Biodiesel impulsiona demanda por soja, amplia produção de farelo e fortalece indústria no Brasil
Cada ponto percentual acrescentado à mistura de biodiesel no diesel pode gerar demanda adicional de 4 milhões de toneladas de soja e elevar em 3 milhões de toneladas a oferta de farelo
Publicado em: 18/08/2026 às 19:00hs
A expansão do biodiesel no Brasil abre novas perspectivas para a cadeia da soja, ao estimular o processamento doméstico do grão, fortalecer a indústria de óleos vegetais e ampliar a oferta de farelo destinado à alimentação animal. O movimento também favorece a geração de empregos, a diversificação de matérias-primas e a redução da dependência dos combustíveis fósseis.
O potencial econômico dessa integração foi um dos principais assuntos debatidos durante a 7ª Biodiesel Week, promovida pela União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio). As discussões foram complementadas por uma visita técnica à unidade industrial da Binatural, em Formosa (GO).
Estimativa apresentada durante o evento indica que cada ponto percentual adicional na mistura obrigatória de biodiesel ao diesel pode representar o consumo de aproximadamente 4 milhões de toneladas de soja. O processamento desse volume teria capacidade para gerar cerca de 3 milhões de toneladas adicionais de farelo.
Biodiesel estimula processamento da soja no Brasil
A relação entre biodiesel, óleo vegetal e proteína animal coloca o biocombustível em uma posição estratégica para o agronegócio. Quando a soja é esmagada, uma parcela é transformada em óleo, utilizado na produção de biodiesel, enquanto a maior parte se converte em farelo, insumo fundamental para as cadeias de aves, suínos, bovinos e outras atividades pecuárias.
Segundo o presidente executivo da Ubrabio, Donizete Tokarski, aproximadamente 35 milhões de toneladas de soja são atualmente processadas em função da cadeia do biodiesel. Esse volume gera perto de 28 milhões de toneladas de farelo.
Na relação apresentada pelo dirigente, a produção de cada litro de biodiesel está associada à obtenção de aproximadamente quatro quilos de farelo, posteriormente utilizado na fabricação de rações.
O setor defende que o aumento do processamento interno pode agregar valor à produção agrícola nacional, reduzir a participação da soja em grão nas exportações e ampliar a disponibilidade de matérias-primas para a produção de proteína animal.
Agregação de valor reduz dependência da exportação de grãos
O Brasil exporta mais de 100 milhões de toneladas de soja em grão, conforme ressaltado durante a Biodiesel Week. Para representantes da cadeia de biocombustíveis, uma parcela maior dessa produção poderia ser processada no mercado doméstico.
A industrialização da soja cria uma cadeia mais extensa de geração de valor. Além do óleo e do farelo, o esmagamento movimenta atividades relacionadas à logística, armazenagem, produção de rações, fabricação de biodiesel e aproveitamento de coprodutos.
Na avaliação da Ubrabio, o fortalecimento desse modelo poderia gerar mais empregos, aumentar a oferta de farelo e contribuir para a competitividade da produção brasileira de carnes.
Unidade em Goiás produz 200 milhões de litros por ano
A operação da Binatural em Formosa exemplifica como diferentes matérias-primas podem ser utilizadas na fabricação de biodiesel. A unidade produz aproximadamente 200 milhões de litros do biocombustível por ano.
Para alcançar esse volume, a indústria utiliza entre 80 milhões e 90 milhões de litros de óleo de soja. O produto responde por cerca de 60% das matérias-primas empregadas, enquanto os 40% restantes incluem alternativas como óleo de cozinha usado e gordura animal.
A composição adotada pela empresa apresenta participação de resíduos e gorduras acima do padrão apontado para o mercado, estimado em aproximadamente 70% de óleo de soja e 30% de outras matérias-primas.
Essa diversificação permite aproveitar resíduos que poderiam ser descartados, reduzindo impactos ambientais e ampliando as possibilidades de fornecimento para a produção do combustível renovável.
