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Setor Sucroalcooleiro

Açúcar dispara 15%, recupera margem das usinas e ganha força com risco de oferta global menor

Contratos atingem máximas de 15 meses em Nova York diante da possibilidade de importações pela Índia, chuvas abaixo da média na Ásia e queda na produção brasileira; valorização volta a estimular vendas e pode acelerar exportações


Publicado em: 19/08/2026 às 11:10hs

Açúcar dispara 15%, recupera margem das usinas e ganha força com risco de oferta global menor

O mercado mundial de açúcar mudou de direção e voltou a oferecer margens positivas às usinas. Após acumular valorização próxima de 15% em duas semanas, a commodity ampliou os ganhos nesta terça-feira (18), impulsionada pelo aumento das preocupações com a oferta na safra 2026/27.

Os contratos futuros atingiram os maiores níveis em 15 meses na Bolsa de Nova York, enquanto o açúcar branco registrou fortes avanços em Londres. No Brasil, o indicador do cristal CEPEA/ESALQ subiu mais de 2% no dia e acumulou valorização superior a 11% em agosto.

O movimento combina riscos climáticos na Índia e na Tailândia, impactos do calor sobre a beterraba europeia e redução da produção no Centro-Sul brasileiro. A possibilidade de a Índia diminuir tarifas de importação também reforçou a percepção de que o balanço global pode ficar mais apertado do que o projetado anteriormente.

Açúcar bruto alcança máxima de 15 meses em Nova York

Na ICE Futures U.S., os contratos do açúcar bruto encerraram o pregão com altas generalizadas. O vencimento outubro de 2026 avançou 0,60 centavo, equivalente a 3,5%, e fechou cotado a 17,47 centavos de dólar por libra-peso.

O contrato março de 2027 subiu 0,57 centavo, ou aproximadamente 3,2%, para 18,46 centavos por libra-peso. Maio de 2027 ganhou 0,46 centavo e terminou a sessão a 18,03 centavos por libra-peso.

Os demais vencimentos também fecharam em terreno positivo, com ganhos entre 0,05 e 0,36 centavo, de acordo com dados da CZ App.

A valorização levou os contratos futuros às maiores cotações em 15 meses, consolidando a recuperação observada desde o início de agosto.

Açúcar branco também registra forte alta em Londres

Na ICE Futures Europe, o mercado de açúcar branco acompanhou o avanço de Nova York, mas apresentou ganhos nominais ainda mais expressivos.

O contrato outubro de 2026 subiu US$ 16,50 e encerrou negociado a US$ 539,50 por tonelada. Dezembro de 2026 avançou US$ 15,50, para US$ 534,60 por tonelada, enquanto março de 2027 ganhou US$ 14,40 e terminou a US$ 534,00.

Nos vencimentos mais distantes, as altas variaram entre US$ 9,50 e US$ 12,90 por tonelada.

Índia pode voltar a importar açúcar após quase uma década

Um dos principais fatores de sustentação das cotações foi a informação de que a Índia avalia reduzir as tarifas de importação de açúcar. A medida teria como objetivo ampliar a disponibilidade doméstica e conter os preços antes do período de maior consumo relacionado às festas no país.

A eventual entrada da Índia no mercado comprador teria impacto relevante sobre o comércio internacional. Segundo maior produtor mundial, o país não realiza importações expressivas desde a temporada 2017/18.

Para os agentes do mercado, a possibilidade de compras indianas representa mais um sinal de que a oferta global está ajustada. Além de reduzir a disponibilidade para exportação, uma quebra ou diminuição da safra indiana poderia criar uma nova fonte de demanda no mercado internacional.

Chuvas abaixo da média ameaçam canaviais asiáticos

As condições climáticas na Ásia também passaram a ocupar o centro das atenções. Dados do Departamento Meteorológico da Índia indicaram que as chuvas de monção acumuladas entre junho e 17 de agosto estavam 13% abaixo da média histórica.

A irregularidade das precipitações aumenta os riscos para o desenvolvimento da cana-de-açúcar na Índia. A Tailândia, outro importante produtor e exportador, também enfrenta monções abaixo do padrão esperado.

Segundo Fabio Meneghin, engenheiro agrônomo e fundador da Veeries, as preocupações com as safras asiáticas estão entre os principais gatilhos da recente recuperação dos preços.

O possível fortalecimento do El Niño adiciona incerteza ao cenário. Analistas avaliam que seus efeitos sobre o regime de chuvas podem ampliar o déficit mundial de açúcar projetado para 2026/27.

Calor afeta produção de açúcar na Europa

Na Europa, o mercado monitora os efeitos de semanas consecutivas de temperaturas muito acima da média sobre as lavouras de beterraba.

