Açúcar sobe 20% no ano com oferta global menor e petróleo acima de US$ 100
Queda na produção da Tailândia e da Europa, maior competitividade do etanol e posição comprada dos fundos sustentam Nova York, mas ampliam o risco de correções
Publicado em: 14/09/2026 às 18:40hs
O mercado internacional de açúcar ganhou sustentação com a perspectiva de menor oferta global e a forte valorização do petróleo. Ao longo da semana, as cotações em Nova York chegaram a superar importantes níveis de resistência, mas perderam força na sexta-feira após a correção do barril, confirmando a influência crescente do mercado de energia sobre os futuros da commodity.
Segundo análise semanal de Arnaldo Luiz Corrêa, da Archer Consulting, o açúcar acumula valorização próxima de 20% em 2026 e registrou em agosto o melhor desempenho mensal desde 2010, com avanço de 21,5%.
A combinação de problemas climáticos em importantes países produtores, déficit global, redução das exportações brasileiras e petróleo acima de US$ 100 por barril mantém o cenário favorável aos preços. Em contrapartida, o elevado volume de posições compradas pelos fundos deixa o mercado vulnerável a uma realização de lucros.
Tailândia reduz previsão da safra de açúcar
A Thai Sugar Millers Corporation reduziu a estimativa para a produção de açúcar da Tailândia na temporada 2026/27. A projeção passou de 12 milhões para menos de 10 milhões de toneladas.
A revisão considera a seca associada ao El Niño no nordeste do país, região que responde por aproximadamente 45% da produção tailandesa. Outro fator é a transferência de áreas de cultivo para a mandioca, que apresenta preços mais atrativos aos agricultores.
Como a Tailândia ocupa a segunda posição entre os maiores exportadores mundiais de açúcar, a redução estimada para a safra pode limitar ainda mais a disponibilidade do produto no comércio internacional.
A Organização Internacional do Açúcar (ISO) projeta déficit global próximo de 260 mil toneladas no ciclo. Embora o volume seja relativamente pequeno diante do consumo mundial, a retração ocorre em um ambiente de estoques ajustados e problemas produtivos em diferentes origens.
Produção europeia pode cair 19% na safra 2026/27
A perspectiva de menor oferta também alcança a União Europeia. A Comissão Europeia reduziu em 19% sua estimativa para a produção de açúcar na temporada 2026/27, agora calculada em 13,4 milhões de toneladas.
A seca nas principais regiões produtoras está entre os fatores responsáveis pela revisão. Na Ásia, além das perdas projetadas para a Tailândia, o mercado acompanha as medidas adotadas pela Índia para facilitar a importação de açúcar bruto.
Esse conjunto de fatores ajudou a impulsionar o índice de preços do açúcar da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). O indicador avançou 11,9% em agosto, alcançando 106,4 pontos e registrando a maior alta entre os componentes do índice de alimentos.
Diante desse cenário, um banco norte-americano manteve recomendação de compra para o açúcar, com projeções de 17 centavos de dólar por libra-peso no horizonte de três meses e 19 centavos em 12 meses.
Petróleo acima de US$ 100 fortalece paridade do etanol
Se a oferta abriu a semana como principal fator de alta, o petróleo assumiu o protagonismo a partir de quarta-feira. O agravamento do conflito no Golfo elevou as preocupações com a produção e o transporte da commodity.
A refinaria de Jazan, da Saudi Aramco, com capacidade de processamento de 400 mil barris por dia, foi atingida pela segunda vez em um mês. Ao mesmo tempo, o tráfego pelo Estreito de Ormuz caiu para aproximadamente dez embarcações por dia.
Nesse ambiente, o petróleo Brent rompeu a barreira de US$ 100 por barril na quarta-feira, quando encerrou cotado a US$ 101,21, alta de 3,36%. Durante a semana, chegou a US$ 108, enquanto o WTI alcançou US$ 102.
O Brent acumulou valorização semanal de aproximadamente 11%, antes de recuar 3% na sexta-feira. A correção ocorreu após notícias sobre negociações entre chanceleres do Oriente Médio para uma possível trégua temporária com o Irã e a reabertura da passagem pelo Estreito de Ormuz.
Apesar do recuo, o petróleo encerrou a semana acima de US$ 100 pela primeira vez desde meados de maio.
Petróleo caro pode reduzir produção de açúcar no Brasil
A valorização do petróleo melhora a competitividade do etanol produzido no Centro-Sul brasileiro. Com a paridade mais favorável ao biocombustível, as usinas podem direcionar uma parcela maior da cana-de-açúcar para a produção de etanol, reduzindo a disponibilidade de matéria-prima para o açúcar.
Essa possibilidade aumenta a relevância do chamado mix de produção nas usinas e oferece sustentação adicional às cotações internacionais.
A menor oferta brasileira já aparece no comércio exterior. Em agosto, as exportações nacionais de açúcar ficaram 27% abaixo do volume registrado no mesmo mês do ano anterior.
Dessa forma, o petróleo passou a exercer influência direta sobre os futuros do açúcar. Quando o barril avança, cresce a percepção de que as usinas brasileiras podem produzir mais etanol. Quando recua, o mercado tende a reduzir parte desse prêmio.
Açúcar testa 18,88 centavos em Nova York
O contrato do açúcar com vencimento em outubro de 2026 avançou de 18,22 centavos de dólar por libra-peso na quarta-feira para 18,40 centavos no pregão seguinte.
Na máxima semanal, a cotação chegou a 18,88 centavos, superando as resistências técnicas de 18,48, 18,67 e 18,77 centavos indicadas no comentário anterior da Archer Consulting.
