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Mercado Financeiro

Dólar pode chegar a R$ 5,35 no fim de 2026, projeta Rabobank

Relatório AgroInfo aponta que corrida eleitoral, incerteza fiscal, tensões geopolíticas e postura mais rígida do Federal Reserve devem ampliar a volatilidade do câmbio no Brasil


Publicado em: 27/08/2026 às 20:00hs

Dólar pode chegar a R$ 5,35 no fim de 2026, projeta Rabobank

O dólar deve encerrar 2026 cotado a R$ 5,35, segundo projeção apresentada pelo Rabobank na edição de agosto do relatório AgroInfo 2026. Para 2027, a instituição financeira estima uma taxa de câmbio de R$ 5,30 por dólar.

A análise indica que o real ainda encontra suporte no elevado diferencial de juros entre o Brasil e outras economias. Entretanto, a aproximação das eleições, as dúvidas sobre o ajuste das contas públicas e as tensões internacionais devem elevar o prêmio de risco e aumentar a volatilidade cambial nos próximos meses.

Segundo o RaboResearch, responsável pelas análises econômicas e setoriais do banco, uma eventual deterioração do cenário eleitoral ou fiscal poderá provocar uma desvalorização mais intensa da moeda brasileira.

Corrida eleitoral aumenta pressão sobre o câmbio

O avanço do calendário eleitoral tende a concentrar as atenções dos investidores nas propostas econômicas dos candidatos, especialmente aquelas relacionadas ao controle dos gastos públicos e à trajetória da dívida.

Para o Rabobank, a incerteza sobre a velocidade da consolidação fiscal representa um dos principais vetores de pressão sobre o real. A ausência de sinais claros sobre o equilíbrio das contas públicas pode elevar a percepção de risco e reduzir a entrada de capital estrangeiro.

Esse cenário tende a produzir oscilações mais intensas na cotação do dólar, principalmente diante de mudanças nas pesquisas eleitorais, anúncios de medidas econômicas e revisões nas expectativas para o resultado fiscal.

O banco avalia que o real permanece vulnerável a uma combinação entre ruídos políticos domésticos e uma eventual piora das condições financeiras internacionais.

Tensões geopolíticas fortalecem o dólar

No ambiente externo, as tensões entre Estados Unidos e Irã, além das incertezas relacionadas ao Estreito de Ormuz, seguem no radar do mercado financeiro.

A região é uma das rotas mais importantes para o transporte mundial de petróleo. Uma interrupção significativa no fluxo de navios pode elevar os preços da energia, pressionar a inflação global e aumentar a procura por ativos considerados mais seguros, como o dólar.

Tarifas norte-americanas elevadas, estoques reduzidos de derivados de petróleo e juros internacionais ainda altos completam o cenário de cautela apontado pelo Rabobank.

Apesar desses riscos, a resiliência das principais economias tem limitado, até o momento, os efeitos das tensões geopolíticas sobre a atividade global.

Federal Reserve pode manter juros elevados por mais tempo

A política monetária dos Estados Unidos também deverá influenciar diretamente o câmbio brasileiro. O Rabobank espera que o Federal Reserve mantenha a taxa dos Fed funds entre 3,50% e 3,75% até o fim de 2026.

A previsão considera dois cortes de 0,25 ponto percentual ao longo de 2027, levando os juros norte-americanos para uma faixa entre 3,00% e 3,25% no encerramento do próximo ano.

Uma postura mais rígida do Federal Reserve, conhecida no mercado como “hawkish”, tende a fortalecer o dólar mundialmente. Juros elevados nos Estados Unidos aumentam a atratividade dos títulos norte-americanos e podem reduzir o fluxo de recursos para mercados emergentes, incluindo o Brasil.

Caso a inflação dos Estados Unidos apresente resistência ou as tensões internacionais provoquem novos choques de preços, o ciclo de redução dos juros poderá ser ainda mais lento.

Selic elevada ajuda a limitar desvalorização do real

No Brasil, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual em agosto, para 14% ao ano. Apesar do corte, o comunicado do Banco Central manteve uma postura cautelosa diante das incertezas e dos riscos inflacionários.

O Rabobank projeta a interrupção do ciclo de cortes, com a Selic permanecendo em 14% até o fim de 2026. A flexibilização monetária deverá ser retomada apenas em abril de 2027, levando a taxa básica para 12,50% ao final daquele ano.

