Mercosul precisa de ação conjunta para manter competitividade do agro, defendem especialistas no GAFFFF
Representantes do Brasil e da Argentina apontam pressão sobre preços, custos elevados e dificuldades de crédito como desafios que exigem maior integração regional.
Publicado em: 02/10/2026 às 17:00hs
A capacidade de Brasil, Argentina e demais países do Mercosul coordenarem suas estratégias será decisiva para preservar a competitividade do agronegócio no mercado internacional. Essa foi uma das principais avaliações do painel “Mercosul no Cenário Global: Estratégias para Manter a Competitividade e a Produtividade”, realizado na quinta-feira (1º), durante o GAFFFF, em São Paulo.
O debate destacou que os desafios do setor ultrapassam a produtividade dentro das propriedades. Preços pressionados, custos elevados, riscos climáticos e dificuldades de financiamento aumentam a necessidade de cooperação entre os países para negociar o acesso a mercados e reduzir vulnerabilidades.
Moderado por Glauber Silveira, diretor executivo da Abramilho, o painel reuniu Bernhard Kiep, diretor da entidade e membro do conselho da Maizall; Federico Zerboni, presidente da Maizar; e Maciel Silva, diretor técnico adjunto da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Queda da receita agropecuária amplia pressão sobre produtores
As discussões ocorreram em um cenário de redução das receitas projetadas para o agro brasileiro. Segundo dados da CNA apresentados no debate, o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária deve cair 4% em 2026, para R$ 1,45 trilhão.
Para o milho, a retração estimada é de 6,1%, influenciada principalmente pela desvalorização dos preços reais.
Na avaliação de Bernhard Kiep, a produção acima da capacidade de absorção da demanda nos últimos anos contribuiu para a formação de estoques e para a pressão sobre as cotações. Esse quadro, associado aos custos de produção, reduz o incentivo econômico à atividade.
O executivo também apontou que o ambiente macroeconômico internacional se tornou mais complexo, exigindo maior articulação dos países produtores.
Integração do Mercosul deve evitar disputas internas
Para Kiep, um dos principais obstáculos à competitividade regional é a dificuldade de construir posições comuns. Ele defendeu que os países do Mercosul evitem conflitos entre si e fortaleçam sua atuação diante de mercados com maior capacidade de coordenação.
“Nós, argentinos, uruguaios, brasileiros, temos que tomar cuidado em não brigar entre nós, e sim nos unir”, afirmou.
O representante da Abramilho avaliou que a experiência europeia demonstra a importância de mecanismos de cooperação desenvolvidos ao longo do tempo. Na sua visão, o Mercosul precisa acelerar esse processo para responder às exigências do comércio internacional.
A relação comercial com a União Europeia foi citada no debate como um contexto que reforça a necessidade de alinhamento regional, especialmente diante das condições de acesso e dos padrões sanitários e fitossanitários do mercado europeu.
Agricultura argentina busca eficiência diante do peso tributário
Federico Zerboni destacou a influência dos impostos de exportação e dos custos sobre a rentabilidade da agricultura argentina.
Segundo sua estimativa, o governo fica com mais de 60% do rendimento da atividade no caso da soja, considerando a carga tributária incidente. A avaliação foi apresentada como exemplo das dificuldades enfrentadas pelos produtores para manter a viabilidade econômica.
Zerboni também identificou perspectivas positivas para a economia do país, associadas à expansão da produção de energia em Vaca Muerta e da mineração. Essas atividades, segundo ele, podem ampliar a entrada de dólares na Argentina.
No campo, porém, o dirigente ressaltou que tecnologia, inovação e eficiência continuam fundamentais para a sobrevivência das propriedades em um ambiente de margens pressionadas.
Clima e cigarrinha-do-milho acrescentam riscos à produção
Além das questões econômicas, o presidente da Maizar chamou atenção para os desafios climáticos e fitossanitários da próxima temporada.
Entre os pontos mencionados estão a distribuição das chuvas, os efeitos do El Niño e a presença da cigarrinha-do-milho. Zerboni relacionou o aumento da importância da praga nos últimos anos à elevação das temperaturas.
Esses fatores adicionam incerteza ao planejamento agrícola e reforçam, na avaliação apresentada no painel, a necessidade de eficiência no manejo e de incorporação de tecnologia.
Crédito e medidas estruturais têm prazos diferentes
Maciel Silva, da CNA, destacou o descompasso entre as necessidades imediatas dos produtores brasileiros e o tempo necessário para que soluções estruturais produzam resultados.
Segundo ele, iniciativas relacionadas a fertilizantes e produtos biológicos integram uma agenda relevante para o futuro, mas não eliminam a pressão sobre os custos e a renda da safra atual.
O representante da CNA também citou o Profet como alternativa de crédito que, na avaliação da entidade, ainda apresenta limitações para gerar efeitos imediatos. A incerteza econômica e institucional, acrescentou, dificulta as decisões de investimento.
As avaliações apresentadas no painel indicam que a competitividade do agro depende de avanços em duas frentes: eficiência nas propriedades e coordenação entre os países para enfrentar problemas de financiamento, custos e acesso a mercados.
GAFFFF reunirá conclusões em documento pós-evento
Organizado pela DATAGRO, o GAFFFF combina debates, negócios, gastronomia e entretenimento para aproximar o agronegócio da população urbana.
A programação da edição de 2026 prevê cerca de 330 palestrantes de mais de 20 países, além de 230 empresas apoiadoras e expositoras. O evento também reúne esportes equestres, rodeio, restaurantes e produtores artesanais na Arena Fogo, além de apresentações musicais.
Uma das novidades é a elaboração do Consenso do Agronegócio, documento que reunirá as principais conclusões dos debates após o evento.
Fonte: Portal do Agronegócio
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