Descontrole dos gastos públicos eleva juros, trava investimentos e agrava dívida do agro, alerta CNA
Presidente da entidade, João Martins, afirma que o ajuste fiscal se tornou uma “necessidade imperativa” para recuperar a competitividade, preservar empresas e estimular o crescimento econômico
Publicado em: 25/08/2026 às 18:20hs
O desequilíbrio das contas públicas, a escalada da dívida governamental e a manutenção dos juros em níveis elevados estão comprometendo os investimentos, a geração de empregos e a capacidade de crescimento do agronegócio brasileiro. O alerta foi feito pelo presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, durante a abertura do evento “Agenda Brasil – Crescimento, Emprego e Competitividade”, realizado na terça-feira (25), em São Paulo.
Em seu discurso, Martins afirmou que o ajuste das contas do governo deixou de ser uma alternativa e passou a representar uma “necessidade imperativa”. Segundo ele, a falta de controle das despesas públicas pressiona a dívida, mantém o custo do crédito elevado e reduz o espaço para o financiamento das atividades produtivas.
Promovido pelo Sistema CNA/Senar em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo, o encontro reuniu cerca de 500 convidados para discutir responsabilidade fiscal, produtividade, emprego e competitividade.
Dívida pública e juros altos pressionam setor produtivo
De acordo com João Martins, o crescimento contínuo da dívida pública faz com que os títulos do Tesouro ocupem uma parcela cada vez maior do mercado financeiro. Esse movimento contribui para manter os juros em patamares incompatíveis com a expansão dos investimentos privados.
O presidente da CNA avaliou que esse ambiente econômico tem provocado a deterioração financeira de empresas e famílias. No campo, a combinação de crédito caro, inflação dos custos de produção, margens menores e dificuldades de renegociação também ampliou o endividamento dos produtores rurais.
Na avaliação do dirigente, o agronegócio, que durante anos demonstrou maior resistência às crises econômicas, também enfrenta uma conjuntura financeira delicada.
Martins defendeu a adoção de políticas públicas capazes de restabelecer o equilíbrio fiscal e recuperar a confiança dos agentes econômicos. Para ele, a continuidade do atual cenário pode comprometer empresas, empregos e estruturas produtivas construídas ao longo de décadas.
Baixa renda revela desafios estruturais do Brasil
Durante a abertura do evento, o presidente da CNA também apresentou um diagnóstico sobre a realidade econômica e social brasileira.
Segundo os dados mencionados pelo dirigente, aproximadamente 70% da população empregada recebe até dois salários mínimos. Além disso, cerca de 30 milhões de famílias dependem de programas públicos de transferência de renda para garantir sua subsistência.
Para Martins, esses indicadores demonstram o contraste entre o potencial econômico do Brasil e as dificuldades enfrentadas por grande parcela da população. Apesar da disponibilidade de recursos naturais, capacidade produtiva e conhecimento tecnológico, o País ainda convive com baixo crescimento, desigualdade e perda de competitividade.
O dirigente também avaliou que as sucessivas crises econômicas e políticas registradas nas primeiras décadas do século limitaram o avanço da economia e aprofundaram divisões na sociedade.
Eleições deveriam priorizar propostas para crescimento e responsabilidade fiscal
João Martins afirmou que o período eleitoral deveria abrir espaço para uma discussão ampla sobre os principais desafios nacionais. Entretanto, avaliou que o debate público ainda apresenta poucas propostas realistas para o equilíbrio das contas, a retomada dos investimentos e a criação de empregos.
O presidente da CNA recordou que o Brasil já demonstrou capacidade para desenvolver soluções estratégicas em diferentes momentos da história. Entre os exemplos mencionados estão a modernização da agricultura e da pecuária, a criação do Proálcool, o desenvolvimento de tecnologias para exploração do pré-sal e a implantação do Plano Real.
Na avaliação de Martins, o País dispõe de recursos e conhecimento para superar a atual conjuntura, mas precisa de participação mais ativa do setor produtivo e da sociedade na discussão das políticas públicas.
Agro brasileiro enfrenta crise de endividamento
O impacto dos juros elevados sobre o agronegócio também foi destacado pelo presidente do Sistema Faesp/Senar, Tirso Meirelles.
Segundo ele, o setor brasileiro produz alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas, responde por aproximadamente um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) e dos empregos e representa cerca de metade das exportações nacionais.
Apesar dessa relevância, o endividamento provocado pelo crédito caro e pela inflação dos custos tem limitado a capacidade de investimento e crescimento das atividades agropecuárias.
Meirelles defendeu a elaboração de um projeto nacional de desenvolvimento que reconheça o papel estratégico do campo. Ele também ressaltou a atuação conjunta do Sistema CNA/Senar, das federações estaduais de agricultura e pecuária e da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
Tereza Cristina cobra responsabilidade na gestão dos recursos públicos
A senadora Tereza Cristina, vice-presidente da FPA, também participou da abertura e defendeu maior responsabilidade na condução das contas públicas.
Segundo a parlamentar, o Brasil arrecada muito, mas apresenta baixa eficiência na aplicação dos recursos. Ela alertou que o aumento das despesas e o desequilíbrio fiscal dificultam a redução dos juros e prejudicam o desenvolvimento econômico.
Tereza Cristina destacou que as taxas elevadas afetam diretamente o acesso dos produtores rurais ao financiamento. Com o encarecimento do crédito, investimentos em tecnologia, infraestrutura, recuperação de áreas, armazenagem e expansão da produção acabam sendo adiados.
A senadora defendeu que as despesas governamentais sejam compatíveis com a arrecadação, permitindo melhorar os serviços públicos e criar condições para o crescimento sustentável da economia.
Seguro rural precisa de recursos previsíveis
Além da responsabilidade fiscal, Tereza Cristina chamou atenção para a necessidade de fortalecer o seguro rural. A senadora defendeu maior previsibilidade orçamentária e ampliação da cobertura oferecida aos produtores.
A ausência de uma política de seguro suficientemente abrangente aumenta a exposição do campo a secas, enchentes, geadas e outros eventos climáticos extremos. Quando ocorrem perdas expressivas, produtores sem proteção financeira acabam recorrendo a novos financiamentos ou renegociações de dívidas.
Nesse cenário, o seguro rural é considerado um instrumento estratégico para preservar a renda, reduzir a inadimplência e evitar ciclos sucessivos de endividamento no agronegócio.
Estudos orientaram debates sobre competitividade e emprego
O evento “Agenda Brasil” contou com dois painéis. O primeiro abordou a responsabilidade fiscal como fator de competitividade nacional. O segundo discutiu produtividade, geração de empregos e novas diretrizes para as políticas públicas.
Dois estudos inéditos encomendados pelo Sistema CNA/Senar foram apresentados durante o encontro e serviram de base para as discussões.
Participaram pesquisadores, economistas, autoridades, parlamentares, empresários, dirigentes de entidades e representantes do setor produtivo. Também estiveram presentes vice-presidentes da CNA, presidentes das federações estaduais de agricultura e pecuária, superintendentes do Senar e diretores do Sistema CNA/Senar.
A avaliação predominante foi de que o equilíbrio fiscal, a redução sustentável dos juros, a ampliação do seguro rural e a recuperação da capacidade de investimento são fundamentais para melhorar a competitividade do Brasil e evitar o agravamento da crise financeira no campo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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