Açúcar dispara no mercado internacional com menor safra no Brasil e risco de déficit global
Produção de açúcar no Centro-Sul brasileiro recua 26,3% em junho, enquanto clima seco, El Niño e maior direcionamento de cana para etanol elevam as preocupações com a oferta mundial
Publicado em: 11/08/2026 às 10:10hs
O mercado internacional de açúcar ganhou força diante do aumento das preocupações com a oferta global. A combinação entre uma safra menor no Brasil, condições climáticas adversas em importantes produtores da Ásia e a possibilidade de maior direcionamento de cana-de-açúcar para a produção de etanol vem sustentando a recuperação das cotações nas bolsas de Nova York e Londres.
Na última quinta-feira, o contrato de açúcar bruto nº 11 da ICE de Nova York para outubro de 2026 avançou 2,77%, para 15,57 centavos de dólar por libra-peso. No mesmo vencimento, o açúcar branco nº 5 negociado em Londres subiu 2,10%, para US$ 487,30 por tonelada.
O movimento levou o açúcar de Nova York ao maior nível em aproximadamente quatro meses e meio para o contrato mais próximo, enquanto Londres atingiu a maior cotação em cerca de um mês.
Produção de açúcar do Brasil despenca no Centro-Sul
Um dos principais gatilhos para a valorização foi o desempenho da produção brasileira.
Dados da UNICA mostraram que as usinas do Centro-Sul produziram 3,903 milhões de toneladas de açúcar em junho, queda de 26,3% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
O Brasil é o maior produtor e exportador mundial da commodity, fazendo com que alterações na oferta brasileira tenham impacto direto sobre os preços internacionais.
O resultado também reforçou as preocupações de que a oferta global possa ficar mais apertada ao longo da temporada 2026/27.
Depois de os contratos testarem mínimas de cinco meses na semana anterior, o mercado passou a reagir às novas estimativas de produção e às condições climáticas.
Projeções apontam para déficit global de açúcar
Diferentes consultorias revisaram para cima suas estimativas de déficit mundial de açúcar.
A Covrig Analytics passou a projetar um déficit de 300 mil toneladas para a safra 2026/27, revertendo a previsão anterior de superávit de 100 mil toneladas.
A Green Pool Commodity Specialists também aumentou sua estimativa de déficit, de 1,76 milhão para 3,3 milhões de toneladas.
Já a StoneX elevou sua previsão de déficit global de 550 mil toneladas para 1,7 milhão de toneladas.
As revisões mostram uma mudança significativa na percepção do mercado. Até recentemente, as expectativas de uma oferta global confortável limitavam o espaço para altas mais consistentes das cotações.
Agora, a possibilidade de um balanço mais apertado volta a colocar o açúcar no radar dos investidores.
El Niño aumenta risco para produção global
Além do Brasil, o mercado acompanha atentamente o clima na Ásia.
A Índia, segundo maior produtor mundial de açúcar, enfrenta preocupações relacionadas ao comportamento das monções. O Departamento Meteorológico do país sinalizou que as chuvas previstas para agosto e setembro podem ficar abaixo da média.
O período de monções, entre junho e setembro, é fundamental para o desenvolvimento dos canaviais indianos.
O cenário ganha importância diante da influência do El Niño, fenômeno climático que tende a reduzir as chuvas em importantes regiões produtoras de cana, incluindo Brasil, Índia e Tailândia.
O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos avalia que o episódio de El Niño estabelecido no Pacífico pode estar entre os mais fortes registrados em décadas.
O serviço meteorológico indiano também reduziu sua estimativa de precipitação acumulada de longo prazo, ampliando as preocupações com a oferta agrícola.
Chuvas na Índia aliviam parte das preocupações
Apesar do cenário climático adverso, houve momentos recentes de alívio no mercado.
Em 5 de agosto, o volume acumulado de chuvas na Índia estava 11% abaixo da média histórica, uma melhora significativa em relação ao déficit de 42% registrado em 30 de junho.
A recuperação das precipitações contribuiu para limitar temporariamente a alta do açúcar e chegou a levar os contratos de Nova York a testar mínimas de cinco meses.
O comportamento mostra que o clima continuará sendo um dos principais fatores de volatilidade para a commodity.
Qualquer mudança nas previsões de chuva na Índia, Brasil ou Tailândia pode provocar ajustes rápidos nas cotações.
Etanol ganha espaço na estratégia das usinas brasileiras
Outro fator importante para o mercado é a relação entre açúcar, etanol e petróleo.
A comercializadora Czarnikow revisou sua estimativa para o balanço global de açúcar em 2026/27. A projeção passou de um superávit de 1,4 milhão de toneladas para um déficit de 100 mil toneladas.
A mudança está relacionada, entre outros fatores, à possibilidade de maior direcionamento da cana brasileira para a produção de etanol.
Com o petróleo em alta em meio às tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã, a produção de biocombustíveis ganha competitividade e pode alterar o mix de produção das usinas.
Quando o etanol apresenta maior rentabilidade, as unidades produtoras têm maior incentivo para destinar parte da matéria-prima à fabricação do combustível, reduzindo potencialmente a disponibilidade de açúcar para exportação.
Conab prevê menor produção brasileira de açúcar
As projeções oficiais brasileiras também apontam para uma produção ligeiramente menor.
A Conab estima que a produção nacional de açúcar na temporada 2026/27 fique em aproximadamente 43,952 milhões de toneladas, queda de 0,5%.
Ao mesmo tempo, a produção de etanol deve crescer 7,2%, alcançando 29,259 bilhões de litros.
