Setor madeireiro perde US$ 224 milhões em exportações e enfrenta pressão de tarifas e custos
Levantamento de oito grupos de produtos aponta recuo nas vendas externas entre janeiro e setembro de 2026; especialistas defendem negociação com os Estados Unidos, eficiência logística e planejamento florestal.
Publicado em: 22/10/2026 às 17:00hs
O setor madeireiro brasileiro enfrenta dificuldades para recuperar exportações e preservar margens, em um cenário marcado por barreiras comerciais, custos operacionais elevados e gargalos logísticos. Às vésperas do segundo turno presidencial, especialistas avaliam que a retomada da competitividade depende de medidas que vão além do calendário eleitoral.
Segundo levantamento apresentado pela WoodFlow, com informações da STCP, o valor exportado pelos oito grupos de produtos acompanhados caiu mais de US$ 224 milhões entre janeiro e setembro de 2026, na comparação com igual período de 2025.
Em volume, os embarques de molduras de pinus recuaram 46%, enquanto as exportações de portas de madeira diminuíram 18%. Os resultados mostram a dificuldade de compensar a redução dos negócios com compradores americanos por meio da abertura de outros destinos.
Preço da madeira brasileira dificulta conquista de mercados
Para Gustavo Milazzo, CEO da WoodFlow, a diversificação comercial encontra um obstáculo importante no custo do produto brasileiro.
Segundo o executivo, as tentativas de ampliar vendas para outros países evidenciam que a competitividade precisa ser trabalhada ao longo da cadeia. A busca por novos clientes, isoladamente, não resolve a diferença entre os preços nacionais e as condições oferecidas por concorrentes internacionais.
Nesse contexto, a negociação das tarifas com os Estados Unidos e a redução dos custos internos aparecem como frentes complementares para a recuperação da indústria.
Negociações com os Estados Unidos exigem avanços concretos
Mário Wanzuita, diretor da Holtz Engenharia e Negócios, e Mauro Murara Jr., diretor executivo da Associação Catarinense de Empresas Florestais (ACR), avaliam que uma eventual aproximação política entre os governos brasileiro e americano poderia favorecer o diálogo comercial.
Essa possibilidade, porém, é apresentada como uma expectativa, condicionada a resultados efetivos nas negociações sobre as barreiras às exportações.
Wanzuita também recomenda cautela com a perspectiva de recuperação imediata após as eleições. Na avaliação dele, os problemas estruturais brasileiros exigem reformas, participação do Congresso e investimentos com efeitos de médio e longo prazo.
O câmbio acrescenta outra variável. Uma eventual entrada maior de capital estrangeiro poderia valorizar o real e reduzir a receita em moeda nacional dos exportadores, mesmo em um ambiente de melhora das relações comerciais.
Custo de colheita e carregamento florestal sobe cerca de 83%
A evolução das despesas dentro do país ajuda a explicar a pressão sobre as margens.
Em uma amostra acompanhada pela Holtz, o custo médio de colheita e carregamento florestal passou de R$ 41 para R$ 75 por metro cúbico em dez anos, aumento de aproximadamente 83%.
O cálculo inclui despesas operacionais e depreciação de máquinas e equipamentos. Os valores variam conforme as condições de trabalho, especialmente as características do terreno, e não representam uma referência uniforme para todas as operações brasileiras.
Ainda assim, a comparação evidencia o desafio de controlar custos sem comprometer a capacidade produtiva.
Gargalos nos portos podem consumir margem dos embarques
A logística também pesa sobre a competitividade da madeira brasileira. Segundo Murara, atrasos em inspeções e procedimentos de liberação podem levar à perda de janelas de embarque e gerar despesas adicionais.
Nas situações relatadas pelo dirigente, uma movimentação de contêiner pode custar entre R$ 1 mil e R$ 1,2 mil, valor capaz de absorver a margem de determinadas operações.
Entre as alternativas, ele defende ampliar o debate sobre inspeções na origem, antes da chegada das cargas aos terminais. A proposta busca reduzir entraves na etapa portuária e melhorar a previsibilidade dos embarques.
Menor demanda por toras não elimina risco de abastecimento futuro
A retração da atividade industrial também afeta o mercado de matéria-prima. Wanzuita observa que a redução da procura por toras de pinus de maiores diâmetros pode criar uma percepção de oferta abundante.
Para o especialista, essa leitura precisa considerar as dificuldades atuais das empresas e as necessidades de abastecimento dos próximos anos.
A produção de pinus pode exigir ciclos de 15 anos ou mais, dependendo do manejo e da finalidade da madeira. Por isso, decisões de plantio e investimento não devem se apoiar apenas na demanda de curto prazo.
O desafio é garantir remuneração ao produtor florestal e, ao mesmo tempo, manter um custo de matéria-prima compatível com a competitividade da indústria.
Produtividade e gestão financeira ganham importância
Os especialistas apontam o aumento da produtividade como um caminho para equilibrar os interesses de produtores e processadores.
Melhorias na nutrição florestal, no manejo e nas práticas de cultivo podem ampliar a produção nas áreas existentes, sobretudo em regiões onde o preço da terra dificulta a expansão dos plantios.
Para as indústrias, Murara recomenda atenção ao fluxo de caixa e diálogo próximo com clientes para avaliar preços, prazos e contratos. Aos produtores florestais, destaca a importância do manejo, do monitoramento de pragas e da organização ambiental das propriedades.
As avaliações integram o episódio 31 do Podcast WoodFlow, “O Futuro do Setor Madeireiro: Eleições, Mercado e Competitividade”, com participação de Gustavo Milazzo, Mário Wanzuita e Mauro Murara Jr. O debate destaca que converter o potencial florestal brasileiro em novos negócios depende de avanços comerciais, operacionais e logísticos em toda a cadeia.
Fonte: Portal do Agronegócio
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