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Safra recorde e caixa no vermelho: por que as recuperações judiciais explodiram no agronegócio

Brasil colheu 346,1 milhões de toneladas em 2025, mas custos elevados, margens apertadas, juros altos e restrição de crédito levaram quase 2 mil produtores e empresas do agro à recuperação judicial


Publicado em: 26/08/2026 às 09:00hs

Safra recorde e caixa no vermelho: por que as recuperações judiciais explodiram no agronegócio

O agronegócio brasileiro encerrou 2025 diante de um paradoxo: enquanto a produção de grãos alcançou o maior volume da história, o número de pedidos de recuperação judicial também atingiu um recorde.

A safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas somou 346,1 milhões de toneladas, crescimento de 18,2% sobre 2024. Soja e milho registraram volumes históricos, consolidando mais um ciclo de forte desempenho produtivo no campo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados são do levantamento oficial do IBGE.

No mesmo período, o agronegócio contabilizou 1.990 pedidos de recuperação judicial, alta de 56,4% em relação às 1.272 solicitações registradas em 2024. Foi o maior resultado da série histórica iniciada pela Serasa Experian em 2021. Confira o levantamento da Serasa Experian.

Na avaliação do advogado Renato Ewerton de Melo, os números mostram que uma safra recorde, isoladamente, não garante rentabilidade nem capacidade de pagamento. Quando os custos crescem acima da receita e o endividamento se acumula, produzir mais pode significar ampliar a exposição financeira.

Produção recorde não assegura rentabilidade ao produtor

Durante décadas, o aumento da produtividade e da área cultivada sustentou a expansão do agronegócio brasileiro. O modelo, porém, exige volumes crescentes de crédito, insumos, máquinas, arrendamentos e capital de giro.

A pressão financeira aumenta quando o custo de produção avança, enquanto os preços das commodities permanecem estáveis ou recuam. Mesmo com maior volume colhido, o produtor pode terminar a safra com margem insuficiente para pagar financiamentos, fornecedores e despesas operacionais.

Segundo a análise de Melo, foi justamente essa combinação que ganhou força em 2025: produção elevada, preços pouco favoráveis, insumos caros e crédito mais restrito.

Nesse ambiente, faturamento e geração de caixa deixam de caminhar juntos. Uma propriedade pode registrar receita elevada e, ainda assim, não dispor dos recursos necessários para honrar os compromissos nos respectivos vencimentos.

Fertilizantes e insumos pressionam custos das lavouras

A dependência brasileira de fertilizantes importados mantém o produtor exposto às oscilações do mercado internacional, do câmbio e dos custos logísticos.

Em culturas intensivas no uso de tecnologia, os fertilizantes podem representar uma das maiores parcelas do custo operacional. Quando seus preços sobem, o impacto alcança diretamente a margem por hectare.

A pressão não se limita à adubação. Defensivos, sementes, combustíveis, fretes, máquinas, arrendamentos e mão de obra também compõem uma estrutura de gastos que precisa ser financiada antes da colheita.

Na soja, o problema se torna mais evidente quando os custos permanecem elevados e as cotações não apresentam reação proporcional. O produtor investe mais para implantar a lavoura, mas encontra menor espaço para formar margem na comercialização.

Áreas arrendadas enfrentam maior risco financeiro

A perda de rentabilidade tende a ser mais intensa nas propriedades com custo elevado de arrendamento. Nessas áreas, parte significativa da produção já está comprometida antes mesmo do plantio.

Se o contrato foi firmado com base em preços mais altos da soja ou em expectativas otimistas de produtividade, uma mudança no mercado pode tornar o resultado negativo mesmo quando a colheita é considerada satisfatória.

O crescimento baseado em áreas arrendadas também aumenta a necessidade de capital de giro. Cada novo hectare exige mais sementes, fertilizantes, defensivos, operações mecanizadas e crédito.

Para Melo, esse modelo se torna perigoso quando a expansão não é acompanhada por controle de custos, reservas financeiras e gestão de riscos.

Juros altos e crédito restrito agravam endividamento rural

O crédito rural, que poderia reduzir os efeitos do aumento dos custos, também ficou mais caro. No Plano Safra 2025/26, as taxas para custeio e comercialização chegaram a 14% ao ano para produtores fora do Pronamp. Para os médios produtores enquadrados no programa, a taxa foi estabelecida em 10% ao ano. As condições foram divulgadas pelo governo federal.