Embora a cultura tenha apresentado resistência durante a fase inicial de calor, os impactos começaram a ficar mais visíveis. Uma eventual redução na produtividade europeia elevaria a necessidade de importações e aumentaria a disputa pelo açúcar disponível no mercado mundial.

Dessa forma, os problemas climáticos não estão concentrados em apenas uma região. Os riscos simultâneos na Ásia e na Europa aumentam a sensibilidade dos preços a qualquer nova revisão negativa de produção.

Produção brasileira de açúcar cai 17,6%

No Centro-Sul do Brasil, os números da segunda quinzena de julho também ajudaram a fortalecer as cotações internacionais.

A moagem de cana-de-açúcar recuou 8,4% em relação ao mesmo período do ciclo anterior, para 46,08 milhões de toneladas. A produção de açúcar caiu 17,6%, enquanto a fabricação de etanol cresceu 2,8%.

No acumulado da safra 2026/27 até o fim de julho, a moagem apresentou crescimento de 2,1%, mas a produção de açúcar diminuiu 12,4%. O resultado indica que uma parcela maior da matéria-prima foi destinada ao biocombustível.

O mix mais alcooleiro reduz a quantidade de açúcar disponível para exportação e adiciona suporte às cotações. A recuperação recente dos preços do etanol, depois de quatro meses de queda, também pode incentivar as usinas a preservar uma participação maior do biocombustível em suas estratégias produtivas.

Alta devolve margem às usinas brasileiras

A recuperação internacional trouxe uma mudança importante para a rentabilidade do setor sucroenergético. Levantamento da Veeries, elaborado com dados da ICE, mostra que o preço do açúcar VHP superou o custo estimado de produção pela primeira vez na atual safra.

Durante boa parte do ciclo, a curva de preços de 2026 permaneceu próxima do ponto de equilíbrio, limitando a disposição das usinas para fechar novas vendas. Com o avanço recente das cotações e o câmbio mais favorável às exportações, o cenário voltou a oferecer margem efetiva.

Essa diferença já estimula a retomada da comercialização. Como os embarques brasileiros estão atrasados, a expectativa é de aceleração das exportações nos próximos meses, especialmente se os preços internacionais permanecerem acima dos custos industriais e agrícolas.

Açúcar cristal sobe 11,77% em agosto no Brasil

No mercado físico brasileiro, o açúcar cristal branco manteve a trajetória de valorização. O Indicador CEPEA/ESALQ para São Paulo encerrou a terça-feira cotado a R$ 102,27 por saca de 50 quilos.

O preço avançou 2,33% na sessão e acumulou alta de 11,77% em agosto. Convertida para a moeda norte-americana, a referência ficou em US$ 19,59 por saca.

A elevação doméstica acompanha a recuperação das bolsas internacionais e reflete a menor oferta de açúcar, além da competição mais intensa da indústria de etanol pela cana.

Etanol recua no dia, mas acumula alta superior a 10% no mês

O Indicador Diário do Etanol Hidratado de Paulínia, em São Paulo, apresentou leve ajuste negativo. O metro cúbico foi negociado a R$ 2.347,50, queda de 0,19% no dia.

Apesar do recuo pontual, o biocombustível acumulou valorização de 10,21% em agosto. A reação mensal fortalece a capacidade de o etanol competir com o açúcar pela matéria-prima dentro das usinas.

Caso essa recuperação continue, o mix de produção poderá permanecer mais direcionado ao combustível, reduzindo o potencial de crescimento da oferta brasileira de açúcar.

Fundos voltam a apostar na valorização do açúcar

A mudança nos fundamentos também alterou o posicionamento dos investidores. Fundos e especuladores passaram a manter posição líquida comprada no açúcar bruto pela primeira vez desde o fim de 2024, movimento que representa uma aposta na continuidade da valorização.

Esse reposicionamento adiciona força financeira à alta iniciada pelos fatores de oferta. Entretanto, também pode elevar a volatilidade, principalmente diante de alterações nas previsões climáticas, na política comercial indiana ou no ritmo das exportações brasileiras.

Demanda global ainda limita otimismo

Embora o cenário de oferta tenha se tornado mais favorável aos preços, permanecem dúvidas sobre o comportamento da demanda mundial. A principal mudança recente está na incorporação, pelas cotações, de uma perspectiva de produção menor nos principais países fornecedores.

Para a continuidade da alta, o mercado deverá acompanhar a confirmação das perdas agrícolas, as decisões da Índia, o mix das usinas brasileiras e a capacidade dos consumidores de absorver preços mais elevados.

No curto prazo, a combinação entre menor produção, riscos climáticos e recuperação do etanol devolve poder de negociação às usinas. O cenário também cria condições para uma retomada mais intensa das vendas e dos embarques brasileiros de açúcar ao longo dos próximos meses.

Fonte: Portal do Agronegócio

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