Etanol amplia vantagem sobre a gasolina enquanto excesso de oferta pressiona preços nas usinas
Biocombustível alcança maior competitividade em relação à gasolina desde 2018, mas mercado enfrenta queda nas cotações devido à elevada oferta e aumento dos estoques
Publicado em: 04/08/2026 às 14:40hs
O mercado brasileiro de etanol vive um momento de contrastes. Enquanto o consumidor encontra o biocombustível cada vez mais vantajoso frente à gasolina, o setor produtor enfrenta um cenário de pressão sobre os preços em razão da elevada oferta e do avanço dos estoques nas usinas.
Levantamentos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostram que julho terminou com novas quedas nas cotações do etanol hidratado e anidro em São Paulo. Ao mesmo tempo, dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicam que o etanol atingiu sua maior vantagem econômica frente à gasolina desde 2018, reforçando sua competitividade no abastecimento dos veículos flex.
Oferta elevada mantém preços do etanol sob pressão
Segundo o Cepea, a principal razão para a retração dos preços foi o grande volume de etanol disponibilizado por usinas paulistas e também por produtores de outros estados que direcionam sua produção para as principais bases de distribuição de São Paulo.
O aumento da oferta fez crescer os estoques armazenados, situação que já preocupa parte dos vendedores diante da necessidade de liberar espaço para a continuidade da safra.
As boas condições climáticas também contribuíram para esse cenário. O tempo seco favoreceu o avanço das atividades agrícolas e da moagem da cana, elevando ainda mais a disponibilidade do biocombustível no mercado.
Além disso, a necessidade de geração de caixa por algumas unidades produtoras levou muitas usinas a adotarem uma postura comercial mais agressiva, oferecendo descontos para acelerar as vendas, especialmente em regiões onde o diferencial logístico favoreceu as negociações.
Pesquisadores do Cepea destacam que, ao longo de julho, os negócios ocorreram de forma pontual e com volumes relativamente reduzidos, apresentando leve intensificação apenas nos últimos dias do mês.
Etanol registra maior vantagem econômica desde 2018
Apesar da queda nas cotações para os produtores, o cenário representa uma excelente oportunidade para os consumidores.
Dados da ANP mostram que, na última semana, o preço médio do etanol hidratado em São Paulo ficou em R$ 3,70 por litro, enquanto a gasolina foi comercializada, em média, a R$ 6,39 por litro.
Considerando o rendimento médio dos motores flex, equivalente a aproximadamente 73% do desempenho da gasolina, o preço de equilíbrio do etanol seria de R$ 5,07 por litro. Isso significa uma economia efetiva de cerca de R$ 1,32 por litro abastecido, o equivalente a aproximadamente R$ 79,29 em um tanque de 60 litros.
Esse diferencial representa a maior vantagem econômica do etanol frente à gasolina desde 2018 e a segunda maior desde o início da série histórica da ANP, iniciada em 2013.
Competitividade se espalha pelos principais estados produtores
A vantagem do etanol não está restrita ao mercado paulista.
Segundo a ANP, todos os municípios pesquisados nos estados de São Paulo, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais apresentaram preços do etanol economicamente mais vantajosos do que a gasolina.
Em São Paulo, principal mercado consumidor do país, a relação entre os combustíveis ficou em 57,9%, bem abaixo do limite considerado competitivo.
Já em Mato Grosso, a paridade atingiu 55%, uma das menores do Brasil. No estado, o etanol foi vendido por cerca de R$ 3,74 por litro, enquanto a gasolina alcançou R$ 6,80, ampliando significativamente a economia para os motoristas.
Produção nacional reduz exposição às oscilações internacionais
Para a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), a elevada competitividade do etanol ganha ainda mais importância em um cenário internacional marcado por instabilidade geopolítica e volatilidade nos preços do petróleo.
Por ser produzido no mercado interno, o biocombustível reduz a dependência brasileira de combustíveis fósseis importados, diminuindo a exposição do país às oscilações internacionais e contribuindo para maior estabilidade dos preços ao consumidor.
Além dos benefícios econômicos, o etanol fortalece a matriz energética renovável brasileira, gera emprego, renda e reduz as emissões de gases de efeito estufa.
Mistura E32 fortalece mercado de biocombustíveis
O setor também passa por uma importante mudança regulatória. Desde 1º de agosto entrou em vigor a ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que passou de 30% para 32% (E32), conforme estabelece a Lei do Combustível do Futuro.
A medida busca ampliar o uso de combustíveis renováveis e reduzir a necessidade de importação de gasolina.
De acordo com estimativas do setor, o novo percentual poderá diminuir as importações brasileiras entre 800 milhões e 1 bilhão de litros de gasolina por ano. Em 2025, o Brasil importou cerca de 3,5 bilhões de litros do combustível fóssil.
Segundo Luciano Rodrigues, diretor de Inteligência Setorial e Regulação da UNICA, o avanço da participação do etanol representa um importante ganho para a economia nacional.
"A maior participação do etanol na matriz energética representa uma alternativa eficiente para substituir combustível fóssil, importado e mais caro pelo biocombustível produzido domesticamente, gerando renda, emprego, economia ao consumidor e menor emissão de gases de efeito estufa."
Mercado deve seguir atento ao equilíbrio entre oferta e demanda
O cenário atual evidencia um mercado dividido entre dois movimentos distintos. De um lado, a elevada produção e os estoques pressionam as cotações nas usinas. De outro, a redução dos preços amplia significativamente a competitividade do etanol nas bombas, fortalecendo sua participação na matriz energética brasileira e consolidando o biocombustível como uma alternativa mais econômica, renovável e estratégica para o país.
Fonte: Portal do Agronegócio
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