A combinação é relevante para o mercado internacional porque indica um possível aumento da competição pela cana disponível entre a produção de açúcar e a fabricação de biocombustíveis.
Índia pode ampliar produção na próxima safra
Na Índia, as perspectivas são diferentes.
A Associação de Fabricantes de Açúcar e Bioenergia da Índia (ISMA) revisou a produção da temporada 2025/26 para 32 milhões de toneladas, com exportações estimadas em 800 mil toneladas dentro do regime de cotas.
Para 2026/27, entretanto, o USDA trabalha com uma expectativa de recuperação da produção indiana.
A estimativa aponta para 33,6 milhões de toneladas, aumento de 12%, impulsionado principalmente pela expansão da área plantada.
Caso a projeção se confirme, a Índia poderá apresentar um superávit de aproximadamente 2,5 milhões de toneladas, o primeiro saldo positivo em dois anos.
Esse aumento poderia contribuir para compensar parcialmente as perdas esperadas em outras regiões produtoras.
Tailândia deve registrar forte queda na produção
A situação da Tailândia, terceiro grande exportador mundial de açúcar, também preocupa o mercado.
O Foreign Agricultural Service (FAS) do USDA projeta queda de 15,6% na produção tailandesa, para aproximadamente 9,5 milhões de toneladas em 2026/27.
A redução aumenta a importância da oferta brasileira no comércio internacional e pode limitar a disponibilidade global para exportação.
Brasil, Índia e Tailândia são responsáveis por uma parcela significativa do mercado mundial, fazendo com que alterações simultâneas nas três regiões tenham potencial para provocar forte volatilidade nos preços.
Produção mundial deve recuar em 2026/27
As projeções consolidadas do USDA apontam para uma produção mundial de 184,854 milhões de toneladas de açúcar em 2026/27, abaixo do recorde de 186,056 milhões de toneladas estimado para 2025/26.
Ao mesmo tempo, o consumo global deve crescer 0,4%, alcançando o recorde de 179,991 milhões de toneladas.
A combinação entre menor produção e aumento do consumo reduz a folga existente no balanço mundial e aumenta a sensibilidade dos preços a eventuais problemas climáticos.
A Organização Internacional do Açúcar (ISO) também revisou suas perspectivas.
Depois de estimar produção recorde de 182 milhões de toneladas e superávit de 2,2 milhões de toneladas em 2025/26, a entidade projeta queda de 1,15% na produção global em 2026/27, com déficit estimado em 262 mil toneladas.
Mercado de açúcar volta a ficar dependente do clima
O cenário atual coloca o clima no centro das decisões do mercado.
No Brasil, a menor produção observada no Centro-Sul reforça as preocupações com a oferta. Na Índia, o comportamento das monções será determinante para a produtividade da cana. Na Tailândia, a expectativa de forte queda na produção reduz a disponibilidade de exportação.
Ao mesmo tempo, o El Niño pode ampliar os riscos climáticos em diferentes regiões produtoras.
Por isso, qualquer deterioração das condições das lavouras poderá provocar novas revisões nas estimativas de produção e, consequentemente, pressionar os preços internacionais.
Açúcar entra em nova fase de volatilidade
Depois de atingir mínimas de cinco meses, o mercado de açúcar voltou a ganhar força e passou a precificar um cenário de oferta potencialmente mais restrita.
A queda da produção brasileira no Centro-Sul, as preocupações com as monções indianas, a menor oferta esperada na Tailândia, o El Niño e a possibilidade de maior produção de etanol formam uma combinação capaz de sustentar as cotações.
Por outro lado, uma recuperação das chuvas na Índia, aumento da produção no país e eventual melhora das condições das lavouras brasileiras podem limitar novas altas.
Para os próximos meses, o mercado deverá acompanhar principalmente produção brasileira, moagem de cana, mix entre açúcar e etanol, clima na Índia e Tailândia, comportamento do petróleo e evolução do El Niño.
Principais fatores que sustentam o preço do açúcar
- Brasil: produção de açúcar no Centro-Sul caiu 26,3% em junho;
- USDA: produção mundial projetada em 184,854 milhões de toneladas em 2026/27;
- Consumo mundial: estimado em 179,991 milhões de toneladas;
- Brasil: USDA prevê produção de 42,5 milhões de toneladas;
- Tailândia: produção projetada em 9,5 milhões de toneladas, queda de 15,6%;
- Índia: produção estimada em 33,6 milhões de toneladas, alta de 12%;
- Conab: produção brasileira de açúcar estimada em 43,952 milhões de toneladas;
- Etanol: produção brasileira projetada em alta de 7,2%;
- ISO: déficit global estimado em 262 mil toneladas;
- StoneX: déficit global projetado em 1,7 milhão de toneladas;
- Green Pool: déficit estimado em 3,3 milhões de toneladas;
- Clima: El Niño aumenta os riscos para importantes produtores de cana.
Perspectiva para o açúcar
O mercado internacional de açúcar entra em uma fase de maior atenção aos fundamentos de oferta. A recuperação das cotações ocorre justamente quando diferentes instituições passam a trabalhar com déficits globais para 2026/27.
Para o Brasil, a evolução da moagem no Centro-Sul e a decisão das usinas sobre o mix açúcar/etanol serão determinantes. No exterior, o comportamento das monções na Índia, a produção da Tailândia e a intensidade do El Niño devem definir o grau de aperto do balanço mundial.
Diante desse cenário, o açúcar volta a apresentar potencial de volatilidade elevada, com o clima e a oferta brasileira entre os principais fatores capazes de direcionar os preços nas bolsas internacionais.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias