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Biometano transforma resíduos do agronegócio em combustível e abre mercado bilionário para países emergentes

Estudo aponta que Brasil, Índia e China concentram matérias-primas estratégicas para produzir gás renovável, reduzir o consumo de diesel, gerar biofertilizantes e ampliar a segurança energética


Publicado em: 09/09/2026 às 18:20hs

Biometano transforma resíduos do agronegócio em combustível e abre mercado bilionário para países emergentes

O biometano desponta como uma das principais oportunidades de transição energética para economias emergentes, especialmente em países com forte produção agropecuária, crescimento urbano acelerado e grande disponibilidade de resíduos orgânicos. Produzido a partir da purificação do biogás, o combustível renovável pode substituir o diesel e o gás natural fóssil, reduzir emissões e criar novas fontes de renda no campo.

A avaliação faz parte do estudo internacional “From Waste to Wheels – Turning Organic Waste into Renewable Fuel for Transport”, apoiado pelo Instituto Mobilidade de Baixo Carbono (MBCBrasil). O trabalho reúne pesquisas sobre produção, disponibilidade de matérias-primas, infraestrutura e utilização do biometano, principalmente no transporte pesado.

O estudo foi elaborado por Gláucia Mendes Souza, da Universidade de São Paulo (USP); Clayton Barcelos Zabeu, do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT); Heitor Cantarella, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC); e Luiz Augusto Horta Nogueira, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei).

Países emergentes concentram maior potencial de biometano

Embora os mercados mais desenvolvidos de biometano estejam concentrados na Europa e na América do Norte, a maior parcela do potencial ainda não explorado encontra-se nas economias emergentes.

Dados da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que cerca de 80% do potencial sustentável para a produção de biogases está localizado em países emergentes e em desenvolvimento, com destaque para Brasil, China e Índia. A disponibilidade está diretamente associada à relevância da agropecuária, ao tamanho da população e à geração crescente de resíduos.

Atualmente, o biogás é produzido em aproximadamente 40 países, enquanto seu uso como combustível veicular ocorre em cerca de 30 mercados. Entre os países com setores maduros estão Suécia, Alemanha, Itália, França, Holanda, Dinamarca, Finlândia, Suíça, Reino Unido e Noruega, além da Califórnia, nos Estados Unidos.

Brasil, Estados Unidos, China, Índia, Espanha, Irlanda, Áustria e Bélgica aparecem entre os mercados em expansão.

Potencial mundial equivale a um quarto da demanda por gás

O potencial sustentável de produção de biogás e biometano no mundo chega a quase 1 trilhão de metros cúbicos por ano. O volume corresponde a aproximadamente 25% da demanda mundial por gás natural.

Apesar dessa disponibilidade, menos de 5% das matérias-primas sustentáveis com potencial para produzir biogases são aproveitadas atualmente.

As maiores oportunidades estão concentradas na América Latina, na África Subsaariana e no Sul e Sudeste da Ásia. Essas regiões combinam grande produção agrícola, criação intensiva de animais, expansão das cidades e necessidade crescente de melhorar o tratamento de resíduos.

A produção de biometano também tende a aumentar à medida que as economias e as populações urbanas crescem. O avanço da agropecuária eleva a geração de palhadas, vinhaça, restos de processamento e dejetos animais, enquanto a urbanização amplia a disponibilidade de resíduos alimentares, esgoto e gás de aterros sanitários.

Resíduos agropecuários colocam Brasil em posição estratégica

O Brasil reúne condições especialmente favoráveis para liderar a produção de biometano entre as economias emergentes. O País possui elevada disponibilidade de dejetos da pecuária, resíduos agrícolas e subprodutos de agroindústrias, principalmente dos setores sucroenergético, de carnes, leite e grãos.

Brasil, Índia, China e Argentina apresentam grande potencial para aproveitar dejetos animais. Resíduos agrícolas também são abundantes no Brasil, Índia, Tailândia e Indonésia, enquanto a América Latina e o Sudeste Asiático concentram volumes expressivos de rejeitos agroindustriais.

No Brasil, podem ser utilizados como matérias-primas:

  • dejetos de bovinos, suínos e aves;
  • vinhaça e torta de filtro da produção de açúcar e etanol;
  • palhas, cascas e resíduos de colheita;
  • efluentes de frigoríficos e laticínios;
  • restos de alimentos;
  • lodo de estações de tratamento de esgoto;
  • gás captado em aterros sanitários.

