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Clima

El Niño na safra 2026/27: Embrapa orienta como proteger soja e milho de seca, erosão e doenças

Planejamento antecipado, respeito ao Zarc, cobertura do solo, semeadura escalonada e monitoramento fitossanitário ajudam a reduzir perdas nas principais regiões produtoras do Brasil


Publicado em: 19/08/2026 às 16:30hs

El Niño na safra 2026/27: Embrapa orienta como proteger soja e milho de seca, erosão e doenças
Foto: Capal

A adoção antecipada de práticas de manejo poderá reduzir os impactos do El Niño sobre as lavouras brasileiras de soja e milho na safra 2026/27. Diante da possibilidade de chuvas excessivas no Sul e precipitações mais escassas e irregulares no Norte e no Nordeste, pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) recomendam planejamento regionalizado para proteger o solo e diminuir os riscos produtivos.

Entre as principais orientações estão o cumprimento do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), a implantação de plantas de cobertura, a diversificação dos ciclos das cultivares e o escalonamento da semeadura. O monitoramento frequente das lavouras também será fundamental, já que as mudanças no regime de chuvas podem alterar a incidência de pragas, doenças e plantas daninhas.

El Niño terá impactos diferentes entre as regiões

Os possíveis efeitos do El Niño sobre a agricultura brasileira variam conforme a localização das lavouras. Na Região Sul, o fenômeno tende a aumentar os volumes de chuva, elevando os riscos de erosão, encharcamento, dificuldade nas operações agrícolas e ocorrência de doenças.

No Norte e no Nordeste, a principal preocupação é a redução e a irregularidade das precipitações. A falta de água em fases decisivas do desenvolvimento das plantas pode comprometer o potencial produtivo da soja e do milho.

Nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, os efeitos devem ser menos intensos, mas ainda podem envolver atraso no retorno das chuvas, temperaturas elevadas e baixa umidade relativa do ar.

Zoneamento climático deve orientar a semeadura

Uma das principais recomendações da Embrapa é respeitar as janelas de plantio definidas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático para cada município, cultura e tipo de solo.

O Zarc identifica os períodos com menor probabilidade de perdas causadas por eventos meteorológicos adversos. Plantar fora dessas janelas aumenta a exposição das lavouras à seca, ao excesso de chuva e a outros riscos climáticos.

Em uma temporada marcada pela influência do El Niño, a escolha correta da época de semeadura ganha ainda mais importância para o estabelecimento das plantas e para a proteção do potencial produtivo.

Cobertura vegetal ajuda a proteger o solo

A implantação de plantas de cobertura durante o inverno está entre as estratégias mais importantes para preparar as áreas antes da semeadura da safra de verão.

No Sul, espécies como centeio, aveia e nabo forrageiro ajudam a formar uma camada abundante de palhada. Essa cobertura reduz o impacto direto das gotas de chuva, diminui o escoamento superficial e protege o solo contra processos erosivos.

De acordo com o pesquisador José Renato Bouças Farias, da Embrapa Soja, a erosão hídrica severa está entre os principais riscos associados ao El Niño no Sul. Por isso, a formação antecipada de cobertura vegetal pode fazer diferença na conservação das áreas produtivas.

Plantio em nível reduz erosão no Sul

Em anos com chuvas frequentes e grandes volumes acumulados, a semeadura em nível, também chamada de plantio em contorno, pode ajudar a controlar a movimentação da água sobre o terreno.

A técnica consiste em posicionar as linhas de plantio acompanhando as curvas de nível e transversalmente ao declive. O sistema reduz a velocidade do escoamento, favorece a infiltração e melhora o armazenamento de água no perfil do solo.

A construção e a manutenção de terraços também podem ser adotadas para melhorar a drenagem superficial e reduzir os danos provocados pela declividade.

Essas práticas devem ser ajustadas às características de cada propriedade, considerando o relevo, o tipo de solo e a intensidade esperada das chuvas.

Excesso de chuva dificulta aplicação de defensivos

A maior frequência de precipitações no Sul pode reduzir as janelas disponíveis para pulverização. O cenário exige planejamento mais rigoroso das aplicações destinadas ao controle de pragas, doenças e plantas daninhas.

Defensivos aplicados pouco antes de uma chuva podem apresentar perda de eficiência, aumentando custos e exigindo novas operações. A recomendação é acompanhar as previsões meteorológicas e realizar as aplicações nas condições ambientais adequadas.

Além da chuva, fatores como vento, temperatura, umidade do ar, estado da lavoura e estágio de desenvolvimento do alvo precisam ser considerados antes da pulverização.

Calor e umidade elevam risco de doenças na soja e no milho

A combinação entre temperaturas elevadas, alta umidade e curtos períodos de insolação cria condições favoráveis ao desenvolvimento de doenças fúngicas.

Na soja, o monitoramento deve ser reforçado para a detecção precoce de ferrugem-asiática, mofo-branco, mancha-alvo, antracnose e doenças de final de ciclo.

No milho, a atenção deve estar voltada principalmente para cercosporiose, mancha-branca, helmintosporioses e podridões.

A identificação antecipada permite definir o momento adequado para o controle e reduz o risco de aplicações tardias, quando as doenças já estão estabelecidas e o potencial produtivo foi comprometido.

Ferrugem-asiática exige atenção redobrada

A ferrugem-asiática permanece como uma das principais ameaças à soja em ambientes de elevada umidade. Segundo a pesquisadora Leila Costamilan, da Embrapa Trigo, o produtor deve acompanhar tanto as condições ambientais favoráveis à doença quanto os primeiros registros de ocorrência nas regiões produtoras.

A definição do momento de aplicação dos fungicidas precisa considerar o risco climático, o estágio da lavoura, a presença do patógeno na região e as recomendações técnicas.

A Embrapa também orienta o cumprimento do vazio sanitário, a adoção de cultivares precoces no início da janela recomendada e o uso de materiais com genes de resistência.

Palhada reduz perdas de água no Norte e Nordeste

Nas regiões Norte e Nordeste, onde a irregularidade das chuvas poderá aumentar o risco de déficit hídrico, a cobertura do solo também ocupa papel estratégico.

Braquiária, milheto e crotalária estão entre as plantas de serviço indicadas para a formação de palhada. A cobertura favorece a infiltração da água, reduz a evaporação e ajuda a manter temperaturas mais baixas no solo.

Esses benefícios podem prolongar a disponibilidade de umidade para as plantas durante períodos sem chuva, reduzindo parte dos efeitos do estresse hídrico.

Tempo seco pode favorecer mosca-branca e plantas daninhas

A redução das chuvas tende a diminuir a incidência de algumas doenças foliares, mas pode favorecer outros problemas fitossanitários.

Segundo Maurício Meyer, pesquisador da Embrapa Soja, ambientes mais secos podem dificultar o controle de plantas daninhas e favorecer pragas como a mosca-branca.

O monitoramento contínuo será necessário para identificar alterações na dinâmica das populações e orientar as aplicações de defensivos no momento adequado. O calendário de manejo não deve ser definido apenas com base no histórico de anos anteriores, pois o comportamento das pragas pode mudar conforme as condições climáticas.

Semeadura escalonada distribui riscos climáticos

Outra estratégia recomendada é dividir o plantio em diferentes períodos e utilizar cultivares com ciclos variados.

A semeadura escalonada evita que toda a área alcance fases sensíveis, como florescimento e enchimento de grãos, ao mesmo tempo. Dessa forma, uma seca, chuva intensa ou outro evento extremo tende a atingir apenas parte da produção em um estágio crítico.

A diversificação dos ciclos também oferece maior flexibilidade operacional e distribui as atividades de manejo e colheita ao longo da temporada.

Centro-Oeste pode ter atraso no início das chuvas

Embora os efeitos do El Niño sejam projetados como menos intensos no Centro-Oeste e no Sudeste, os produtores dessas regiões também devem manter a cautela.

No Centro-Oeste, o fenômeno pode contribuir para temperaturas mais altas, baixa umidade do ar e atraso na regularização das chuvas da safra de verão. Precipitações isoladas não significam necessariamente o início definitivo do período chuvoso.

A semeadura realizada com umidade insuficiente pode provocar germinação irregular, falhas de estande e necessidade de replantio. Por isso, o produtor deve avaliar a umidade no perfil do solo e acompanhar a consistência das previsões meteorológicas antes de iniciar as operações.

Planejamento será decisivo para a safra 2026/27

Os impactos do El Niño não podem ser completamente eliminados, mas medidas preventivas ajudam a reduzir a vulnerabilidade das lavouras.

O respeito ao Zarc, a conservação do solo, a formação de palhada, o escalonamento do plantio, a diversificação de cultivares e o monitoramento de pragas e doenças formam a base da estratégia indicada pela Embrapa.

Como os efeitos do fenômeno variam entre as regiões, cada propriedade deve adaptar o manejo às características do solo, ao histórico climático, às culturas implantadas e à disponibilidade de máquinas e mão de obra. A antecipação das decisões será determinante para proteger a produtividade da soja e do milho na safra 2026/27.

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Fonte: Portal do Agronegócio

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