Açúcar sobe nas bolsas internacionais com risco climático na Índia e previsão de déficit global; mercado brasileiro segue pressionado
Cotações do açúcar avançam em Nova York e Londres impulsionadas por preocupações com a oferta mundial, enquanto mercado físico brasileiro mantém ritmo lento e preços recuam no fechamento semanal.
Publicado em: 03/08/2026 às 11:20hs
As cotações internacionais do açúcar iniciaram agosto em recuperação, sustentadas por novas preocupações com o clima na Índia, pelo avanço das projeções de um déficit global na safra 2026/27 e pelos riscos associados ao fenômeno El Niño. Depois de encerrar a última semana em alta nas bolsas internacionais, o mercado voltou a registrar valorização nesta segunda-feira (3), enquanto o mercado físico brasileiro continua operando de forma mais cautelosa.
O cenário reforça a expectativa de maior volatilidade para a commodity nos próximos meses, em um momento em que investidores acompanham atentamente as condições climáticas dos principais países produtores e o equilíbrio entre oferta e demanda no mercado global.
Açúcar avança em Nova York e Londres
Na ICE Futures US, em Nova York, os contratos futuros do açúcar bruto registraram valorização após as perdas observadas nos últimos pregões.
Na sexta-feira (31), o contrato com vencimento em outubro de 2026 fechou cotado a 14,66 cents de dólar por libra-peso, com alta de 0,23 ponto. O contrato março de 2027 avançou para 15,53 cents/lbp, enquanto o vencimento maio de 2027 encerrou a 15,35 cents/lbp.
O movimento positivo ganhou força na abertura desta segunda-feira (3). Por volta das 8h40 (horário de Brasília), o contrato outubro era negociado a 14,89 cents por libra-peso, avanço de 23 pontos. Já o contrato março de 2027 atingia 15,77 cents/lbp, alta de 24 pontos.
Na ICE Europe, em Londres, o açúcar branco também apresentou recuperação consistente. Na sexta-feira, o contrato outubro encerrou a US$ 461,60 por tonelada, enquanto dezembro fechou a US$ 461,50 e março de 2027 a US$ 463,10.
Nesta segunda-feira, o movimento de valorização continuou. O contrato outubro chegou a US$ 471,90 por tonelada, enquanto dezembro era negociado a US$ 469,10, refletindo o fortalecimento das expectativas de um mercado global mais apertado.
Clima na Índia volta a preocupar investidores
O principal fator de sustentação das cotações continua sendo o clima na Índia, segundo maior produtor mundial de açúcar.
O Departamento Meteorológico indiano informou que as chuvas da temporada de monções previstas para agosto e setembro deverão permanecer abaixo da média histórica. O Ministério de Ciências da Terra do país também alertou para a possibilidade de a atual temporada registrar o pior desempenho dos últimos onze anos.
Embora as precipitações tenham apresentado melhora nas últimas semanas — reduzindo o déficit acumulado de 42% no final de junho para cerca de 13% até 31 de julho — o mercado segue atento à evolução do clima, já que qualquer redução na disponibilidade hídrica pode comprometer o desenvolvimento dos canaviais.
Nos últimos dias, a melhora temporária das chuvas chegou a pressionar as cotações internacionais diante da expectativa de uma safra mais robusta. Entretanto, as novas previsões climáticas voltaram a alimentar preocupações sobre a oferta mundial.
El Niño amplia riscos para a produção global
Outro fator que mantém os investidores em alerta é a evolução do fenômeno El Niño.
Modelos climáticos internacionais indicam que o evento poderá ganhar intensidade ao longo dos próximos meses, elevando o risco de períodos prolongados de seca em importantes regiões produtoras de açúcar, como Brasil, Índia e Tailândia.
Caso o cenário se confirme, a produtividade dos canaviais poderá ser reduzida, limitando a oferta global da commodity justamente em um momento em que o mercado já projeta menor disponibilidade para a próxima temporada.
Mercado pode sair do superávit para déficit em 2026/27
As projeções para o balanço mundial também reforçam o viés de alta dos preços.
Levantamento realizado pela Reuters junto a operadores e analistas indica que o mercado global deverá migrar de um superávit estimado em 4,78 milhões de toneladas na safra 2025/26 para um déficit próximo de 800 mil toneladas em 2026/27.
Segundo a analista Livea Coda, da Hedgepoint, os impactos climáticos já observados e a perspectiva de intensificação do El Niño no Hemisfério Norte tendem a restringir a oferta mundial de açúcar na próxima temporada.
Para o Centro-Sul do Brasil, a expectativa é de produção próxima de 40 milhões de toneladas, ligeiramente inferior à safra anterior. Apesar da previsão de aumento na moagem de cana, a participação da matéria-prima destinada à fabricação de açúcar deverá cair para cerca de 47%, refletindo o maior direcionamento da cana para a produção de etanol.
Na Índia, por outro lado, a estimativa aponta produção de aproximadamente 29,4 milhões de toneladas, superior ao volume previsto para a safra anterior. Ainda assim, a evolução do clima continuará sendo determinante para confirmar esse potencial produtivo.
Mercado físico brasileiro mantém ritmo moderado
Enquanto o mercado internacional reage às incertezas globais, o mercado físico brasileiro segue apresentando comportamento mais conservador.
O indicador do açúcar cristal branco CEPEA/ESALQ registrou queda de 0,97% no fechamento da última semana, com a saca de 50 quilos negociada a R$ 91,50 no mercado paulista.
Apesar do recuo no último pregão de julho, o indicador acumulou alta de 0,25% no mês, encerrando o período equivalente a US$ 18,03 por saca.
Segundo agentes do setor, o ritmo moderado das negociações no mercado doméstico continua limitando movimentos mais expressivos de valorização, mesmo diante do cenário internacional mais favorável.
Perspectivas para o mercado do açúcar
O mercado internacional do açúcar entra em agosto sustentado por um conjunto de fatores altistas, incluindo as incertezas sobre a safra indiana, os possíveis impactos do El Niño e as projeções de déficit global em 2026/27.
No Brasil, entretanto, a dinâmica permanece mais ligada ao comportamento da demanda interna, ao mix de produção das usinas entre açúcar e etanol e ao avanço da moagem no Centro-Sul.
Caso as preocupações climáticas se intensifiquem e as estimativas de menor oferta mundial se confirmem, o mercado poderá manter viés positivo para os preços internacionais ao longo do segundo semestre, embora o comportamento do mercado físico brasileiro continue dependente do ritmo das negociações domésticas e da estratégia comercial das usinas.
Fonte: Portal do Agronegócio
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