Enoturismo cresce no Brasil, atrai 1,2 milhão de visitantes e já responde por 34,7% da receita de vinícolas
Pesquisa inédita da Escola de Enoturismo começa a dimensionar o mercado brasileiro e revela avanço da atividade como fonte de receita, geração de empregos e atração de turistas; falta de profissionais qualificados surge como um dos principais desafios para a expansão
Publicado em: 18/08/2026 às 16:30hs
O enoturismo brasileiro avança como uma nova frente de negócios para a cadeia do vinho. Uma pesquisa inédita realizada pela Escola de Enoturismo mostra que 51 vinícolas de seis unidades da Federação recebem, juntas, mais de 1,2 milhão de visitantes por ano e obtêm, em média, 34,7% do faturamento com atividades ligadas ao turismo do vinho.
Os primeiros resultados do levantamento foram apresentados durante o 1º Fórum de Enoturismo das Américas, realizado em São Paulo, e ajudam a dimensionar um segmento que vem ampliando sua importância econômica dentro e fora das propriedades vitivinícolas.
Além de estimular a comercialização direta de vinhos, o enoturismo movimenta restaurantes, hospedagem, eventos, gastronomia, experiências nos vinhedos e atividades culturais. O crescimento, entretanto, já encontra um importante gargalo: a escassez de mão de obra especializada.
Vinícolas recebem mais de 1,2 milhão de turistas por ano
A primeira amostragem da pesquisa reúne informações de 51 vinícolas localizadas na Bahia, Distrito Federal, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.
Juntos, os empreendimentos contabilizam 1.223.482 visitantes por ano, número que evidencia a dimensão que o turismo associado ao vinho já alcançou no Brasil.
As empresas pesquisadas mantêm ainda 834 trabalhadores diretamente envolvidos nas operações de enoturismo.
O levantamento permanece aberto para ampliar a representatividade dos dados e construir uma base mais abrangente sobre a atividade no país.
A iniciativa busca preencher uma lacuna histórica. Apesar da expansão das rotas do vinho e do aumento dos investimentos das vinícolas em experiências turísticas, o Brasil ainda possui poucos indicadores consolidados sobre número de visitantes, empregos, faturamento e demanda por profissionais especializados.
Enoturismo já representa 34,7% do faturamento das vinícolas pesquisadas
Um dos dados mais relevantes do estudo está na participação do turismo na geração de receita das empresas.
Na média das vinícolas participantes, 34,7% do faturamento está relacionado ao enoturismo.
A realidade varia significativamente entre os empreendimentos. A participação da atividade nas receitas oscila entre 1% e 98%, refletindo diferentes estruturas, estratégias comerciais, localizações e estágios de desenvolvimento.
Os números mostram que o enoturismo tende a apresentar peso proporcionalmente maior entre vinícolas de menor porte. Nesses negócios, a venda direta ao consumidor e as experiências realizadas dentro da propriedade podem representar parcela decisiva das receitas.
Ao mesmo tempo, médias e grandes vinícolas também começam a transformar o turismo em uma área estratégica.
O que antes funcionava principalmente como instrumento para apresentar marcas e estimular a venda de vinhos passa a ser tratado como uma unidade de negócio capaz de gerar receita própria.
Turismo do vinho amplia fontes de renda no campo
A transformação ajuda a diversificar as receitas das propriedades e empresas ligadas à vitivinicultura.
Visitas guiadas e degustações continuam sendo importantes, mas passaram a dividir espaço com experiências mais sofisticadas.
Restaurantes, hospedagens, piqueniques nos vinhedos, eventos, atividades culturais, harmonizações, experiências gastronômicas, programas personalizados e vivências relacionadas à colheita e à produção de vinhos ampliam o valor movimentado por cada visitante.
Essa diversificação cria oportunidades que ultrapassam os limites das próprias vinícolas.
O crescimento das rotas enoturísticas pode estimular hotéis, pousadas, restaurantes, comércio, transporte, produção artesanal e serviços turísticos, fortalecendo a economia das regiões produtoras.
O movimento também aproxima consumidores das áreas rurais e cria novas possibilidades para agregar valor à produção agropecuária.
Falta de profissionais qualificados desafia expansão do enoturismo
Se o crescimento abre oportunidades, a formação de profissionais aparece como um dos principais gargalos.
A pesquisa perguntou às vinícolas quais trabalhadores são mais difíceis de encontrar para as operações relacionadas ao turismo.
Entre as principais necessidades aparecem atendentes especializados em enoturismo, incluindo profissionais temporários ou extras para finais de semana e períodos de maior movimento.
Também há demanda por trabalhadores com domínio de inglês e espanhol, profissionais de liderança e gestão, equipes para gastronomia e restaurantes e funcionários especializados em limpeza e higiene.
Os resultados indicam que o problema não está necessariamente na ausência absoluta de trabalhadores, mas na dificuldade de encontrar pessoas preparadas para atender às particularidades de um mercado cada vez mais profissionalizado.
Experiência do turista exige novas competências
A mudança no perfil das próprias vinícolas ajuda a explicar a demanda por especialização.
Receber turistas deixou de significar apenas organizar visitas às instalações e oferecer degustações.
O visitante busca experiências capazes de combinar vinho, gastronomia, história, cultura, paisagem, hospitalidade e identidade regional.
Isso exige profissionais preparados para comunicar as características dos produtos, contar a história das propriedades e das regiões produtoras e, ao mesmo tempo, prestar atendimento semelhante ao encontrado em outros segmentos especializados do turismo.
O avanço do público internacional também aumenta a importância do domínio de idiomas.
