Biometano pode revolucionar transporte pesado e transformar resíduos do agro em um negócio bilionário
Estudo internacional mostra que combustível renovável já é uma realidade em quase 30 mercados e aponta o Brasil como potência mundial em produção, tecnologia e exportação de soluções para descarbonizar caminhões e frotas pesadas.
Publicado em: 18/09/2026 às 10:00hs
O biometano está deixando de ser uma promessa da transição energética para se consolidar como uma alternativa comercial capaz de transformar o transporte pesado em uma das principais frentes de descarbonização da economia mundial.
Produzido a partir da biodigestão de resíduos como vinhaça, dejetos animais, lixo urbano e esgoto, o combustível renovável combina redução de emissões, segurança energética e aproveitamento econômico de materiais que antes eram considerados resíduos.
Um estudo internacional encomendado pelo Instituto MBCBrasil mostra que o Brasil está entre os países com maior potencial para aproveitar essa transformação. Mais do que ampliar a produção de biometano, o país pode se tornar um importante exportador de tecnologia, equipamentos, engenharia e soluções para a nova economia de baixo carbono.
Biometano já movimenta uma indústria global
O estudo “Biomethane for Transport Decarbonization” foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e Instituto Mauá de Tecnologia.
Entre os autores estão Gláucia Mendes Souza, da USP e líder da IEA Bioenergy Task 39; Luís Augusto H. Nogueira, da UNIFEI; Heitor Cantarella, do IAC; e Clayton Barcelos Zabeu, do Instituto Mauá de Tecnologia.
O levantamento reúne evidências científicas e econômicas de mercados das Américas, Europa, Ásia e África e aponta que o biometano já alcançou escala industrial.
Atualmente, o combustível é produzido em aproximadamente 40 países e utilizado no transporte em quase 30 mercados.
O potencial sustentável mundial de biogás e biometano chega a cerca de 1 trilhão de metros cúbicos por ano, equivalente a aproximadamente 25% de toda a demanda global por gás natural.
A dimensão desse mercado ajuda a explicar o interesse crescente de governos e empresas.
Na União Europeia, o plano REPowerEU estabeleceu uma meta de produção de 35 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano até 2030, com investimentos estimados em aproximadamente € 37 bilhões.
Nos Estados Unidos, existem cerca de 470 projetos de gás natural renovável (RNG). Na Índia, mais de 7,7 milhões de veículos movidos a gás já circulam pelas estradas.
O Brasil tem uma matéria-prima que o mundo quer transformar em energia
É justamente nesse ponto que surge uma das maiores oportunidades brasileiras.
A dimensão do agronegócio nacional gera enormes volumes de resíduos orgânicos que podem ser utilizados para a produção de biogás e biometano.
Somente o setor sucroenergético brasileiro apresenta potencial estimado de 41,4 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano.
O volume equivale a mais de 41 bilhões de litros de diesel.
O dado chama ainda mais atenção porque o aproveitamento atual representa menos de 2% desse potencial.
Na prática, existe uma enorme quantidade de matéria-prima disponível que ainda não é transformada em energia renovável.
A vinhaça e a torta de filtro produzidas pelas usinas de cana, por exemplo, podem deixar de ser vistas apenas como resíduos e passar a integrar uma cadeia de produção de combustível, biofertilizantes e créditos ambientais.
Brasil pode ganhar dinheiro não apenas vendendo biometano
A grande oportunidade identificada pelo estudo não está apenas na produção do combustível.
O Brasil também possui capacidade industrial e conhecimento acumulado para fornecer as tecnologias necessárias à expansão desse mercado.
Empresas brasileiras já desenvolveram soluções envolvendo biodigestores verticais de alta eficiência, sistemas de purificação de gás, monitoramento em tempo real, logística de transporte de biometano líquido (bio-LNG) e integração entre produção de energia e fertilizantes de baixo carbono.
Esse conhecimento pode ser exportado.
Países da América Latina, Ásia e África possuem grandes bases agrícolas e enormes volumes de resíduos, mas ainda enfrentam limitações de infraestrutura para transformar esse material em energia.
O Brasil pode ocupar esse espaço fornecendo equipamentos, máquinas, serviços de engenharia, tecnologia e projetos completos de produção de biometano.
Para a professora Gláucia Mendes Souza, uma das autoras do estudo, essa pode ser uma das grandes vantagens competitivas brasileiras.
A pesquisadora afirma que o combustível já apresenta maturidade e viabilidade em diferentes mercados e que o diferencial do Brasil está justamente na possibilidade de combinar produção de energia com exportação de tecnologia e soluções integradas.
