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Safra maior de cana amplia oferta de etanol, mas preços baixos e custos elevados pressionam produtores

Minas Gerais deve colher 82,5 milhões de toneladas de cana em 2026/27, enquanto recuperação dos canaviais e avanço do etanol de milho aumentam a disponibilidade do biocombustível


Publicado em: 24/08/2026 às 18:00hs

Safra maior de cana amplia oferta de etanol, mas preços baixos e custos elevados pressionam produtores

A recuperação da produção de cana-de-açúcar e a expansão do etanol de milho ampliam a oferta de biocombustíveis no Brasil e ajudam a explicar a pressão recente sobre os preços. Em alguns postos de Belo Horizonte, o etanol foi encontrado por aproximadamente R$ 2,99 por litro.

O valor pago pelo consumidor, porém, representa apenas a etapa final de uma cadeia que começa no campo. Antes de chegar às bombas, o combustível passa pela produção da matéria-prima, processamento industrial, transporte, distribuição e incidência de tributos.

Embora a maior disponibilidade possa favorecer o consumidor, os produtores rurais enfrentam margens mais apertadas. A queda das cotações internacionais do açúcar pressiona a remuneração da cana, enquanto fertilizantes e outros insumos permanecem caros.

Produção de cana em Minas Gerais deve crescer 7%

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que Minas Gerais produzirá 82,5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2026/27. O volume representa crescimento de 7% em relação à temporada anterior.

O avanço deverá ser sustentado pelo aumento da área cultivada e pela recuperação da produtividade dos canaviais. As condições climáticas mais favoráveis também contribuíram para melhorar as perspectivas em diferentes regiões produtoras.

Segundo Humberto de Campos Maciel, produtor rural de Pompéu e integrante da Comissão Técnica de Cana-de-Açúcar da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), as chuvas foram intensas e bem distribuídas durante a temporada.

A expectativa apresentada pelo produtor é de que a safra brasileira cresça entre 5% e 7,5%, alcançando um volume entre 640 milhões e 650 milhões de toneladas de cana.

Produtividade depende das condições de cada canavial

O desempenho da cultura varia conforme a localização, as características do solo, o clima, a incidência de radiação solar e a distribuição das chuvas. Por isso, não existe um modelo único de manejo capaz de assegurar alta produtividade em todas as propriedades.

A resposta das plantas também depende das variedades utilizadas, do histórico da área, da disponibilidade hídrica e da qualidade das operações realizadas durante o ciclo.

O planejamento precisa considerar essas diferenças para direcionar corretamente os investimentos e evitar gastos que não tragam retorno produtivo.

Maior oferta ajuda a pressionar preços do etanol

A recuperação dos canaviais aumenta a disponibilidade de matéria-prima para as usinas, permitindo maior flexibilidade na produção de açúcar e etanol.

Ao mesmo tempo, o crescimento do etanol de milho adiciona novos volumes ao mercado brasileiro de combustíveis renováveis. A combinação das duas matérias-primas amplia a oferta e pode pressionar os preços quando o consumo não avança na mesma proporção.

A relação, entretanto, não é automática. As usinas definem o direcionamento da cana conforme a rentabilidade relativa entre açúcar e etanol, além das condições comerciais, dos estoques e da demanda.

Etanol reage nas usinas de São Paulo

Após um período de preços pressionados, o mercado apresentou sinais de recuperação. Levantamento da Datagro apontou valorização de 8,2% no etanol hidratado comercializado pelos produtores em São Paulo, para R$ 2,1955 por litro.

O etanol anidro, utilizado na mistura obrigatória com a gasolina, avançou 6,6%, alcançando R$ 2,5078 por litro.

A reação indica um ajuste entre oferta e demanda na saída das usinas. Ainda assim, os preços ao produtor não são diretamente comparáveis aos valores cobrados nos postos, pois não incluem todas as etapas posteriores da cadeia.

Transporte, armazenamento, distribuição, margens comerciais e tributos influenciam o preço final pago pelos motoristas.

