Novas rotas do comércio global elevam custos e exigem revisão de fretes, câmbio e capital de giro
Tarifas dos Estados Unidos e mudanças na logística internacional levam empresas brasileiras a recalcular prazos, estoques, seguros e riscos financeiros antes de trocar fornecedores ou mercados
Publicado em: 15/09/2026 às 13:00hs
A reorganização do comércio global já modifica a estrutura de custos de importadores e exportadores brasileiros. Diante de novas tarifas, tensões geopolíticas e alterações nas rotas marítimas, empresas precisam avaliar não apenas o preço negociado com fornecedores e clientes, mas também os impactos sobre frete, câmbio, seguros, estoques, prazos e capital de giro.
Levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indica que as novas tarifas dos Estados Unidos atingem 23,1% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano. No primeiro semestre de 2026, os embarques do Brasil para o país totalizaram US$ 17,4 bilhões, recuo de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O cenário tem levado companhias a buscar novos fornecedores, países de origem e destinos comerciais. A mudança, entretanto, pode produzir despesas adicionais que nem sempre aparecem nas primeiras cotações.
Troca de fornecedores altera toda a estrutura da operação
Segundo Fabiane Oliveira, fundadora da Saygo Group e especialista em assessoria e gestão de operações de importação e exportação, a escolha de uma nova rota comercial deve considerar o custo completo da mercadoria até o destino.
“Trocar um país de origem ou um destino de venda não significa apenas negociar com outra empresa. Muda frete, prazo, seguro, documentação, regras locais, condições de pagamento e, muitas vezes, a moeda da operação. A decisão precisa considerar quanto essa nova rota realmente custa até o produto chegar ao destino”, explica.
A avaliação ganha importância diante do volume movimentado pelo comércio exterior brasileiro. Em julho, a corrente de comércio do País alcançou US$ 61,17 bilhões, resultado de US$ 34,12 bilhões em exportações e US$ 27,05 bilhões em importações. De acordo com o MDIC, o montante foi 6,8% superior ao registrado no mesmo mês de 2025.
Tarifas dos Estados Unidos pressionam exportadores brasileiros
A revisão das cadeias de fornecimento ocorre em meio às barreiras comerciais anunciadas pelos Estados Unidos. As medidas divulgadas em julho estabeleceram sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre determinadas parcelas das importações procedentes do Brasil.
Nos produtos alcançados simultaneamente pelas duas medidas, a cobrança adicional pode chegar a 37,5%, conforme informações do MDIC. Para reduzir essa exposição, empresas avaliam novos destinos para suas exportações e alternativas de fornecimento em outros continentes.
A substituição de um mercado, contudo, exige atenção aos efeitos indiretos da operação. Uma mercadoria aparentemente mais barata pode demandar trajetos maiores, portos diferentes, mais tempo de armazenagem e aumento dos estoques de segurança.
Frete mais barato nem sempre representa menor custo final
Ronaldo Felix, sócio e diretor de Operações da Saygo Group, afirma que a análise deve incluir porto de embarque e desembarque, modal de transporte, capacidade de armazenagem e prazos firmados com os clientes.
“Um fornecedor pode oferecer um preço menor e, ainda assim, gerar uma operação mais cara. Se a mercadoria leva mais tempo para chegar, exige outro porto, aumenta o período de armazenagem ou faz a empresa carregar mais estoque, esse custo aparece depois. É por isso que a análise precisa começar antes da troca de rota”, destaca.
Relatórios da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) também apontam que os desvios causados por tensões geopolíticas estão ampliando as distâncias percorridas pelos navios, os custos operacionais e os atrasos nas entregas.
As tarifas de transporte marítimo permaneceram elevadas e voláteis ao longo de 2024 e 2025, influenciadas por conflitos internacionais, mudanças nas políticas comerciais e desequilíbrios entre oferta e demanda.
Rotas mais longas aumentam estoques e capital imobilizado
O prazo logístico passou a ter peso ainda maior na composição financeira das operações internacionais. Quando a viagem é mais longa, a empresa pode precisar antecipar compras, ampliar o estoque de segurança e manter recursos imobilizados por mais tempo.
“Uma rota mais longa não afeta apenas a logística. Ela pode exigir maior estoque de segurança, antecipação de compras e mais capital imobilizado até a mercadoria estar disponível para venda ou produção. Quando esses fatores não entram na análise inicial, a economia prevista pode desaparecer”, ressalta Ronaldo Felix.
Esse efeito pode atingir especialmente empresas que dependem de componentes importados ou trabalham com margens apertadas. Atrasos na chegada dos produtos também podem comprometer contratos, linhas de produção e cronogramas de entrega.
Mudanças no comércio global chegam à tesouraria
A reorganização das rotas internacionais afeta diretamente o planejamento financeiro. Ao substituir fornecedores dos Estados Unidos por parceiros europeus ou asiáticos, por exemplo, o importador pode passar a operar com moedas, prazos de pagamento e custos financeiros diferentes.
Para Murillo Oliveira, Head of Treasury da Saygo Group, a tesouraria deve participar da análise antes da contratação da nova operação.
“As novas rotas do comércio global também criam novas exposições financeiras. Quando a origem, o destino ou a moeda de uma operação muda, a empresa precisa recalcular fluxo de caixa, custo financeiro, precificação e necessidade de proteção cambial. Caso contrário, uma economia obtida na negociação comercial pode desaparecer na etapa financeira”, afirma.
Quanto maior o intervalo entre o pedido, o pagamento ao fornecedor e a chegada da mercadoria, maior tende a ser a necessidade de capital de giro para financiar compras, estoques e outros compromissos antes da geração de receita.
Proteção cambial deve começar no fechamento do negócio
O risco cambial não surge apenas no momento do pagamento. A exposição começa quando a empresa assume um compromisso financeiro em moeda estrangeira, o que exige integração entre as áreas de compras, comércio exterior e tesouraria.
“O câmbio não deve ser analisado apenas no dia do pagamento. A exposição nasce quando a empresa assume o compromisso internacional. Quanto mais cedo essa informação entra no planejamento financeiro, maior a capacidade de proteger margem e preservar previsibilidade”, acrescenta Murillo Oliveira.
Esse acompanhamento permite avaliar a necessidade de instrumentos de proteção cambial e antecipar os efeitos das oscilações das moedas sobre preços, margens e fluxo de caixa.
Empresas buscam visão integrada do custo de importação
O aumento do número de fornecedores, moedas, documentos e rotas torna mais complexa a apuração do custo efetivo de uma importação. Uma única mudança pode repercutir sobre transporte, armazenagem, tributos, fechamento de câmbio e recursos imobilizados.
Nesse contexto, a Saygo Group apresenta o Vision, plataforma de gestão de importações que concentra informações operacionais, financeiras e documentais. Segundo a empresa, a ferramenta permite acompanhar as etapas do processo e avaliar como mudanças de rota interferem em custos, prazos e conformidade.
A tendência é que fornecedores e mercados deixem de ser escolhidos apenas pelo preço negociado na origem. Em um comércio global mais fragmentado e sujeito a tarifas e interrupções logísticas, conhecer o custo total da operação será decisivo para proteger margens e evitar que uma alternativa aparentemente mais econômica resulte em despesas maiores para a empresa.
Fonte: Portal do Agronegócio
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