Caminhões podem ser protagonistas da descarbonização
O transporte pesado é um dos segmentos com maior potencial de utilização do biometano.
Caminhões e outros veículos de longa distância dependem fortemente do diesel e apresentam elevado consumo energético. Por isso, qualquer substituição relevante do combustível fóssil pode produzir impacto significativo nas emissões do setor.
De acordo com o estudo, substituir diesel por biometano no transporte pesado pode reduzir as emissões de CO₂ equivalente entre 45% e 75%, considerando o ciclo poço-à-roda.
Em projetos baseados em dejetos animais e determinados resíduos orgânicos, o benefício ambiental pode ser ainda maior.
Isso acontece porque a produção de biometano também permite capturar o metano que seria liberado diretamente na atmosfera durante a decomposição dos resíduos.
Como o metano possui elevado potencial de aquecimento global no curto prazo, evitar essa emissão acrescenta um benefício climático importante ao projeto.
Alguns projetos podem ter emissões negativas
Um dos pontos mais impressionantes destacados pelo levantamento está relacionado aos chamados projetos net-negative.
Quando são considerados os créditos ambientais associados à eliminação das emissões fugitivas de metano, determinados projetos de biometano podem alcançar um balanço de até -246% de emissões em relação ao diesel.
Na prática, isso significa que determinados sistemas podem evitar uma quantidade de emissões maior do que aquela gerada ao longo do ciclo analisado.
Além da questão climática, há benefícios relacionados à qualidade do ar.
A substituição de combustíveis fósseis líquidos pelo biometano pode reduzir em até 10 vezes as emissões de material particulado e fuligem, segundo as referências reunidas no estudo.
Esse fator aumenta o potencial de utilização do combustível em ônibus urbanos, caminhões, frotas de coleta de resíduos e operações logísticas.
Biometano também pode custar menos que o diesel
A questão ambiental não é o único argumento favorável ao combustível.
O estudo aponta que o biometano também pode ser competitivo economicamente em determinadas operações de transporte pesado.
As simulações de Custo Total de Propriedade (TCO) consideram aquisição, manutenção e operação dos veículos durante sua vida útil.
Segundo estudos de frete no Brasil citados no levantamento, o custo por quilômetro rodado com biometano pode ficar entre 30% abaixo e 25% acima do diesel, dependendo das condições do projeto.
Em uma das simulações utilizadas como referência, o GNL apresentou custo de US$ 1,59 por quilômetro, o GNC/biometano ficou em US$ 1,73 por quilômetro, enquanto o diesel alcançou US$ 1,87 por quilômetro.
Isso significa que, em determinados cenários, o biometano já pode ser economicamente mais competitivo que o diesel.
A planta de biometano pode ganhar dinheiro de várias formas
Outro aspecto importante é que a receita de um projeto não precisa depender exclusivamente da venda do combustível.
Em mercados mais maduros, o estudo aponta que entre 20% e 60% da receita total de uma planta de biometano pode vir de atividades complementares.
Entre elas estão o tratamento de resíduos, a venda do digestato como biofertilizante e a comercialização de créditos de carbono.
O levantamento estima receitas de US$ 1 a US$ 6 por GJ com tratamento de resíduos, de US$ 0,5 a US$ 4 por GJ com a comercialização do digestato como biofertilizante e de US$ 1 a US$ 8 por GJ com créditos de carbono.
Esse modelo muda completamente a lógica econômica do empreendimento.
Uma planta de biometano deixa de ser apenas uma fábrica de combustível e passa a funcionar como uma biorrefinaria, capaz de gerar diferentes produtos e fontes de receita a partir da mesma matéria-prima.
Usinas brasileiras já mostram que a tecnologia funciona
O avanço do biometano no Brasil não depende apenas de projeções.
O país já possui projetos comerciais em funcionamento.
O estudo cita iniciativas desenvolvidas por empresas como Cocal, Raízen, São Martinho e Adecoagro, utilizando resíduos da produção de cana-de-açúcar.
Na safra 2024/25, o Brasil processou aproximadamente 680 milhões de toneladas de cana-de-açúcar.
Esse processamento gerou cerca de 380 bilhões de litros de vinhaça, demonstrando o tamanho da matéria-prima disponível para a produção de biogás e biometano.
Na Cocal, em Narandiba (SP), uma planta em operação desde 2020 produz aproximadamente 50 mil Nm³ de biometano por dia utilizando vinhaça e torta de filtro.