A queda do petróleo na sexta-feira, entretanto, provocou uma reação imediata. O contrato outubro encerrou a semana cotado a 18,15 centavos por libra-peso.
O vencimento março de 2027 alcançou a máxima de 19,90 centavos, mas terminou o período a 19,15 centavos. A oscilação reforçou a correlação entre açúcar e petróleo nos movimentos de alta e de baixa.
Fundos aumentam posições compradas e mercado fica vulnerável
A atuação dos fundos especulativos foi outro fator determinante para a valorização recente. Segundo os dados apresentados, os investidores saíram de uma posição vendida próxima de 120 mil lotes no final de julho para mais de 132 mil lotes comprados em 1º de setembro.
O volume equivale a aproximadamente 12,7 milhões de toneladas de açúcar e ajuda a explicar o avanço de 13% no preço médio do Indicador ISA em agosto, para 17,40 centavos de dólar por libra-peso.
Em 8 de setembro, os fundos estavam comprados em 160.551 contratos, aumento de aproximadamente 28 mil posições em apenas uma semana.
O ingresso de capital especulativo favorece a recuperação das cotações, mas também eleva o risco de uma correção técnica. Caso os fundos decidam realizar lucros simultaneamente, o volume de vendas pode provocar quedas mais intensas no curto prazo.
Na avaliação de Corrêa, esse posicionamento reforça a importância de os produtores aproveitarem as altas para ampliar a proteção de preços da safra 2026/27.
Paquistão volta ao mercado com leilão de exportação
Outro ponto de atenção é o Paquistão. A estatal Trading Corporation of Pakistan abriu um leilão internacional para exportar aproximadamente 108 mil toneladas de açúcar branco importado no ciclo anterior e ainda disponível nos estoques.
As propostas poderão ser apresentadas até 28 de setembro. O volume pode gerar pressão pontual sobre as cotações, principalmente se for ofertado em um período de menor liquidez.
A operação também evidencia as mudanças frequentes da política açucareira paquistanesa. No mesmo ciclo, o país autorizou 790 mil toneladas em exportações e, posteriormente, liberou a importação de até 500 mil toneladas.
Para a Archer Consulting, essas decisões refletem dificuldades na estimativa da demanda doméstica e podem produzir ruídos adicionais no mercado internacional.
Importações de açúcar pela Índia seguem pouco competitivas
Na Índia, a ampliação da cota tarifária e a prorrogação do prazo para importação ainda não foram suficientes para viabilizar volumes expressivos.
Refinarias localizadas em regiões portuárias assumiram compromissos envolvendo aproximadamente 260 mil toneladas, mas somente alguns milhares de toneladas chegaram efetivamente ao mercado interno.
Depois de processado, o açúcar importado apresenta custo superior a 55 rúpias por quilo, equivalente a cerca de 26 centavos de dólar por libra-peso, antes das despesas logísticas.
O valor supera os preços internos indianos, que recuaram para uma faixa entre 44 e 50 rúpias por quilo, ou aproximadamente 20 a 23 centavos de dólar por libra-peso. Essa diferença limita a atratividade econômica das compras externas.
Avaliação da ISO gera debate no mercado
Apesar da perspectiva de déficit, a ISO avaliou que os preços internacionais estariam desconectados dos fundamentos do mercado.
Corrêa considera a afirmação incomum por partir de uma organização intergovernamental formada por 85 países, entre eles grandes consumidores e importadores interessados em preços mais baixos.
Na avaliação do consultor, manifestações desse tipo podem influenciar o próprio comportamento dos agentes. Independentemente da discussão institucional, o elevado posicionamento comprado dos fundos confirma que o mercado está mais exposto a movimentos de correção.
Análise técnica aponta resistências próximas de 19 centavos
No curto prazo, o contrato outubro de 2026 encontra resistências em 18,48, 18,84, 18,88 e 19,15 centavos de dólar por libra-peso, segundo análise técnica de Marcelo Moreira.
Os principais suportes estão localizados em 17,90, 17,67, 17,16, 16,92, 16,31 e 15,33 centavos por libra-peso.
Esses níveis ganham importância em um mercado que passou a reagir rapidamente às oscilações do petróleo e às notícias sobre o conflito no Oriente Médio.
Oferta apertada sustenta açúcar, mas riscos aumentam
O mercado de açúcar chega à nova semana apoiado por fundamentos mais firmes. A redução da produção na Tailândia e na Europa, o déficit global projetado, a queda das exportações brasileiras e o petróleo valorizado sustentam a perspectiva de preços mais elevados.
Ao mesmo tempo, a elevada posição comprada dos fundos concentra riscos e pode ampliar eventuais correções. Para os produtores que ainda não fixaram preços, a recomendação da Archer Consulting é aproveitar os repiques para elevar os níveis de hedge da safra 2026/27, sem acelerar vendas sobre volumes já protegidos.
O Estreito de Ormuz permanece como o principal fator externo a ser monitorado. Uma trégua capaz de normalizar o tráfego marítimo poderia reduzir os preços do petróleo, enfraquecer a paridade do etanol e retirar parte da sustentação recente do açúcar.
A recuperação observada desde abril também confirma a reação da oferta aos preços inferiores aos custos de produção. Depois de permanecer entre 13 e 14 centavos por libra-peso, o açúcar encontrou no aperto produtivo e no mercado de energia os gatilhos necessários para avançar.
Neste momento, os fundamentos continuam no comando, mas o petróleo ocupa o banco do motorista — e os fundos especulativos seguem prontos para acelerar ou frear o mercado.
Fonte: Portal do Agronegócio
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