Os juros brasileiros em patamar elevado mantêm o diferencial em relação às economias desenvolvidas e aumentam a atratividade dos ativos denominados em reais. Esse movimento funciona como um amortecedor contra uma desvalorização mais acentuada da moeda nacional.

A sustentação do real, contudo, dependerá também da confiança dos investidores na condução da política fiscal e da evolução do cenário externo.

Inflação deve permanecer acima da meta

O relatório AgroInfo aponta que o processo de desinflação no Brasil continua gradual. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo acumulou alta de 4,4% em 12 meses até julho, ficando pouco abaixo do teto da meta.

A desaceleração foi favorecida pelo comportamento dos preços dos alimentos e dos produtos industriais. Em sentido contrário, a energia elétrica manteve pressão sobre os preços administrados, enquanto a inflação de serviços permaneceu elevada diante do mercado de trabalho aquecido.

O Rabobank projeta IPCA de 5,1% no encerramento de 2026 e de 4,1% no fim de 2027. A inflação persistente ajuda a explicar a cautela esperada para o Banco Central na condução da Selic.

Economia brasileira perde ritmo, mas consumo segue sustentado

Os indicadores analisados pelo banco apontam uma perda gradual de força da atividade econômica no segundo trimestre de 2026.

As vendas do varejo e o volume de serviços avançaram 0,4% na comparação trimestral, enquanto a indústria registrou crescimento de 0,3%. O mercado de trabalho permaneceu aquecido, com taxa de desemprego de 5,4% e rendimentos elevados, embora a criação de vagas tenha apresentado desaceleração.

O Rabobank manteve a projeção de crescimento de 1,8% para o Produto Interno Bruto brasileiro em 2026. Para 2027, a instituição espera expansão de 2,2%.

A renda das famílias deverá continuar sustentando o consumo, mas os juros elevados e as incertezas externas devem limitar uma aceleração mais consistente da economia.

Preço do petróleo pode favorecer os termos de troca

Apesar dos riscos geopolíticos, uma valorização do petróleo também pode gerar efeitos positivos para o câmbio brasileiro. O Brasil é exportador da commodity e pode ser beneficiado pela melhora dos termos de troca quando os preços internacionais avançam.

Termos de troca mais favoráveis significam, de maneira geral, que os produtos exportados pelo País passam a valer mais em relação aos bens importados. Esse movimento pode ampliar a entrada de dólares e oferecer suporte ao real.

O efeito positivo, entretanto, pode ser parcialmente compensado pelo aumento dos custos de combustíveis, fertilizantes, fretes e outros produtos ligados à energia.

Câmbio a R$ 5,35 afeta custos e receitas do agronegócio

A projeção de dólar a R$ 5,35 no fim de 2026 traz efeitos diferentes para os segmentos do agronegócio.

Para exportadores de soja, milho, café, açúcar, algodão, celulose e proteínas animais, a moeda norte-americana mais valorizada tende a ampliar a receita em reais obtida com as vendas externas. O benefício dependerá das cotações internacionais e do percentual da produção já comercializado.

Por outro lado, a alta do dólar aumenta os custos dos insumos importados. Fertilizantes, defensivos agrícolas, medicamentos veterinários, peças e máquinas podem ficar mais caros no mercado doméstico.

O impacto sobre as margens dependerá da exposição cambial de cada atividade, das estratégias de proteção financeira e do momento de compra dos insumos e de venda da produção.

Produtores com receitas vinculadas ao dólar, mas custos concentrados em reais, podem ser beneficiados. Já propriedades dependentes de insumos importados e com menor participação das exportações ficam mais vulneráveis ao aumento da cotação.

Volatilidade exige planejamento do produtor rural

O cenário apresentado pelo Rabobank indica que o câmbio deverá permanecer sensível aos acontecimentos políticos, fiscais e geopolíticos ao longo dos próximos meses.

Para o agronegócio, a maior volatilidade reforça a importância do planejamento comercial e financeiro. Operações de hedge, contratos futuros, opções, barter e vendas escalonadas podem ajudar a reduzir a exposição às oscilações do dólar.

O acompanhamento dos custos também ganha relevância, principalmente diante das preocupações com o ritmo das importações de fertilizantes para a safra 2026/27.

Na avaliação do banco, o diferencial de juros e os fundamentos externos ainda podem limitar a desvalorização do real. Mesmo assim, as incertezas eleitorais e fiscais mantêm aberto o risco de o dólar superar a projeção de R$ 5,35 até o encerramento de 2026.

Fonte: Portal do Agronegócio

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