Petróleo acima de US$ 110 e espera de navios em Santos ampliam riscos logísticos para o agro
Ataques no Estreito de Ormuz, pressão sobre o diesel e atrasos na descarga de fertilizantes elevam a incerteza sobre fretes, abastecimento e prazos
Publicado em: 27/10/2026 às 10:20hs
O transporte de insumos e mercadorias enfrenta novas pressões com a combinação de petróleo acima de US$ 110 por barril, ataques a navios no Oriente Médio e congestionamento no Porto de Santos. Para empresas brasileiras e integrantes do agronegócio, o cenário amplia a incerteza sobre custos de frete, recebimento de fertilizantes e cumprimento de contratos.
Nesta segunda-feira (26), o petróleo Brent, referência internacional, era negociado próximo de US$ 115 por barril, depois de alcançar cerca de US$ 117 na sexta-feira anterior. A insegurança sobre o fornecimento de energia e a possibilidade de novos ataques mantêm a volatilidade das cotações.
No Brasil, a atenção também se volta à chegada de fertilizantes. Reportagem da S&P Global publicada em 19 de outubro apontou esperas próximas de 30 dias para navios com fertilizantes nitrogenados em importantes terminais do Porto de Santos. O prazo representa mais um desafio para o abastecimento das regiões produtoras.
Petróleo caro pressiona diesel, transporte e custos das empresas
A valorização do petróleo pode atingir diferentes etapas das cadeias produtivas, desde o combustível usado no transporte até produtos químicos, embalagens e matérias-primas.
No agronegócio brasileiro, o diesel tem peso no custo das operações mecanizadas e do frete rodoviário. Reajustes podem afetar o transporte de insumos até as propriedades e o escoamento da produção. O impacto sobre os preços finais, porém, depende das condições de mercado e da capacidade de absorção ou repasse dos custos por cada empresa.
Em relatório publicado em 14 de outubro, a Agência Internacional de Energia (AIE) projetou queda de 2,6 milhões de barris por dia na demanda mundial de petróleo em 2026, em um cenário de preços elevados, restrições de oferta e perspectivas econômicas mais fracas.
A entidade também apontou pressão sobre o mercado internacional de diesel, associada à redução das exportações e aos custos elevados de transporte e refino.
Para Mauro Lourenço Dias, presidente do Fiorde Group, a duração da instabilidade é um fator decisivo para as empresas. Segundo ele, a dificuldade de prever por quanto tempo os preços permanecerão elevados afeta a definição de margens, a negociação de contratos e o planejamento de compras.
Ataques no Estreito de Ormuz ameaçam rotas comerciais
Levantamento divulgado pela Reuters em 23 de outubro contabilizou 28 ataques confirmados ou reportados a embarcações comerciais no Estreito de Ormuz e em áreas próximas durante o mês. Desde o início da guerra na região, em fevereiro, eram 113 ocorrências registradas na apuração.
A passagem é estratégica para o transporte internacional de petróleo e gás. A maior insegurança pode elevar despesas com seguros, provocar alterações de rota e aumentar o tempo de entrega das cargas.
Esses efeitos alcançam países e empresas que não comercializam diretamente com os envolvidos no conflito. A conexão entre fornecedores, transportadoras e mercados faz com que uma interrupção em uma etapa possa repercutir em outras cadeias de abastecimento.
Segundo Dias, o importador pode sentir a pressão tanto no preço da mercadoria quanto no custo para trazê-la ao Brasil. Para o exportador, eventual benefício de preços internacionais ou do câmbio pode ser reduzido por dificuldades operacionais, fretes mais altos e atrasos.
Fertilizantes: espera em Santos preocupa importadores
Além das rotas internacionais, a capacidade de descarga nos portos brasileiros influencia o prazo de chegada dos insumos ao campo. Em Santos, a espera de navios com fertilizantes nitrogenados expõe a pressão sobre terminais responsáveis por receber e distribuir esses produtos.
Segundo os dados apresentados pela S&P Global, as importações brasileiras de ureia e sulfato de amônio somaram 7,95 milhões de toneladas de janeiro a setembro de 2026, queda de 21% em relação ao mesmo período de 2025.
O levantamento também indicou recuo de 14% no volume total de fertilizantes importados entre janeiro e agosto, na comparação anual.
A concentração de cargas em determinados terminais pode aumentar a disputa por atracação, descarga, armazenagem e transporte terrestre. Assim, mesmo com produto disponível no exterior, a entrega ao consumidor final depende da capacidade operacional ao longo de toda a rota.
A busca por portos alternativos pode ser uma opção para algumas operações, mas sua viabilidade depende de infraestrutura, disponibilidade e custo de transporte até as regiões de destino.
Atrasos e fretes mais caros afetam contratos e capital de giro
Para as empresas, a consequência de uma operação mais longa pode aparecer em despesas adicionais de armazenagem, necessidade de reorganizar a produção e dificuldade para cumprir os prazos acordados com clientes.
Fretes e seguros mais caros também podem exigir mais recursos para financiar compras e manter mercadorias em trânsito. Dependendo da duração dos atrasos, a empresa pode precisar rever estoques e cronogramas de fornecimento.
Dias ressalta que a resposta deve considerar o grau de exposição de cada negócio. Em vez de ampliar indiscriminadamente os estoques, a recomendação é identificar produtos críticos, fornecedores substitutos e rotas disponíveis, além do impacto financeiro de cada alternativa.
Clima e segurança digital também entram no planejamento portuário
Os riscos logísticos vão além do preço do petróleo e dos conflitos. Estudo divulgado pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) em junho de 2026 identificou ameaças aos portos brasileiros relacionadas a conflitos geoeconômicos, falhas nas cadeias globais e interrupções em infraestruturas digitais.
O levantamento também apontou as mudanças climáticas como uma ameaça à continuidade das operações portuárias até 2035.
Sistemas de agendamento, rastreamento e controle de cargas são fundamentais para coordenar terminais, transportadoras e clientes. Falhas tecnológicas ou incidentes cibernéticos podem interromper essa comunicação e ampliar atrasos.
Empresas avaliam cenários de preço, prazo e abastecimento
A combinação de petróleo valorizado, rotas marítimas sob tensão e gargalos portuários reforça a importância de integrar o planejamento logístico à gestão financeira.
Entre as medidas apontadas estão a revisão de contratos de transporte e fornecimento, a diversificação de fornecedores e o acompanhamento dos preços de frete e seguro. Também é necessário avaliar o efeito de eventuais aumentos sobre a margem e a competitividade.
Na análise de Dias, simulações com diferentes níveis de preço do petróleo ajudam as empresas a antecipar impactos e preparar decisões. O objetivo é conhecer a exposição a cada risco e a capacidade de reação caso custos ou prazos mudem.
Fonte: Portal do Agronegócio
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