IPCA-15 tem deflação de 0,40% no Brasil, enquanto inflação dos EUA mantém Fed em alerta
Bônus de Itaipu, queda dos alimentos e recuo nos transportes derrubam a prévia da inflação brasileira em agosto; nos Estados Unidos, PCE reforça cenário de juros estáveis em setembro
Publicado em: 27/08/2026 às 19:00hs
Análise de Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos
Os mercados financeiros acompanharam nesta quinta-feira os novos indicadores de inflação divulgados no Brasil e nos Estados Unidos. Embora os números tenham mostrado alguma moderação nos preços, a leitura dos dados ainda recomenda cautela por parte do Banco Central brasileiro e do Federal Reserve (Fed).
No Brasil, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) caiu 0,40% em agosto, registrando a primeira variação mensal negativa em 12 meses. Nos Estados Unidos, o índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE) avançou 0,2% no mês, enquanto seu núcleo permaneceu alinhado às expectativas.
PCE indica desaceleração gradual da inflação nos Estados Unidos
O PCE dos Estados Unidos subiu 0,2% em julho e acumulou alta de 3,7% em 12 meses. Parte do avanço foi influenciada por componentes considerados menos persistentes.
Já o núcleo do PCE, que exclui itens mais voláteis e é uma das principais referências utilizadas pelo Fed na condução da política monetária, também aumentou 0,2% no mês. Em 12 meses, o indicador permaneceu em 3,3%.
As métricas anualizadas de três e seis meses continuam apontando uma trajetória de desaceleração. A manutenção do núcleo do PCE próximo de 0,2% ao mês é considerada importante porque, caso esse ritmo seja sustentado, tende a favorecer a convergência gradual da inflação em direção à meta norte-americana de 2% ao ano.
Consumo das famílias americanas perde força
Os indicadores de atividade e consumo, entretanto, apresentaram sinais divergentes. A renda disponível real avançou 0,4% em julho, beneficiada por reajustes pontuais, mas sua trajetória de médio prazo continua praticamente estagnada e abaixo da tendência observada antes da pandemia.
Os gastos reais das famílias ficaram estáveis no mês, enquanto a taxa de poupança pessoal aumentou de 2,6% para 3%. Apesar da melhora, o percentual permanece bem abaixo da média histórica de longo prazo, próxima de 6%.
Esse cenário evidencia uma economia dividida. Famílias de renda média e baixa, mais dependentes dos salários e com menor margem financeira, enfrentam pressão crescente sobre o orçamento. A deterioração aparece, por exemplo, no aumento da inadimplência em cartões de crédito e financiamentos de veículos.
Na outra ponta, os 20% mais ricos, que concentram aproximadamente 70% da riqueza das famílias, continuam sustentando parcela relevante da demanda, apoiados pelos ganhos acumulados em ativos financeiros e patrimoniais.
Fed pode manter juros inalterados em setembro
Sem novos choques de oferta, a combinação entre inflação mais controlada e crescimento moderado permite ao Fed manter uma política monetária restritiva sem necessariamente provocar uma deterioração excessiva do mercado de trabalho.
Os próximos relatórios de emprego serão decisivos para definir o ritmo e a extensão de uma eventual normalização dos juros no quarto trimestre.
Considerando também o crescimento anualizado de 1,5% do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos no segundo trimestre, a avaliação é de que o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) possui condições para manter a taxa dos fed funds no intervalo de 3,50% a 3,75% em sua reunião de setembro.
IPCA-15 registra deflação de 0,40% em agosto
No Brasil, o IPCA-15 caiu 0,40% em agosto, após avançar 0,06% em julho. O resultado foi mais intenso do que a mediana das projeções do mercado, que indicava deflação próxima de 0,31%.
Com isso, a inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,52% para 4,24%, ficando abaixo do teto do intervalo de tolerância da meta. No acumulado de 2026, o IPCA-15 registra alta de 3,09%.
O resultado confirma que o processo de desinflação continua em andamento, mas não representa necessariamente uma mudança estrutural no comportamento dos preços. Parte expressiva da queda foi provocada por fatores temporários, especialmente o bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica e a redução sazonal de alguns alimentos.
Energia elétrica, transportes e alimentos puxam índice para baixo
A deflação de agosto ficou concentrada principalmente em três grupos:
- Habitação: queda de 1,41%;
- Transportes: recuo de 1%;
- Alimentação: redução de 0,57%.
