Biometano cresce no Brasil, mas capacidade instalada ainda opera abaixo do potencial e desafia expansão do mercado
Produção nacional aumenta em 2026, impulsionada por novos projetos e demanda por energia renovável, mas gargalos regulatórios, infraestrutura limitada e diferenças regionais mantêm parte da capacidade ociosa.
Publicado em: 10/08/2026 às 10:20hs
O mercado brasileiro de biometano segue em trajetória de crescimento, mas ainda enfrenta desafios para transformar o potencial instalado em oferta efetivamente comercializada. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram avanço da produção em 2026, porém com utilização abaixo da capacidade disponível em diversas unidades produtoras.
De acordo com levantamentos baseados nos dados públicos de biometano da ANP de junho de 2026 e no boletim mensal de gás natural da agência, a produção nacional alcançou 78,6 milhões de metros cúbicos no primeiro semestre do ano.
O volume diário também apresentou evolução significativa, passando de 380,7 mil metros cúbicos por dia em janeiro para 530,8 mil metros cúbicos por dia em junho, demonstrando expansão gradual da oferta renovável.
Produção de biometano ainda representa pequena parcela do mercado de gás
Apesar do crescimento, a participação do biometano no mercado brasileiro continua limitada.
Considerando o gás natural efetivamente disponibilizado aos consumidores, a produção de biometano registrada em junho representa aproximadamente 0,8% do volume comercializado, enquanto toda a capacidade autorizada corresponde a cerca de 2% do mercado.
O percentual é inferior quando comparado à produção bruta de gás natural, já que esse cálculo inclui volumes reinjetados, consumidos internamente pelas operações ou destinados à queima.
O cenário indica que o setor possui capacidade de expansão, mas ainda precisa superar obstáculos para converter investimentos realizados em maior disponibilidade comercial.
Oferta de biometano permanece concentrada no Sudeste
A produção brasileira segue concentrada em poucas regiões, principalmente onde há maior disponibilidade de matéria-prima, infraestrutura e mercado consumidor.
Os estados do Rio de Janeiro e São Paulo responderam juntos por aproximadamente 56% da produção nacional em 2026, reforçando a concentração regional do setor.
Entre os principais projetos, a unidade de aterro sanitário localizada em Seropédica (RJ) apresentou um dos melhores índices de aproveitamento, utilizando cerca de 80% da capacidade de produção de biogás em junho.
Já os projetos associados ao setor sucroenergético registraram desempenho inferior em alguns períodos. A sazonalidade da produção de vinhaça, diretamente relacionada ao calendário de moagem da cana-de-açúcar, explica parte da variação, mas especialistas apontam que os resultados ainda estão abaixo do potencial mesmo durante o período de safra.
Regulamentação e infraestrutura são desafios para expansão
Um dos principais pontos de atenção para o setor está relacionado à implementação das políticas de descarbonização do gás natural.
A meta estabelecida para 2026 ficou em 0,5%, abaixo da proposta inicial de 1%, enquanto os processos relacionados à emissão dos certificados de descarbonização ainda dependiam de definições regulatórias.
Além disso, a infraestrutura de transporte e distribuição continua sendo um limitador para novos investimentos.
Muitas unidades produtoras estão localizadas longe dos grandes centros industriais e consumidores, tornando o escoamento do biometano mais complexo e reduzindo a competitividade de alguns projetos.
Uso interno do biometano ganha espaço no agronegócio
Diante das dificuldades para ampliar a comercialização no mercado aberto, cresce o interesse por projetos de autoconsumo energético, principalmente dentro das próprias propriedades rurais e agroindústrias.
A substituição do diesel por biometano em operações agrícolas e industriais aparece como uma alternativa de maior previsibilidade econômica, reduzindo custos operacionais e aumentando a eficiência energética.
Experiências no setor indicam que o uso interno do combustível renovável pode proporcionar redução de até 30% nos custos com combustível, criando retorno financeiro sem depender exclusivamente da expansão do mercado de certificados ambientais.
Biometano é estratégico para a transição energética brasileira
Com grande disponibilidade de resíduos agroindustriais, aterros sanitários e efluentes da produção animal, o Brasil possui um dos maiores potenciais globais para geração de biometano.
Setores como cana-de-açúcar, pecuária, suinocultura, avicultura e saneamento são considerados estratégicos para ampliar a oferta do combustível renovável.
A expectativa do mercado é que, com avanços regulatórios, melhorias na infraestrutura e maior integração entre produtores e consumidores, o biometano ganhe participação na matriz energética nacional e se consolide como uma alternativa competitiva ao gás natural fóssil e ao diesel.
Perspectivas para o setor
Mesmo com os desafios atuais, o avanço da produção demonstra que o mercado brasileiro de biometano entrou em uma nova fase de desenvolvimento.
A combinação entre demanda por energia limpa, metas de redução de emissões e busca por maior eficiência no agronegócio deve continuar estimulando investimentos, especialmente em projetos integrados ao setor produtivo.
O próximo passo para o segmento será transformar a capacidade já instalada em maior oferta efetiva, ampliando a conexão entre produtores de biogás, consumidores industriais e o mercado de energia renovável.
Fonte: Portal do Agronegócio
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