Soja, petróleo e minério concentram vendas à China e ampliam exposição do Brasil
Três commodities responderam por quase três quartos das exportações brasileiras ao mercado chinês em 2025; especialista defende diversificação diante das mudanças econômicas de Pequim
Publicado em: 01/10/2026 às 16:30hs
A concentração das exportações brasileiras à China em soja em grão, petróleo bruto e minério de ferro aumenta a exposição do país às oscilações de preços e às decisões de seu principal parceiro comercial. A avaliação é de Francisca Grostein, professora de comércio exterior do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie e integrante do Núcleo de Estudos sobre a China (NECH).
Em sua análise, a especialista destaca que a China comprou US$ 99,9 bilhões em produtos brasileiros em 2025, o equivalente a 28,6% das exportações nacionais. Os Estados Unidos, segundo maior destino, adquiriram US$ 37,7 bilhões, correspondentes a 10,8% do total.
A demanda chinesa contribuiu para a expansão das vendas externas brasileiras. Entretanto, a combinação entre o peso desse mercado e a concentração em poucos produtos cria uma vulnerabilidade que, segundo Grostein, exige atenção.
Três commodities somam cerca de US$ 74 bilhões
Soja em grão, petróleo bruto e minério de ferro responderam por aproximadamente US$ 74 bilhões em exportações para a China em 2025. O valor representa quase três quartos das vendas brasileiras àquele mercado e mais de um quinto de tudo o que o Brasil exportou ao mundo.
Para a professora, essa participação deixa uma parcela expressiva das receitas externas dependente tanto das cotações internacionais quanto das escolhas econômicas e comerciais de Pequim.
Mudanças no ritmo das compras chinesas ou no perfil dos produtos demandados podem, portanto, repercutir sobre setores relevantes da economia brasileira.
Transformação da economia chinesa muda a demanda por matérias-primas
Grostein aponta que o modelo de crescimento da China atravessa uma transição. O setor imobiliário, que durante décadas sustentou parte importante da demanda por matérias-primas, como minério de ferro, perdeu dinamismo.
Ao mesmo tempo, investimentos e políticas públicas passaram a priorizar atividades como veículos elétricos, baterias, energias renováveis, inteligência artificial e manufatura avançada.
A China também reforça políticas de segurança econômica e busca ampliar a autossuficiência em áreas estratégicas, incluindo alimentos, energia e tecnologia. Segundo a especialista, esse movimento pode modificar gradualmente as necessidades de importação do país.
Comércio com o Brasil deve continuar, mas perfil das compras pode mudar
Na avaliação de Grostein, a transformação chinesa não significa uma interrupção iminente das compras de produtos brasileiros. A dimensão do mercado e a competitividade do agronegócio e da mineração nacionais tornam uma retração abrupta pouco provável.
O risco está nas mudanças ao longo dos anos. Ganhos de produtividade na agricultura chinesa, ajustes na política industrial e novas estratégias de segurança alimentar podem alterar tanto os volumes adquiridos quanto a composição das importações.
Para o Brasil, acompanhar essas transformações é importante para identificar possíveis impactos sobre as exportações e oportunidades em outras atividades.
Diversificação pode ampliar participação em cadeias de maior valor
A professora defende que o Brasil diversifique produtos e destinos comerciais, preservando a relação com seu principal parceiro. Também considera necessário aproveitar os investimentos chineses para ampliar a participação brasileira em atividades de maior valor agregado.
Entre as possibilidades estão insumos, componentes e bens industriais vinculados às cadeias produtivas que a própria China vem priorizando.
Na análise de Grostein, essa agenda já era necessária, mas ganhou urgência com a transformação da economia chinesa e com o peso de três commodities nas vendas brasileiras ao país.
Análise de Francisca Grostein, professora de comércio exterior da Universidade Presbiteriana Mackenzie e membro do Núcleo de Estudos sobre a China. As opiniões expressas não representam necessariamente a posição da instituição.
Fonte: Portal do Agronegócio
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