O aproveitamento desses materiais permite transformar um passivo ambiental em energia, fertilizantes e receita adicional para produtores, cooperativas, agroindústrias e municípios.

Biometano pode substituir diesel no transporte pesado

Uma das aplicações mais promissoras do biometano está no transporte rodoviário de cargas. O combustível pode ser utilizado em caminhões e ônibus equipados com motores a gás, reduzindo a dependência do diesel e as emissões associadas à logística.

Quando produzido a partir da biodigestão de dejetos animais, o biometano pode apresentar emissões de gases de efeito estufa aproximadamente 45% menores do que as do diesel, considerando todo o ciclo de vida dos combustíveis.

No aproveitamento de restos de alimentos, a redução pode chegar a 75%. Esses percentuais incluem as etapas de produção, processamento, distribuição e utilização do combustível nos veículos.

O benefício pode ser ainda maior quando a biodigestão evita que o metano presente nos resíduos seja lançado diretamente na atmosfera. Nesses casos, o balanço de emissões pode se tornar negativo, pois a produção do combustível impede a liberação de um gás com elevado potencial de aquecimento global.

Além de diminuir as emissões de carbono, a combustão do biometano gera menos material particulado, óxidos de nitrogênio e outros poluentes atmosféricos em comparação com o diesel.

Biofertilizantes e créditos de carbono ampliam receita

A viabilidade econômica de um projeto de biometano não depende apenas da comercialização do gás. O processo de biodigestão pode gerar diferentes produtos e serviços ambientais, criando um modelo de negócio semelhante ao de uma biorrefinaria.

Entre as possíveis fontes complementares de receita estão:

  • prestação de serviços de tratamento de resíduos;
  • venda de biofertilizantes;
  • comercialização de gás carbônico renovável;
  • créditos de carbono;
  • certificados de garantia de origem;
  • geração de energia elétrica e térmica.

Segundo os estudos compilados pelos pesquisadores, essas receitas adicionais podem representar entre 20% e 60% do faturamento total de um empreendimento de biometano.

O biofertilizante resultante da biodigestão pode retornar às lavouras, ajudando na ciclagem de nutrientes e reduzindo parcialmente a necessidade de fertilizantes minerais. Com isso, o sistema conecta produção agropecuária, gestão de resíduos, energia renovável e recuperação de nutrientes.

Políticas públicas são decisivas para ampliar o mercado

A expansão do biometano exige um ambiente regulatório capaz de estimular investimentos de longo prazo. Entre as medidas adotadas internacionalmente estão metas obrigatórias de descarbonização, mandatos de uso de combustíveis renováveis, incentivos fiscais, financiamento de infraestrutura e certificação ambiental.

Desde 2020, mais de 50 novas políticas relacionadas ao biogás e ao biometano foram implementadas no mundo. O avanço reflete o reconhecimento do papel desses combustíveis na transição energética e na valorização de resíduos orgânicos.

Também são necessários investimentos em biodigestores, unidades de purificação, redes de distribuição, estações de abastecimento e equipamentos para compressão ou liquefação do gás.

Brasil, Índia e China já acumulam experiências de adaptação dessas tecnologias às condições de países em desenvolvimento. Esses mercados podem fornecer modelos para outras economias com características semelhantes.

Produção local reforça segurança energética

O biometano oferece uma vantagem estratégica diante da volatilidade internacional dos combustíveis fósseis. Como pode ser produzido próximo às fazendas, agroindústrias, aterros e centros urbanos, o gás renovável reduz a exposição a crises geopolíticas, oscilações cambiais e problemas nas cadeias globais de fornecimento.

O combustível também é compatível com parte da infraestrutura existente de gás natural, o que facilita sua distribuição e utilização em indústrias, veículos e sistemas de geração de energia.

Para o agronegócio brasileiro, a expansão do biometano pode reduzir custos logísticos, criar novos mercados para resíduos, gerar renda complementar e fortalecer a autonomia energética das propriedades rurais.

A oportunidade, portanto, vai além da substituição do diesel. O biometano permite integrar produção de alimentos, tratamento ambiental, mobilidade de baixo carbono e desenvolvimento rural em um modelo de economia circular com potencial para ganhar escala no Brasil e em outras economias emergentes.

Fonte: Portal do Agronegócio

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