Setor Sucroalcooleiro

Açúcar oscila entre pressão da safra recorde e preocupações climáticas globais; mercado busca novo equilíbrio

Oferta crescente no Centro-Sul do Brasil pressiona preços internos, enquanto incertezas sobre a produção na Índia e o avanço do El Niño sustentam recuperação das cotações internacionais


Publicado em: 02/06/2026 às 11:20hs

Açúcar oscila entre pressão da safra recorde e preocupações climáticas globais; mercado busca novo equilíbrio

O mercado do açúcar iniciou junho dividido entre dois fatores determinantes para a formação dos preços: de um lado, a forte expansão da oferta brasileira, que continua pressionando os valores no mercado interno; de outro, as preocupações com o clima em importantes regiões produtoras globais, especialmente na Índia, que vêm oferecendo suporte às cotações internacionais.

No Brasil, os preços do açúcar cristal registraram forte retração ao longo de maio, refletindo o avanço da moagem da safra 2026/27 no Centro-Sul e a postura cautelosa dos compradores. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostram que o Indicador CEPEA/ESALQ para o açúcar cristal, com cor Icumsa entre 130 e 180, acumulou queda de 5% no mês passado.

Segundo pesquisadores do Cepea, a liquidez permaneceu enfraquecida durante grande parte do período, com compradores aguardando novas desvalorizações diante da perspectiva de uma safra robusta e de maior disponibilidade do produto no mercado.

Safra brasileira reforça cenário de ampla oferta

As expectativas de oferta abundante ganharam ainda mais força após a divulgação dos números da safra pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica).

Até o início de maio, as usinas do Centro-Sul haviam produzido 2,475 milhões de toneladas de açúcar na temporada 2026/27, volume 55,3% superior ao registrado no mesmo período da safra anterior.

O avanço da produção consolida o Brasil como principal vetor de abastecimento global da commodity e amplia a pressão sobre os preços domésticos, especialmente em um ambiente de demanda mais seletiva.

Mercado internacional reage e inicia junho em alta

Apesar da pressão vinda do aumento da produção brasileira, os contratos futuros do açúcar iniciaram junho em recuperação nas bolsas internacionais.

Na Bolsa de Nova York (ICE Futures US), o contrato julho/2026 do açúcar bruto encerrou o pregão cotado a 14,45 centavos de dólar por libra-peso, com valorização diária de 2,77%. O vencimento outubro/2026 fechou a 14,94 centavos por libra-peso, também registrando ganhos consistentes.

O movimento foi acompanhado pelo mercado europeu. Na ICE Europe, o contrato agosto/2026 do açúcar branco avançou para US$ 450,00 por tonelada, enquanto os vencimentos seguintes também registraram altas expressivas.

A valorização internacional foi impulsionada principalmente pela recuperação dos preços do petróleo e pelas preocupações com a oferta global.

Petróleo fortalece competitividade do etanol

O avanço das cotações do petróleo continua influenciando diretamente o mercado sucroenergético.

Com energia mais cara, aumenta a atratividade da produção de etanol pelas usinas, reduzindo potencialmente a quantidade de cana destinada à fabricação de açúcar. Esse movimento costuma ser interpretado pelo mercado como um fator de sustentação para os preços da commodity.

A correlação entre petróleo, etanol e açúcar tem sido um dos principais elementos observados pelos investidores nas últimas semanas.

Índia e El Niño seguem no radar dos investidores

Outro fator relevante para a recuperação dos preços internacionais é a crescente preocupação com o clima na Índia, segundo maior produtor mundial de açúcar.

Projeções meteorológicas apontam para uma possível monção enfraquecida em 2026, associada aos efeitos do fenômeno El Niño. Caso as previsões se confirmem, o país poderá registrar o menor volume de chuvas dos últimos 11 anos.

A possibilidade de redução na produtividade dos canaviais indianos tem sido monitorada de perto pelo mercado internacional, uma vez que qualquer impacto relevante na produção pode reduzir a oferta global e favorecer novas altas nas cotações.

Analistas destacam que, embora a safra brasileira siga avançando em ritmo acelerado, os riscos climáticos na Ásia permanecem como um importante fator de suporte para os preços futuros.

Mercado físico brasileiro mostra reação

Após um mês marcado por perdas expressivas, o mercado físico brasileiro começou junho com sinais de recuperação.

O indicador do açúcar cristal branco em São Paulo, calculado pelo CEPEA/ESALQ, registrou valorização de 1,37% no primeiro pregão do mês, com a saca de 50 quilos sendo negociada a R$ 94,27.

Embora o movimento ainda não altere o cenário predominante de ampla oferta, a recuperação demonstra que os preços podem encontrar suporte caso as preocupações climáticas globais ganhem força nas próximas semanas.

Etanol apresenta leve ajuste

No segmento de biocombustíveis, o Indicador Diário Paulínia apontou o etanol hidratado a R$ 2.335,00 por metro cúbico, registrando recuo de 0,70% na comparação diária.

O comportamento do etanol continuará sendo acompanhado pelo mercado, especialmente em função das oscilações do petróleo e da estratégia de mix de produção adotada pelas usinas ao longo da safra.

Perspectivas

O mercado do açúcar entra em junho em um momento de transição. Enquanto a produção brasileira recorde mantém a pressão sobre os preços internos, os riscos climáticos na Índia e a influência do petróleo criam um ambiente de maior sustentação para as cotações internacionais.

Nos próximos meses, a evolução do El Niño, o comportamento das monções asiáticas e o ritmo da moagem no Centro-Sul deverão definir a direção dos preços e o equilíbrio entre oferta e demanda no mercado global de açúcar.

Fonte: Portal do Agronegócio

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