecimento do efeito direto: consideração dos efeitos comprovados dos produtos sobre seus alvos biológicos.
- Lista positiva de ativos: criação de uma relação de ativos biológicos autorizados para uso na pecuária, identificados em nível de cepa.
- Harmonização de terminologias: alinhamento dos conceitos utilizados nas áreas agrícola e animal, evitando sobreposições e inconsistências.
- Informações em rótulos e bulas: possibilidade de informar efeitos diretos comprovados sobre parasitas e invertebrados, com clareza e responsabilidade técnica, mantendo a restrição a alegações terapêuticas ou curativas, próprias de medicamentos veterinários.
As propostas buscam estabelecer critérios compatíveis com as características dos produtos, sem deixar de lado as exigências de segurança e eficácia.
Exigências regulatórias precisam considerar as diferenças do uso animal
Para Lucas von Zuben, CEO da Decoy, empresa associada à ANPII Bio, o registro de bioinsumos destinados à pecuária envolve exigências que vão além das normalmente aplicadas aos produtos agrícolas.
Além de ensaios de eficácia, toxicologia e ecotoxicologia, essas tecnologias podem exigir avaliações de segurança clínica nos animais-alvo.
“Do ponto de vista da base tecnológica, há pouca ou nenhuma diferença entre os biológicos de uso animal e os de uso agrícola. As diferenças mais relevantes estão relacionadas ao contexto de uso e às exigências regulatórias. É exatamente nesse contexto que a ausência de um marco normativo específico para uso animal impõe os maiores obstáculos ao setor”, aponta.
A definição de regras próprias é considerada essencial para evitar que exigências inadequadas ao contexto pecuário dificultem o desenvolvimento, a regularização e a comercialização dos produtos.
Pesquisa, indústria e investimentos podem acelerar o mercado
Além da agenda regulatória, a ANPII Bio busca aproximar universidades, instituições de pesquisa, startups e empresas de tecnologia das indústrias e dos investidores.
A articulação pretende contribuir para o escalonamento industrial, a validação tecnológica e a entrada segura de novas soluções no mercado.
Para Larissa Bonotto, a construção de regras adequadas pode ajudar o Brasil a aproveitar sua capacidade científica e industrial também na produção de bioinsumos para uso animal.
“Essas contribuições não são demandas isoladas, mas parte de uma visão integrada de como o Brasil pode liderar também nesse segmento, com a mesma seriedade técnica e capacidade industrial que já demonstrou nos bioinsumos para uso agrícola”, conclui.
Com perdas expressivas associadas aos desafios sanitários e o avanço da resistência aos produtos químicos, a pecuária brasileira amplia a busca por alternativas biológicas. A consolidação desse mercado, porém, dependerá de uma regulamentação que permita transformar pesquisas e tecnologias em soluções registradas, seguras e acessíveis aos produtores.
Fonte: Portal do Agronegócio
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