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Expansão do etanol de milho pode exigir 816 mil hectares de eucalipto no Brasil até 2030

Estudo do Itaú BBA projeta capacidade de 25,3 bilhões de litros e aponta que oferta de biomassa sustentável será decisiva para o crescimento das usinas


Publicado em: 14/09/2026 às 10:40hs

Expansão do etanol de milho pode exigir 816 mil hectares de eucalipto no Brasil até 2030

A rápida expansão do etanol de milho no Brasil abre uma nova frente de oportunidades para o agronegócio, mas também impõe um desafio estratégico: garantir biomassa suficiente para abastecer as usinas de maneira contínua, competitiva e ambientalmente sustentável.

Estudo da Consultoria Agro do Itaú BBA estima que a capacidade instalada de produção do biocombustível poderá avançar de 10,9 bilhões de litros, no final de 2025, para 25,3 bilhões de litros em 2030. Caso o eucalipto fosse utilizado como única fonte de energia térmica, seriam necessários aproximadamente 816 mil hectares de florestas plantadas para sustentar essa capacidade.

A projeção considera a utilização plena das unidades industriais e um consumo próximo de 57 milhões de toneladas de milho em 2030. O banco ressalta, entretanto, que outras fontes renováveis poderão integrar a matriz energética, reduzindo parte da necessidade de eucalipto.

Biomassa pode limitar crescimento do etanol de milho

O avanço da indústria foi favorecido pela ampliação da oferta de milho no Cerrado, pela competitividade do cereal e pelo crescimento dos mercados de biocombustíveis e proteínas animais.

Além do etanol, as usinas produzem DDG, coproduto utilizado na alimentação animal que pode compensar até 40% do custo de aquisição do milho. A expansão dos confinamentos e a abertura do mercado chinês para o DDG brasileiro ampliaram as possibilidades de comercialização.

No entanto, enquanto a capacidade industrial cresce rapidamente, a formação de uma base sustentável de biomassa avança em ritmo mais lento. Segundo o Itaú BBA, esse desequilíbrio pode transformar o abastecimento energético em um dos principais obstáculos à continuidade dos investimentos.

Atualmente, parte da biomassa consumida ainda é proveniente de áreas com supressão vegetal legalmente autorizada. As restrições regulatórias e ambientais, porém, aumentam a necessidade de florestas energéticas, contratos de longo prazo e fontes rastreáveis.

Produção pode alcançar 25,3 bilhões de litros em 2030

A capacidade instalada de etanol de milho no Brasil deverá apresentar forte crescimento ao longo dos próximos anos. A projeção do Itaú BBA indica os seguintes volumes:

  • 13,5 bilhões de litros em 2026;
  • 18,5 bilhões de litros em 2027;
  • 20,9 bilhões de litros em 2028;
  • 23,3 bilhões de litros em 2029;
  • 25,3 bilhões de litros em 2030.

As estimativas incorporam empreendimentos anunciados, alguns dos quais ainda dependem da confirmação de sua viabilidade econômica.

Para o final de 2026, uma capacidade próxima de 13 bilhões de litros demandaria cerca de 35 milhões de metros cúbicos de biomassa de eucalipto em um cenário de eficiência média.

Para garantir esse abastecimento de forma recorrente, seriam necessários aproximadamente 440 mil hectares de florestas plantadas, com a colheita anual de cerca de 63 mil hectares, considerando um ciclo de corte de sete anos.

Mato Grosso concentra demanda por florestas energéticas

Mato Grosso ocupa posição central nesse processo por concentrar grande parte das usinas brasileiras de etanol de milho. A capacidade instalada no estado poderá crescer de 6,9 bilhões de litros, no final de 2025, para aproximadamente 11,9 bilhões de litros em 2030.

Para uma produção próxima de 8 bilhões de litros, o estudo calcula a necessidade potencial de 259 mil hectares de eucalipto em um cenário de eficiência média. Com a capacidade próxima de 12 bilhões de litros e consumo de aproximadamente 27 milhões de toneladas de milho, a demanda poderá atingir 383 mil hectares.

Nesse cenário, seria necessário colher perto de 55 mil hectares de eucalipto por ano para manter o fluxo sustentável de biomassa às indústrias.

O desafio é ampliado pela diferença entre a demanda projetada e a base florestal existente. Dados considerados pelo estudo indicam que Mato Grosso possuía aproximadamente 165,6 mil hectares cultivados com eucalipto em 2025.

A comparação aponta um déficit potencial próximo de 218 mil hectares de novas florestas energéticas no cenário-base. A expansão exigiria investimentos estimados em R$ 7,6 bilhões, considerando custo de implantação e condução de R$ 35 mil por hectare durante um ciclo de 13 anos.

Em uma situação de menor eficiência operacional, a necessidade poderia alcançar 572 mil hectares, elevando o investimento potencial para cerca de R$ 14,3 bilhões.

Novas regras aceleram transição para biomassa sustentável

A regulamentação ambiental tende a ampliar a procura por fontes renováveis. Em Mato Grosso, um acordo entre o governo estadual e o Ministério Público estabeleceu um cronograma para reduzir gradualmente o uso de biomassa proveniente da supressão de vegetação nativa por grandes consumidores.

Pelas condições apresentadas no relatório, as indústrias instaladas poderão utilizar até 40% de biomassa nativa em 2034, com eliminação dessa fonte a partir de 2035. Novos empreendimentos deverão demonstrar a existência de abastecimento sustentável, priorizando florestas plantadas, manejo florestal e outras alternativas renováveis.

O movimento aumenta a importância do planejamento antecipado. Como o eucalipto necessita de vários anos para atingir o ponto de corte, decisões tomadas agora serão determinantes para o abastecimento das plantas no final da década.

