Brasil ameaça liderança agrícola dos EUA e pode assumir posto de maior exportador do mundo
Expansão das exportações brasileiras, avanço da soja e das carnes e mudanças no comércio com a China reduzem vantagem histórica dos Estados Unidos no agronegócio global
Publicado em: 21/07/2026 às 19:40hs
O Brasil está cada vez mais próximo de assumir a liderança mundial nas exportações agrícolas, ultrapassando os Estados Unidos, que mantêm há décadas o posto de maior exportador do setor. Uma análise publicada pelo Financial Times aponta que a diferença entre os dois países diminuiu significativamente nos últimos anos, impulsionada pelo crescimento do agronegócio brasileiro e pelas mudanças no comércio internacional.
Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e do Ministério da Agricultura brasileiro indicam que os Estados Unidos exportaram cerca de US$ 171 bilhões em produtos agrícolas no último ano, apenas US$ 2 bilhões acima do Brasil. A diferença, que chegou a US$ 56 bilhões em 2021, praticamente desapareceu em poucos anos.
O avanço brasileiro tem como base o crescimento das vendas externas de soja, carnes, algodão, café, açúcar e outros produtos agrícolas, além da ampliação da participação do país nos principais mercados consumidores globais.
Brasil registra recorde nas exportações do agronegócio
Segundo o levantamento citado pelo jornal britânico, as exportações brasileiras do agronegócio cresceram 6% no primeiro semestre de 2026, alcançando um recorde de US$ 87 bilhões.
O desempenho foi sustentado pela posição do Brasil como maior produtor e exportador mundial de soja, além da liderança nas exportações de carne bovina e carne de frango.
Outro destaque é o algodão. Tradicionalmente dominado pelos Estados Unidos no mercado internacional, o produto brasileiro ganhou competitividade e passou a ocupar uma posição de destaque entre os maiores exportadores globais.
A expansão reflete investimentos em tecnologia, genética, manejo de solo e aumento da produtividade em regiões agrícolas que passaram por forte transformação nas últimas décadas.
China muda cenário da soja e favorece Brasil
Um dos principais fatores apontados pelo Financial Times para a aproximação brasileira da liderança mundial está relacionado às mudanças nas relações comerciais entre Estados Unidos e China.
Após a imposição de tarifas pelo governo de Donald Trump contra produtos chineses em 2018, Pequim reduziu as compras de produtos agrícolas norte-americanos, especialmente soja, abrindo espaço para o crescimento das exportações brasileiras.
Dados do UN Comtrade mostram que, em 2016, Brasil e Estados Unidos tinham participação semelhante no fornecimento de soja para a China. Porém, após o conflito comercial entre Washington e Pequim, a vantagem brasileira aumentou rapidamente.
Em 2025, o Brasil exportou mais de 80 milhões de toneladas de soja para a China, enquanto os Estados Unidos ficaram muito abaixo desse volume.
A China é considerada o maior comprador mundial de soja, e a mudança no fluxo comercial alterou o equilíbrio do mercado internacional da oleaginosa.
Agronegócio americano enfrenta pressão sobre margens
Apesar de continuar sendo uma potência agrícola global, o setor rural dos Estados Unidos enfrenta dificuldades com preços baixos das commodities, custos elevados e incertezas comerciais.
O Financial Times destaca que produtores norte-americanos continuam obtendo grandes volumes de produção, mas enfrentam redução das margens financeiras.
Estimativas da American Farm Bureau Federation, principal entidade representativa dos produtores rurais dos EUA, indicam projeções de perdas para algumas culturas no próximo ciclo:
- Soja: prejuízo estimado de US$ 138 por acre;
- Milho: perda estimada de US$ 167 por acre;
- Trigo: prejuízo de US$ 145 por acre;
- Algodão: perda estimada de US$ 406 por acre.
O cenário aumenta a pressão sobre agricultores americanos, especialmente em regiões tradicionais de produção, como o Meio-Oeste.
Mato Grosso simboliza força do agro brasileiro
A reportagem também destaca o papel estratégico de Mato Grosso na transformação do agronegócio brasileiro.
O estado, maior produtor nacional de soja e milho, representa um modelo baseado em expansão territorial, tecnologia agrícola e aumento da produtividade.
O Financial Times lembra que o Brasil, até a década de 1970, dependia de importações para abastecer parte de sua população. A mudança ocorreu com o desenvolvimento de tecnologias capazes de adaptar culturas a diferentes regiões, incluindo áreas antes consideradas pouco produtivas.
O avanço da correção de solos, pesquisas genéticas e técnicas modernas de manejo permitiu que regiões de fronteira agrícola se tornassem grandes polos produtores.
Segundo especialistas citados pela publicação, o modelo brasileiro de produção possibilita, em muitas regiões, duas ou até três safras anuais, ajudando a diluir custos fixos e aumentar a eficiência das propriedades.
Desafios ainda preocupam produtores brasileiros
Mesmo com o avanço das exportações, o Brasil também enfrenta desafios para consolidar uma possível liderança mundial no comércio agrícola.
Entre os principais pontos de atenção estão as altas taxas de juros internas, a queda nos preços internacionais das commodities e o aumento dos custos de produção.
O setor também monitora os impactos da alta dos fertilizantes, já que grande parte dos insumos utilizados pela agricultura brasileira depende de importações.
Além disso, questões relacionadas à infraestrutura logística, sustentabilidade e abertura de novos mercados continuam sendo fatores decisivos para manter o ritmo de crescimento do agronegócio brasileiro.
Brasil se aproxima da liderança global do agronegócio
O movimento de aproximação entre Brasil e Estados Unidos reforça uma mudança estrutural no comércio agrícola mundial.
Com forte presença nos mercados de soja, carnes, café, açúcar, algodão e biocombustíveis, o Brasil amplia sua participação global e consolida sua posição como um dos principais fornecedores de alimentos do planeta.
A disputa pela liderança das exportações agrícolas deve continuar nos próximos anos, marcada pela capacidade de cada país em combinar produtividade, competitividade, tecnologia e acesso aos grandes mercados consumidores.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias