Insumos agrícolas: Rabobank prevê retomada gradual em 2027, mas crédito e dívidas limitam compras
Relatório apresentado no AgroInfo 2026 projeta entregas de fertilizantes de 46,6 milhões de toneladas e mercado de defensivos de US$ 20,9 bilhões; disponibilidade de nitrogenados exige atenção para a safrinha
Publicado em: 06/11/2026 às 10:40hs
O mercado brasileiro de insumos agrícolas deve apresentar recuperação gradual em 2027, após um ano de custos elevados, compras cautelosas e pressão financeira sobre os produtores. Segundo o Rabobank, a retomada dependerá principalmente da capacidade de pagamento no campo, ainda comprometida por juros altos, endividamento e margens apertadas.
No relatório apresentado no AgroInfo 2026, o banco projeta entregas de fertilizantes de 46,6 milhões de toneladas em 2027, ante 44,4 milhões estimadas para 2026. O mercado de defensivos deverá alcançar US$ 20,9 bilhões, enquanto os produtos biológicos poderão superar R$ 7 bilhões.
Apesar da perspectiva de crescimento, a instituição avalia que o setor continuará operando em um ambiente desafiador. A estabilização das margens agrícolas tende a favorecer os fornecedores, mas a recuperação financeira dos produtores será determinante para o ritmo das compras.
Fertilizantes devem recuperar parte da demanda em 2027
O Rabobank estima que as entregas de fertilizantes encerrem 2026 em 44,4 milhões de toneladas, com retração projetada de 9,6% em relação ao ano anterior.
A previsão foi reduzida ao longo do período, diante do agravamento dos conflitos internacionais e das dificuldades financeiras dos agricultores. Para 2027, a expectativa é de recuperação para 46,6 milhões de toneladas, ainda em um cenário de cautela.
Nas importações, o banco trabalha com 43,5 milhões de toneladas em 2026, volume 4,3% inferior ao de 2025.
A combinação de crédito restrito, custos elevados e maior comprometimento da renda com dívidas tem levado os produtores a controlar desembolsos e adotar decisões de compra mais seletivas.
Atraso na entrada de nitrogenados preocupa para o milho safrinha
Um dos principais alertas do relatório é a disponibilidade de fertilizantes nitrogenados.
Segundo o Rabobank, ao converter as importações de ureia e sulfato de amônio em volume de nitrogênio, os dados até setembro indicavam atraso de 25% em relação a 2025.
Na avaliação da instituição, dificilmente essa diferença será compensada até o encerramento de 2026. O cenário representa um risco para o abastecimento do milho safrinha e de outras culturas que demandam esses nutrientes a partir de janeiro.
O alerta ocorre mesmo após uma melhora gradual do poder de compra no segundo semestre, indicando que preços e disponibilidade precisam ser considerados conjuntamente no planejamento.
Conflitos internacionais aumentam volatilidade dos adubos
O relatório associa parte da pressão sobre os fertilizantes às restrições logísticas e produtivas decorrentes dos conflitos no Oriente Médio.
Interrupções no Estreito de Ormuz e em rotas alternativas do Mar Vermelho afetaram o fluxo de ureia, gás natural, enxofre e outros insumos utilizados pela indústria.
Conforme a análise, as cotações da ureia chegaram a US$ 815 por tonelada, antes de recuarem com a redução da demanda, menores compras indianas, oferta chinesa e expectativas de normalização da navegação.
Nos fosfatados, o encarecimento de enxofre e amônia agravou um mercado já restrito. O MAP atingiu níveis próximos de US$ 900 por tonelada na modalidade CFR Brasil, estimulando substituições parciais por superfosfato simples e superfosfato triplo.
O cloreto de potássio foi menos afetado diretamente, mas enfrentou fretes mais caros. Posteriormente, a ampla disponibilidade e a demanda enfraquecida exerceram pressão de baixa.
Juros e endividamento dificultam recuperação das margens
Para o Rabobank, a situação financeira dos produtores é o principal obstáculo à retomada do mercado de insumos.
Os juros elevados encarecem o custeio e o serviço da dívida, enquanto a inadimplência aumenta os riscos e os custos das operações de crédito.
Na análise das margens dos grãos, o banco identifica sinais de estabilização desde a safra 2025/26, com continuidade esperada no ciclo atual. Uma melhora mais clara na média móvel de cinco anos poderá aparecer ao final de 2027/28, sinalizando uma possível mudança de ciclo.
O relatório também aponta aumento dos custos de produção em 2026. A pressão tende a ser mais intensa para soja, milho e algodão, principalmente pelo peso dos fertilizantes. Cana-de-açúcar, café e citros apresentam perspectiva de elevações mais moderadas.
Mercado de defensivos pode atingir US$ 20,9 bilhões
O setor de defensivos químicos também enfrenta efeitos da menor disponibilidade de caixa no campo e da concorrência crescente.
Parte das empresas ainda absorve os impactos da crise de estoques de 2024 e da redução posterior das receitas. Ao mesmo tempo, a oferta de produtos pós-patente por companhias chinesas amplia as alternativas para agricultores interessados em reduzir custos.
O Rabobank estima que o mercado alcance US$ 20,4 bilhões em 2026, alta de 1% sobre 2025. Para 2027, a projeção é de US$ 20,9 bilhões.
A expansão deverá ocorrer de forma moderada e continuará condicionada à demanda e à capacidade financeira dos compradores.
Biológicos devem superar R$ 7 bilhões em 2027
No segmento de biológicos, as empresas também precisam equilibrar competitividade, caixa e manutenção da participação conquistada nos últimos anos.
Dados da CropLife Brasil citados no relatório mostram crescimento de 4,2% no valor das vendas no primeiro semestre de 2026. O banco ressalta, porém, que 73% da comercialização desses produtos se concentra na segunda metade do ano.
A projeção é de um mercado próximo de R$ 6,7 bilhões em 2026, com possibilidade de superar R$ 7 bilhões em 2027.
O avanço dependerá da continuidade da demanda, em um ambiente de margens agrícolas ainda pressionadas.
Sementes se recuperam, enquanto máquinas seguem com vendas limitadas
O Rabobank identifica trajetórias distintas nos demais segmentos de insumos e investimentos agrícolas.
Após um 2025 desafiador, o mercado de sementes apresenta recuperação, com expectativa de continuidade da melhora em 2027.
Já as máquinas agrícolas permanecem mais expostas às restrições financeiras dos produtores. Segundo a instituição, as vendas seguem comprimidas e tendem a continuar limitadas no próximo ano.
O cenário aponta para uma retomada desigual entre os segmentos: a demanda por insumos deve melhorar gradualmente, enquanto investimentos de maior valor continuarão dependentes da reorganização financeira das propriedades.
Fonte: Portal do Agronegócio
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