Com juros elevados e maior seletividade das instituições financeiras, produtores que já carregavam dívidas de ciclos anteriores encontraram dificuldades para renovar operações.

Durante períodos de crédito abundante e margens maiores, a rolagem das dívidas funcionou como uma alternativa para manter a atividade. A estratégia perdeu força quando o custo financeiro aumentou, as concessões desaceleraram e os preços agrícolas deixaram de compensar o crescimento das despesas.

O resultado foi um descasamento entre o vencimento das obrigações e a capacidade efetiva de geração de caixa.

Clima e preços aparecem entre as causas da crise

Frustrações de safra, eventos climáticos adversos, retração das commodities e desequilíbrio entre custos e receitas aparecem com frequência nos processos de recuperação judicial ligados ao agronegócio.

Embora a safra brasileira tenha estabelecido recorde em 2025, os resultados não foram uniformes. Uma produção nacional elevada pode conviver com perdas expressivas em determinadas regiões, culturas ou propriedades.

Secas, excesso de chuvas e temperaturas extremas afetam produtividade, qualidade dos produtos e calendário de colheita. Em paralelo, a queda das cotações reduz o faturamento justamente quando o produtor precisa pagar os investimentos realizados no início do ciclo.

Os pedidos de recuperação judicial também tendem a ganhar espaço em áreas de expansão agrícola acelerada, onde a produção foi ampliada com maior dependência de arrendamentos e financiamento.

Recuperação judicial não substitui gestão financeira

A recuperação judicial é um instrumento destinado à reorganização de empresas e produtores que enfrentam crise econômico-financeira, mas ainda apresentam condições para manter suas atividades.

O processo permite negociar dívidas e estruturar um plano de pagamento sob supervisão judicial. Isso não significa, entretanto, perdão automático dos débitos ou proteção irrestrita contra credores.

Documentação contábil, informações patrimoniais, relação de credores, histórico das operações e demonstração da viabilidade econômica são elementos indispensáveis. Inconsistências, omissões ou ausência de dados confiáveis podem comprometer o pedido.

Na avaliação de Melo, a transparência deixou de representar apenas uma recomendação de governança e passou a ser uma exigência prática para produtores que procuram o Judiciário.

“Sem governança e sem dados auditáveis, o pedido se torna uma aventura arriscada”, afirma.

Renegociação das dívidas rurais avança no Congresso

O agravamento do endividamento levou o tema ao centro da agenda política. Em junho de 2026, o Senado aprovou um projeto que cria uma linha especial para refinanciar dívidas de produtores afetados por eventos climáticos, com carência, juros reduzidos e prazo ampliado.

A proposta autoriza o uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal e de outras fontes para viabilizar as operações. Como o texto foi alterado pelos senadores, ainda precisa passar por nova análise da Câmara dos Deputados antes de uma eventual sanção. Veja a tramitação informada pelo Senado.

O avanço da matéria demonstra que a crise financeira deixou de ser um problema restrito a propriedades isoladas. O endividamento passou a envolver produtores, cooperativas, revendas, fornecedores, bancos e diferentes elos das cadeias agroindustriais.

Gestão de custos passa a definir sobrevivência no campo

A safra recorde de 2025 expôs uma fragilidade estrutural: produtividade física não significa, necessariamente, eficiência econômica.

Para continuar competitivo, o produtor precisa conhecer o custo real por hectare, projetar diferentes cenários de preços, avaliar a capacidade de pagamento e definir limites seguros para novos investimentos.

Entre os pontos considerados essenciais estão o controle do fluxo de caixa, a renegociação antecipada de contratos, a gestão dos estoques, o planejamento tributário, a comercialização escalonada e a utilização de instrumentos de proteção contra oscilações de preços e câmbio.

Também é necessário analisar se a expansão de área efetivamente aumenta o resultado ou apenas amplia faturamento, dívida e risco operacional.

Na avaliação de Renato Ewerton de Melo, esperar que a próxima safra resolva automaticamente o problema financeiro é uma estratégia perigosa. A produção poderá voltar a crescer sem que as margens acompanhem esse movimento.

O novo desafio do agronegócio brasileiro, portanto, não está apenas em colher mais. Está em transformar produtividade em caixa, controlar custos e crescer dentro da capacidade financeira de cada negócio.

Fonte: Portal do Agronegócio

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