Dentro do grupo Habitação, a energia elétrica residencial caiu 6,25% e exerceu a principal influência negativa sobre o IPCA-15. O resultado refletiu a incorporação do bônus de Itaipu nas contas de luz emitidas em agosto.
Em Transportes, a redução dos preços dos combustíveis e das passagens aéreas contribuiu para a queda do grupo. Na Alimentação, o destaque foi o recuo de 0,97% nos alimentos consumidos dentro do domicílio.
Bônus de Itaipu provoca alívio temporário na inflação
A queda de 6,25% da energia elétrica residencial retirou aproximadamente 0,26 ponto percentual do IPCA-15. Mesmo sem esse efeito, a prévia da inflação teria permanecido negativa, porém com intensidade menor.
O bônus de Itaipu corresponde ao repasse aos consumidores residenciais de um saldo positivo obtido na comercialização da energia produzida pela hidrelétrica no ano anterior. Em 2026, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou a distribuição de R$ 872 milhões por meio de créditos nas faturas.
Esse mecanismo, contudo, não altera a tarifa regulada nem modifica a estrutura de custos do setor elétrico. Trata-se de uma redução pontual no valor pago pelos consumidores, com impacto concentrado no mês em que o crédito é concedido.
Por esse motivo, o efeito sobre a inflação tende a ser temporário e não representa, isoladamente, uma mudança permanente na trajetória dos preços da energia elétrica.
Conta de luz pode pressionar IPCA-15 de setembro
A principal consequência do bônus para os próximos meses será o chamado efeito-base. Sem a repetição do crédito em setembro, a conta de energia deverá retornar ao patamar anterior, o que pode provocar alta mensal no item, mesmo que não haja novo reajuste tarifário.
Além disso, a bandeira tarifária amarela permaneceu vigente em agosto, acrescentando R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora consumidos. Isso mostra que o alívio proporcionado pelo bônus ocorreu em um contexto no qual os custos marginais da geração de energia ainda permanecem elevados.
A expectativa é de que o IPCA-15 volte ao campo positivo em setembro, com uma reversão parcial da deflação registrada em agosto. Caso alimentação no domicílio, combustíveis e passagens aéreas apresentem estabilidade ou altas moderadas, o indicador poderá variar entre 0,2% e 0,4%.
No acumulado de 12 meses, o fim do impacto do bônus de Itaipu pode limitar uma queda mais acentuada da inflação, mantendo o índice próximo do nível atual, a menos que os preços dos serviços e dos bens industriais mostrem desaceleração mais consistente.
Banco Central deve manter política dependente dos dados
A queda da inflação para 4,24% em 12 meses reduz a pressão imediata por uma política monetária ainda mais restritiva. No entanto, a presença de componentes temporários impede uma leitura excessivamente otimista do resultado.
O Banco Central deverá continuar avaliando um conjunto mais amplo de indicadores antes de definir seus próximos passos. Entre os principais fatores estão:
- comportamento da inflação de serviços e dos núcleos inflacionários;
- trajetória das expectativas para os próximos anos;
- evolução da demanda doméstica e do mercado de trabalho;
- comportamento do câmbio e dos preços das commodities;
- possibilidade de efeitos secundários sobre outros preços da economia.
A autoridade monetária precisa diferenciar movimentos pontuais de uma desaceleração persistente. O bônus de Itaipu reduziu a conta de luz apenas temporariamente, enquanto a queda dos alimentos esteve relacionada, em parte, às condições sazonais de oferta.
Ambiente externo continua no radar da inflação brasileira
Além da possível reversão dos fatores que favoreceram o IPCA-15 em agosto, o cenário internacional permanece como fonte de risco.
A trajetória dos juros nos Estados Unidos, o comportamento do dólar e as oscilações das commodities podem voltar a pressionar os custos de produção, os preços dos produtos importados e as expectativas de inflação no Brasil.
Nesse ambiente, a política monetária brasileira deverá permanecer suficientemente restritiva para assegurar uma convergência duradoura da inflação ao centro da meta. Ao mesmo tempo, a melhora dos indicadores pode abrir espaço para a continuidade gradual da flexibilização dos juros.
A deflação de agosto representa um sinal favorável, mas deve ser interpretada como uma etapa do processo de estabilização dos preços, e não como uma solução definitiva para o desafio inflacionário. Ainda assim, diante da evolução recente dos indicadores, um novo corte de juros de igual magnitude pelo Banco Central não seria uma surpresa.
Fonte: Portal do Agronegócio
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