A unidade utiliza biodigestores verticais de alta eficiência, com monitoramento em tempo real de parâmetros como pH, temperatura e rendimento.
A empresa também mantém uma segunda planta em Paraguaçu Paulista (SP), cuja produção é estimada entre 30 mil e 40 mil Nm³ por dia.
Aterros sanitários também entram no jogo
O potencial brasileiro é ainda maior quando são considerados os resíduos urbanos.
Os aterros sanitários representam uma importante fonte de biogás que pode ser purificado e transformado em biometano.
Em Paulínia (SP), foi inaugurada uma unidade com capacidade nominal de até 225 mil Nm³ de biometano por dia, considerada a maior do país.
Em Goiânia (GO), a prefeitura anunciou a conversão da frota de ônibus urbanos para utilização de biometano produzido a partir de resíduos.
Fabricantes de motores também estão envolvidos no fornecimento de veículos preparados para utilizar o combustível.
Nova legislação pode acelerar investimentos
O crescimento do mercado brasileiro acontece em um momento de transformação regulatória.
A Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024) criou o Certificado de Garantia de Origem de Biometano (CGOB).
O mecanismo permite reconhecer o atributo ambiental associado ao combustível renovável e possibilita que esse atributo seja negociado de forma independente da molécula física.
A legislação também criou uma meta compulsória de redução de emissões relacionada ao gás natural.
A exigência começa em 0,5% em 2026 e aumenta gradualmente até alcançar 10%.
A criação desse ambiente regulatório pode contribuir para ampliar a demanda, melhorar a previsibilidade dos investimentos e estimular a construção de novas plantas de produção.
Oportunidade pode ir muito além do combustível
Para José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho de Administração do Instituto MBCBrasil, o estudo demonstra que o biometano já não pode ser tratado como uma tecnologia experimental.
A avaliação é de que o combustível já possui aplicação comercial e está presente em diferentes continentes.
O avanço dessa indústria pode ajudar a destravar investimentos privados, políticas públicas e novos projetos de infraestrutura energética.
Para o Brasil, entretanto, o movimento global pode representar algo ainda maior.
O país reúne matéria-prima abundante, forte produção agroindustrial, conhecimento tecnológico, indústria de equipamentos e um mercado interno com enorme demanda por transporte.
Essa combinação cria condições para que o Brasil não apenas produza biometano, mas participe de praticamente toda a cadeia de valor.
Do resíduo agrícola à tecnologia exportada
O grande potencial está justamente na integração entre agronegócio e energia.
Resíduos gerados nas atividades agrícolas e agroindustriais podem ser transformados em biometano. O processo pode gerar também biofertilizantes e créditos de carbono.
Ao mesmo tempo, a tecnologia necessária para realizar essa transformação pode ser desenvolvida e fabricada no próprio Brasil.
O resultado é uma cadeia que conecta produtores rurais, usinas, transportadoras, indústria de máquinas, empresas de engenharia, fornecedores de tecnologia, produtores de fertilizantes e o mercado de carbono.
Com a demanda internacional por combustíveis de baixa emissão em crescimento, o país ainda pode exportar essas soluções para mercados que possuem matéria-prima, mas não contam com a mesma estrutura tecnológica.
Biometano pode colocar o agro no centro da transição energética
O estudo internacional reforça uma mudança importante na economia global: a descarbonização do transporte pesado não depende de uma única tecnologia.
Nesse processo, o biometano surge como uma alternativa particularmente relevante para países com forte produção agropecuária e grande disponibilidade de resíduos orgânicos.
O Brasil se encaixa exatamente nesse perfil.
Com potencial estimado de 41,4 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano apenas no setor sucroenergético, aproveitamento atual inferior a 2%, produção de centenas de milhões de toneladas de cana e uma indústria capaz de desenvolver soluções tecnológicas, o país possui condições para ampliar rapidamente sua participação nesse mercado.
O desafio agora é transformar potencial em investimento.
Se o avanço regulatório, a demanda por transporte de baixo carbono e a evolução tecnológica continuarem abrindo espaço para o combustível, o biometano poderá representar uma nova fonte de receita para o agronegócio brasileiro e, ao mesmo tempo, criar um mercado de exportação de tecnologia, equipamentos e engenharia nacional.
Mais do que substituir o diesel, o biometano pode transformar resíduos do agronegócio em energia, fertilizantes, créditos ambientais e negócios, colocando o Brasil em uma posição estratégica na corrida mundial pela descarbonização do transporte pesado.
Fonte: Portal do Agronegócio
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