Queda do açúcar reduz remuneração da cana

A remuneração dos fornecedores de cana está ligada, entre outros fatores, ao comportamento dos preços do açúcar e do etanol. A queda das cotações do açúcar na Bolsa de Nova York reduziu a valorização do Açúcar Total Recuperável (ATR), referência utilizada para calcular o pagamento da matéria-prima.

Esse movimento ocorre enquanto os custos de fertilizantes, defensivos, operações mecanizadas e outros insumos seguem elevados.

O cenário cria um contraste para o produtor: a safra pode apresentar maior produtividade e volume, mas isso não garante automaticamente aumento da rentabilidade. O resultado econômico dependerá da remuneração do ATR e do controle dos custos por hectare.

Tecnologia pode dobrar produtividade da cana

A adoção de tecnologia tornou-se uma das principais estratégias para aumentar a eficiência e compensar a pressão sobre as margens.

Entre as práticas utilizadas estão a escolha de variedades mais produtivas e resistentes, correção do solo, manejo nutricional, aplicação precisa de fertilizantes, irrigação e sistemas de orientação por satélite.

Em algumas regiões, a combinação dessas tecnologias pode elevar a produtividade de aproximadamente 80 para até 160 toneladas por hectare, segundo Humberto de Campos Maciel.

O potencial, entretanto, depende das condições de cada propriedade e da integração correta entre genética, solo, água, nutrição e manejo.

Orientação por satélite reduz danos ao canavial

O plantio em curvas de nível orientadas por satélite permite organizar as linhas conforme as características do terreno. O mesmo planejamento pode ser utilizado posteriormente pelas máquinas durante a colheita.

Com trajetos mais precisos, os equipamentos reduzem o tráfego sobre as linhas de cultivo e os possíveis danos às raízes. A prática favorece o desenvolvimento das plantas nas soqueiras seguintes e pode prolongar a vida produtiva do canavial.

A redução de sobreposições nas operações também contribui para economizar combustível, insumos e horas de trabalho das máquinas.

Irrigação favorece rendimento e longevidade

A irrigação é outra ferramenta capaz de ampliar a produtividade e reduzir os efeitos dos períodos de deficiência hídrica.

Quando tecnicamente dimensionado, o sistema melhora a regularidade da produção, favorece o desenvolvimento das plantas e pode aumentar a longevidade do canavial.

A viabilidade do investimento deve considerar disponibilidade de água, características do solo, custos de energia, potencial produtivo e retorno esperado. A irrigação precisa fazer parte de um planejamento integrado, e não ser tratada como uma solução isolada.

Assistência técnica ajuda a controlar custos

Para Nathália Rabelo, analista de agronegócio do Sistema Faemg Senar, o acesso à tecnologia precisa ser acompanhado por planejamento e orientação especializada.

Análise de solo, escolha de variedades, manejo nutricional e monitoramento de pragas e doenças devem estar alinhados às condições específicas da propriedade.

A assistência técnica ajuda a transformar dados agronômicos em decisões mais eficientes, direcionando os recursos para os pontos de maior retorno. O acompanhamento também reduz desperdícios e melhora a precisão na aplicação dos insumos.

Rentabilidade depende da eficiência dentro e fora do campo

A safra maior de cana amplia a capacidade brasileira de produzir açúcar e etanol, mas também aumenta a necessidade de gestão comercial e controle de custos.

Para o consumidor, a maior oferta pode contribuir para preços mais competitivos nos postos. Para o produtor, entretanto, a rentabilidade dependerá da produtividade, da remuneração do ATR, das despesas com insumos e da eficiência operacional.

O mercado de etanol continuará sendo influenciado pela relação entre oferta e demanda, pelo consumo de combustíveis, pelos preços da gasolina, pela produção de etanol de milho e pelas decisões das usinas sobre o mix de produção.

Por trás das oscilações observadas nas bombas, permanece uma cadeia extensa, na qual o desempenho econômico começa com o planejamento e o manejo dos canaviais.

Fonte: Portal do Agronegócio

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