Preparação garante qualidade das matérias-primas
Antes de entrar na linha de produção, a matéria-prima passa por um processo de preparação destinado a retirar impurezas e materiais indesejados. De acordo com a responsável pela área de Sustentabilidade e Comunicação Integrada da Binatural, Elaine Carvalho, essa etapa é necessária para assegurar a qualidade do óleo empregado na fabricação.
Após o tratamento, as diferentes matérias-primas são combinadas e estabilizadas. Segundo o diretor industrial da companhia, Luís Carlos da Costa Filho, o mix é realizado ainda antes da transformação em combustível, e não depois que o biodiesel está pronto.
O ciclo industrial completo leva aproximadamente 19 horas, desde a entrada dos insumos até a saída do produto final.
Glicerina e ácido graxo ampliam receita da indústria
A produção de biodiesel também gera coprodutos como glicerina, ácido graxo e borra. Parte desses materiais é comercializada no mercado brasileiro, enquanto outra parcela segue para exportação, inclusive para a China.
A Binatural desenvolve um processo para diminuir a geração de resíduos e ampliar o aproveitamento industrial. A proposta prevê transformar a borra em ácido graxo e, posteriormente, reinserir esse material na cadeia produtiva para a fabricação de biodiesel.
A iniciativa está alinhada aos princípios de economia circular, ao recuperar insumos e reduzir o descarte de materiais ao longo do processo industrial.
Biodiesel conecta produção agrícola e segurança energética
A ampliação do biodiesel é apresentada pelo setor como uma política que ultrapassa a substituição parcial do diesel fóssil. A cadeia começa no campo, avança pelo esmagamento da soja e chega à indústria de combustíveis, com efeitos sobre a produção de farelo, rações e proteína animal.
Essa integração também contribui para a segurança energética do Brasil. O aumento da participação dos biocombustíveis reduz a exposição do país às oscilações internacionais do petróleo e à necessidade de importação de diesel.
Para a Ubrabio, a transição energética brasileira tem origem na produção de biomassa. O agricultor, portanto, ocupa posição central na geração de combustíveis renováveis e na construção de uma matriz de transporte com menor intensidade de carbono.
Ferrovias, mineração e termelétricas abrem novos mercados
O potencial de crescimento da demanda não está restrito à mistura obrigatória no diesel rodoviário. O setor avalia oportunidades para o uso do biodiesel em ferrovias, mineração, termelétricas, máquinas pesadas e outras operações que dependem de motores a diesel.
Testes apresentados pela Binatural indicaram a possibilidade de utilização do biocombustível em motores empregados na geração térmica de energia. Em um dos ensaios relatados pela empresa, o equipamento funcionou sem alterações estruturais e atingiu 102% da capacidade de potência.
Caso a viabilidade técnica e econômica seja confirmada em escala comercial, essas aplicações poderão criar novos mercados para o biodiesel e ampliar a demanda por óleo de soja, gorduras animais e resíduos reaproveitáveis.
Transporte marítimo pode acelerar consumo de biodiesel
A navegação aparece como outra frente promissora. Representantes da Binatural relataram experiências com motores marítimos de grande porte e citaram uma visita à fabricante finlandesa Wärtsilä, onde conheceram uma embarcação preparada para operar com biodiesel puro.
A possibilidade de empregar o combustível renovável em motores existentes, sem grandes modificações, pode facilitar a descarbonização do transporte marítimo. O setor, entretanto, ainda depende do avanço dos testes, da regulamentação e da formação de uma oferta competitiva em maior escala.
Expansão cria oportunidades para toda a cadeia da soja
A abertura de novos mercados para o biodiesel tende a aumentar a procura por óleo vegetal e estimular o esmagamento da soja no Brasil. Ao mesmo tempo, cada tonelada adicional processada amplia a disponibilidade de farelo para a alimentação animal.
O desafio será equilibrar o crescimento da demanda com oferta regular de matérias-primas, sustentabilidade, eficiência industrial e competitividade econômica.
Com maior mistura obrigatória e novas aplicações no transporte, na mineração e na geração de energia, o biodiesel pode consolidar-se como um elo estratégico entre agricultura, agroindústria, produção de proteína animal e transição energética no Brasil.
Fonte: Portal do Agronegócio
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