Para as vinícolas, a qualidade do atendimento passa a ter influência direta na reputação da marca, na venda de produtos e na possibilidade de transformar visitantes em consumidores recorrentes.
Pesquisa pretende criar retrato permanente do enoturismo brasileiro
A iniciativa da Escola de Enoturismo surgiu justamente diante da falta de estatísticas consolidadas sobre o setor.
O levantamento foi estruturado a partir de quatro indicadores considerados essenciais para compreender a dimensão econômica da atividade: número de trabalhadores diretamente envolvidos, quantidade de visitantes, participação do enoturismo no faturamento e profissionais que as empresas têm dificuldade para contratar.
A proposta é ampliar gradualmente a quantidade de participantes e transformar a pesquisa em instrumento permanente de acompanhamento do mercado.
Com uma série histórica mais ampla, será possível observar o ritmo de crescimento do turismo do vinho, identificar gargalos regionais e acompanhar mudanças nas necessidades das empresas.
Essas informações também podem contribuir para orientar investimentos, programas de capacitação e políticas de desenvolvimento das regiões vitivinícolas.
Rio Grande do Sul lidera tradição, mas enoturismo avança pelo Brasil
Embora o Rio Grande do Sul concentre algumas das regiões vitivinícolas mais tradicionais do país, a pesquisa mostra que o turismo do vinho já apresenta presença geográfica diversificada.
A amostra inclui empreendimentos da Bahia, Distrito Federal, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.
A expansão acompanha as transformações da vitivinicultura brasileira, que vem desenvolvendo diferentes modelos produtivos e novas regiões produtoras.
Com isso, destinos turísticos relacionados ao vinho também começam a surgir fora dos roteiros historicamente consolidados do Sul do país.
A diversidade pode ampliar o potencial do Brasil no segmento ao oferecer experiências associadas a diferentes climas, paisagens, gastronomias e culturas regionais.
51 vinícolas participam da primeira etapa da pesquisa
A primeira amostragem contou com a participação de empreendimentos de diferentes portes e regiões produtoras.
Integram o levantamento Adega Chesini, Almadén, Amana, Bonventi, Cainelli, Casa Perini, Chandon, Cooperativa Aurora, Cooperativa Garibaldi, Cordilheira de Sant'Ana, Courmayeur, Cristofoli, Dal Pizzol, Don Giovanni, Face Norte, Floresta de São Pedro, Foppa & Ambrosi, Franco Italiano, Fritzen, Garbo, Gaudio, Geisse, Góes, Guatambu, Guaspari, Hermann, Larentis, Lemos de Almeida, Leone Di Venezia, L'Origene, Madre Terra, Mena Kaho, Merum, Miolo, Monte Agudo, Monte Chiaro, Paraizo, Peterlongo, Salton, Seival, Serra do Sol, Somacal, Terranova, Terra Nossa, Torcello, Valmarino, Viapiana, Vinha Duarte, Villa Triacca, Vinícola Campestre e Vivalti.
A continuidade da pesquisa deverá ampliar essa base e permitir uma avaliação mais abrangente do mercado nacional.
Qualificação profissional acompanha crescimento do setor
A própria Escola de Enoturismo foi criada para aproximar a formação profissional das demandas identificadas no mercado.
Fundada em maio de 2026, a iniciativa trabalha com três pilares: Território e Origem, Comunicação e Experiência, e Negócio.
O projeto é conduzido por Ivane Remus Fávero, mestre em Enoturismo; pela jornalista Lucinara Masiero; e pelo especialista em Enoturismo Artur Tremper Farias.
A primeira turma presencial do Nível 1 já concluiu a formação em Bento Gonçalves (RS). Em 17 de agosto, teve início a primeira turma online, ampliando a possibilidade de capacitação de profissionais localizados em outras regiões do país.
A formação à distância ganha relevância justamente em um momento no qual novas regiões produtoras começam a estruturar experiências turísticas associadas ao vinho.
Enoturismo transforma vinho em experiência e amplia valor agregado
Os primeiros resultados da pesquisa mostram uma mudança importante na cadeia vitivinícola brasileira.
Para parte das empresas, o turismo deixou de ser uma atividade complementar e passou a representar parcela estratégica do faturamento.
A transformação também cria uma relação diferente entre consumidor e produto.
Enquanto a comercialização tradicional termina com a venda da garrafa, o enoturismo permite às vinícolas agregar serviços, gastronomia, hospitalidade, cultura e entretenimento ao vinho.
Esse modelo amplia o potencial de geração de receita dentro das propriedades e fortalece a identidade das regiões produtoras.
Enoturismo abre nova frente para o agronegócio brasileiro
A expansão também coloca o turismo rural e de experiência em uma posição cada vez mais relevante dentro do agronegócio.
Ao integrar produção agrícola, indústria, gastronomia, turismo e serviços, o enoturismo cria oportunidades para diversificação da renda, geração de empregos e desenvolvimento regional.
Os números iniciais ajudam a demonstrar essa dimensão: somente 51 vinícolas pesquisadas já recebem mais de 1,2 milhão de visitantes anualmente, empregam diretamente 834 profissionais na atividade e obtêm, em média, mais de um terço de suas receitas a partir do turismo.
Com a ampliação da pesquisa, o setor poderá ganhar um retrato mais preciso de sua dimensão econômica.
O desafio seguinte será acompanhar o ritmo dessa expansão com investimentos em infraestrutura, gestão, hospitalidade e, principalmente, qualificação profissional.
Se esse processo avançar, o turismo do vinho poderá deixar definitivamente a condição de atividade complementar para consolidar-se como um dos principais vetores de agregação de valor da vitivinicultura brasileira.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias