Acordo Mercosul-União Europeia abre novas oportunidades para agronegócio e indústria do Paraná
Estado já mantém forte relação comercial com o bloco europeu, mas avanço das exportações dependerá de rastreabilidade, certificações, adequação regulatória e investimentos em infraestrutura logística
Publicado em: 18/09/2026 às 12:30hs
O Acordo Mercosul-União Europeia pode ampliar a presença do Paraná em um dos mercados consumidores mais relevantes do mundo. Após mais de duas décadas de negociações, a vigência provisória do tratado iniciou uma nova etapa nas relações comerciais entre os dois blocos, estimulando empresas paranaenses a revisar estratégias, buscar certificações e preparar produtos para atender às exigências europeias.
Segundo Lourdes Manzanares, diretora da Câmara de Indústria e Comércio Brasil-Alemanha do Paraná e diretora-geral da Interprint do Brasil, os primeiros meses do acordo ainda não provocaram uma transformação expressiva nos indicadores estaduais. O principal efeito, até agora, tem sido estratégico.
Empresas de diferentes setores estão procurando informações sobre tarifas, regras de origem, rastreabilidade e requisitos sanitários para disputar espaço em um mercado formado por mais de 700 milhões de consumidores.
Paraná exportou US$ 2,46 bilhões para a União Europeia
O Paraná inicia essa nova fase apoiado em uma relação comercial já consolidada. Em 2025, as exportações paranaenses destinadas à União Europeia alcançaram US$ 2,46 bilhões, montante equivalente a 10,4% de tudo o que o estado vendeu ao exterior naquele ano.
O valor demonstra que o acordo não inaugura as relações entre o Paraná e o bloco europeu. Na prática, o tratado cria condições para ampliar negócios existentes, diversificar a pauta exportadora e fortalecer a competitividade de setores que já possuem experiência no comércio internacional.
O agronegócio e a agroindústria aparecem entre os segmentos com maior potencial de aproveitar a redução gradual de tarifas e a maior previsibilidade comercial. Além de representarem parcela relevante da economia estadual, essas atividades mantêm presença expressiva na pauta de exportações do Paraná para a Europa.
Farelo de soja, madeira e frango lideram embarques paranaenses
O farelo de soja foi o principal produto exportado pelo Paraná à União Europeia em 2025, com vendas de US$ 950 milhões. Na sequência apareceram a madeira compensada, com US$ 203 milhões, e a carne de frango in natura, que movimentou US$ 187 milhões.
A pauta também inclui açúcares, melaços e outros produtos agroindustriais. A competitividade dessas cadeias coloca o estado em posição favorável, especialmente diante da demanda europeia por alimentos, matérias-primas e produtos com comprovação de origem.
Apesar do peso das commodities, as exportações paranaenses não se limitam ao setor primário. Máquinas de terraplanagem, componentes para motores de veículos e produtos químicos também estão entre os bens de maior valor agregado comercializados com países europeus.
Esses segmentos industriais podem ganhar espaço à medida que as barreiras tarifárias forem reduzidas, desde que as empresas atendam às regras técnicas e comerciais estabelecidas pelo acordo.
Empresas ampliam busca por certificações e rastreabilidade
A expectativa de acesso mais competitivo ao mercado europeu começa a estimular investimentos em expansão produtiva, modernização e qualificação dos processos de exportação. Os movimentos são mais evidentes nos segmentos de proteína animal, café, óleos vegetais, alimentos processados, máquinas e componentes industriais.
Também cresce a procura por certificações fitossanitárias, ambientais e de rastreabilidade compatíveis com as normas da União Europeia. Essa adequação deve atingir não apenas a agroindústria e o setor de alimentos, mas também cadeias como madeira, moda, design e produtos com indicação geográfica ou de origem.
Para as empresas, a redução das tarifas representa apenas uma parte do processo. A entrada efetiva no mercado europeu depende da capacidade de comprovar procedência, sustentabilidade e conformidade sanitária ao longo de toda a cadeia produtiva.
Pequenas e médias empresas enfrentam maior desafio de adaptação
As companhias que já exportam produtos de maior valor agregado para diferentes países europeus partem em vantagem. Essas organizações normalmente possuem experiência com documentação internacional, certificações, auditorias e padrões técnicos exigidos pelos compradores.
A situação é diferente nos elos mais primários das cadeias produtivas e entre pequenas e médias empresas. Para esses agentes, a adaptação pode exigir investimentos em sistemas de controle, capacitação de equipes, rastreamento de lotes e adequação dos processos produtivos.
A procura crescente por orientação técnica mostra que parte do setor produtivo já reconhece a necessidade de preparação. O desafio será ampliar esse acesso e evitar que os custos de conformidade excluam produtores e empresas com menor capacidade financeira.
Logística ainda limita competitividade do Paraná
Além das exigências comerciais e ambientais, o Paraná enfrenta obstáculos estruturais capazes de reduzir os ganhos proporcionados pelo acordo. Entre os principais gargalos estão as condições das rodovias, a necessidade de ampliar a capacidade do Porto de Paranaguá e os entraves relacionados à expansão da Ferroeste.
A elevada dependência do transporte rodoviário aumenta o custo de movimentação das mercadorias dentro do país. Em algumas operações, o frete marítimo até a Europa pode custar menos do que o deslocamento de caminhão entre estados brasileiros.
Sem avanços na infraestrutura, parte da vantagem obtida com a redução tarifária pode ser consumida pelas despesas logísticas. Por isso, a modernização dos corredores de exportação será decisiva para transformar o potencial comercial em aumento efetivo das vendas.
EUDR aumenta exigências para soja, carne e madeira
No campo regulatório, uma das principais preocupações é o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento, conhecido como EUDR. A norma amplia as obrigações de rastreabilidade para mercadorias como soja, madeira e carne destinadas ao mercado europeu.
Grandes e médias empresas deverão comprovar a origem dos produtos, com informações detalhadas sobre propriedades, áreas de produção e lotes comercializados. O processo envolve custos tecnológicos, operacionais e documentais, mas será indispensável para preservar o acesso ao bloco.
As exigências tendem a produzir efeitos em toda a cadeia. Mesmo produtores que não realizam exportações diretamente poderão ser cobrados por frigoríficos, cooperativas, tradings, indústrias e demais compradores que abastecem o mercado europeu.
Paralelamente, a transição prevista na reforma tributária brasileira deverá exigir que empresas convivam, durante determinado período, com regras antigas e novas de tributação. Essa sobreposição pode elevar os custos administrativos justamente no momento em que exportadores precisam investir em competitividade e adequação regulatória.
Redução de tarifas não garante aumento imediato das vendas
O Acordo Mercosul-União Europeia representa uma oportunidade concreta para o Paraná, mas seus benefícios não serão automáticos. A redução tarifária melhora as condições de acesso, porém não substitui investimentos em qualidade, produtividade, rastreabilidade, certificações e logística.
As empresas de maior porte e com atuação internacional já começaram a se preparar. O próximo passo será estender esse processo às pequenas e médias organizações, responsáveis por uma parcela importante da produção agropecuária e industrial do estado.
Para converter a abertura comercial em novos contratos, o Paraná precisará combinar atuação do poder público, organização do setor produtivo e apoio técnico às empresas. A velocidade dessa adaptação determinará quanto o estado poderá avançar no mercado europeu antes que concorrentes internacionais ocupem os espaços disponíveis.
Fonte: Portal do Agronegócio
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