Competição por madeira deve aumentar no agronegócio

As usinas de etanol de milho não são as únicas consumidoras de biomassa. Esmagadoras de soja, secadores de grãos e frigoríficos também dependem de madeira, cavacos e resíduos para a geração de energia térmica.

Mato Grosso possui 26 unidades de esmagamento, com capacidade instalada próxima de 18 milhões de toneladas de soja por ano. O estado também reúne 1.675 unidades armazenadoras, que somam cerca de 55 milhões de toneladas de capacidade estática, segundo dados da Conab considerados pelo estudo.

Parte relevante dessas estruturas utiliza sistemas de secagem alimentados por biomassa. Há ainda aproximadamente 43 frigoríficos, sendo 33 de bovinos, cinco de aves e cinco de suínos.

Nas estimativas preliminares do Itaú BBA, a indústria de etanol de milho responde por pouco mais de 60% da biomassa consumida em Mato Grosso. O restante está distribuído entre outros segmentos agroindustriais.

A concorrência crescente pela matéria-prima poderá valorizar a madeira e pressionar os custos das empresas que não estruturarem contratos ou áreas próprias de produção.

Distância das florestas influencia custo das usinas

A logística será determinante para a viabilidade dos projetos. Embora o eucalipto apresente maior flexibilidade de transporte do que resíduos agrícolas, distâncias elevadas aumentam significativamente o custo da biomassa entregue.

O estudo aponta que raios de abastecimento superiores a 150 ou 200 quilômetros começam a comprometer a competitividade, especialmente em regiões com infraestrutura logística limitada.

Para fontes como casca de arroz, bagaço de cana e resíduos agroindustriais, as restrições podem ser ainda maiores devido à sazonalidade, à dispersão geográfica e aos custos de coleta, processamento e transporte.

Por isso, a implantação de florestas próximas às unidades consumidoras tende a gerar maior segurança energética e reduzir despesas logísticas.

Eucalipto pode render equivalente a 30 sacas de soja por hectare ao ano

Além de atender às usinas, o avanço da biomassa abre uma possibilidade de diversificação de renda para produtores rurais. A cultura pode ser destinada principalmente a áreas de menor aptidão para lavouras anuais, desde que existam condições climáticas, logísticas e comerciais adequadas.

A simulação do Itaú BBA considera dois cortes de eucalipto ao longo de 13 anos, com produção acumulada de 520 metros cúbicos por hectare. As premissas incluem preço da madeira de R$ 200 por metro cúbico, custo operacional de R$ 35 mil por hectare e arrendamento equivalente a oito sacas de soja por hectare ao ano.

Nesse cenário, o projeto alcançaria:

  • receita acumulada de R$ 104 mil por hectare;
  • lucro aproximado de R$ 54,4 mil por hectare;
  • retorno médio de R$ 4,2 mil por hectare ao ano;
  • Taxa Interna de Retorno de 17% ao ano;
  • Valor Presente Líquido de R$ 4,3 mil por hectare, considerando taxa de atratividade de 14%.

Convertido para uma referência comum no campo, o retorno anualizado seria equivalente a aproximadamente 30 sacas de soja por hectare ao ano.

O resultado, entretanto, depende diretamente da produtividade florestal, do preço da madeira, do custo do capital e da distância até o comprador. Na simulação, com taxa de desconto de 14% ao ano, o projeto passa a apresentar resultado negativo quando o preço da madeira se aproxima de R$ 175 por metro cúbico.

Contratos de longo prazo serão essenciais

O intervalo de seis a sete anos até o primeiro corte amplia os riscos para produtores e investidores. Mudanças no preço da madeira, no custo financeiro ou na demanda industrial podem alterar a rentabilidade antes da colheita.

Diante desse horizonte, contratos de longo prazo com condições previsíveis de preço e compra serão fundamentais para estimular a expansão das florestas energéticas. Os acordos também podem reduzir o risco de descasamento entre os investimentos realizados atualmente e o mercado existente no momento da entrega.

Outras fontes podem complementar o eucalipto

A estimativa de 816 mil hectares para o Brasil parte da hipótese de que toda a demanda energética das usinas seria atendida com eucalipto. Na prática, a matriz deverá ser mais diversificada.

Bambu, casca de arroz, bagaço e palha de cana-de-açúcar, capins energéticos e outros resíduos agroindustriais poderão complementar o abastecimento. A participação de cada fonte dependerá da disponibilidade regional, do poder calorífico, da sazonalidade, da logística e da capacidade tecnológica das plantas.

Ganhos de eficiência nas caldeiras, menor consumo de vapor e melhorias nos sistemas de recuperação de energia também poderão reduzir a quantidade de biomassa necessária por litro de etanol produzido.

Mesmo com essas alternativas, o Itaú BBA avalia que o eucalipto continuará sendo uma das opções mais competitivas e escaláveis para garantir fornecimento contínuo.

Florestas plantadas fortalecem sustentabilidade do etanol brasileiro

A ampliação das florestas energéticas não representa apenas uma solução de abastecimento. O uso de biomassa renovável e rastreável pode fortalecer as credenciais ambientais do etanol de milho brasileiro em mercados orientados por metas de descarbonização.

Essa característica poderá favorecer o acesso aos segmentos de combustível sustentável de aviação, transporte marítimo e outras aplicações de baixo carbono. Também cria um diferencial em relação aos Estados Unidos, onde parcela predominante das usinas de etanol de milho utiliza gás natural.

O estudo conclui que o planejamento florestal deverá assumir papel central na próxima etapa de desenvolvimento do setor. A capacidade de combinar expansão industrial, eficiência energética, logística competitiva e biomassa sustentável poderá definir o ritmo de crescimento do etanol de milho brasileiro até 2030.

Fonte: Portal do Agronegócio

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