Indústria de laticínios em Goiás transforma 1 milhão de litros de água de reuso por dia em produtividade no campo
Projeto da Marajoara Laticínios alia tratamento de efluentes, irrigação de pastagens e reaproveitamento de água, tornando-se referência em sustentabilidade na indústria de alimentos e no agronegócio brasileiro
Publicado em: 14/08/2026 às 07:00hs
Em um cenário de crescente preocupação com a segurança hídrica e a sustentabilidade da produção agroindustrial, uma iniciativa desenvolvida em Goiás demonstra como inovação e gestão ambiental podem caminhar lado a lado com a produtividade. A Marajoara Laticínios, localizada em Hidrolândia (GO), vem se consolidando como um exemplo de economia circular ao transformar resíduos industriais em recursos para a produção rural.
Desde 2018, a empresa mantém um projeto de reaproveitamento de água e nutrientes provenientes do tratamento de efluentes industriais, beneficiando produtores de leite da região e reduzindo significativamente o impacto ambiental de suas operações.
A iniciativa utiliza uma moderna Estação de Tratamento de Efluentes (ETE), permitindo que aproximadamente 1 milhão de litros de água de reuso sejam reaproveitados diariamente, contribuindo para irrigação de pastagens e preservação dos recursos hídricos.
Desperdício de água ainda é desafio no Brasil
Apesar de concentrar uma das maiores reservas de água doce do planeta, o Brasil ainda enfrenta elevados índices de desperdício.
Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) mostram que, somente em 2022, o país perdeu aproximadamente 7 bilhões de metros cúbicos de água em sistemas de abastecimento.
Considerando que o consumo médio por habitante no Brasil é de 154 litros por dia, conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU), esse volume desperdiçado seria suficiente para abastecer uma população de cerca de 124 mil pessoas durante um ano.
O cenário reforça a necessidade de ampliar investimentos em tecnologias de reutilização, eficiência hídrica e gestão sustentável da água, especialmente nos setores de maior consumo.
Indústria de alimentos está entre as maiores consumidoras de água
Segundo o Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a indústria é o terceiro maior consumidor de água do país.
Dentro desse segmento, aproximadamente 40,5% da água captada é destinada à produção de alimentos, percentual que tende a crescer com a expansão da agroindústria brasileira.
Em 2024, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a indústria nacional registrou crescimento de 8,4%, ampliando ainda mais a importância de práticas sustentáveis para garantir segurança hídrica e competitividade.
Tratamento de efluentes gera água de reuso e fertilizante natural
Na unidade industrial da Marajoara, toda a água utilizada no processo produtivo passa por uma Estação de Tratamento de Efluentes equipada com tecnologia de Flotação por Ar Dissolvido (FAD).
Segundo a empresa, o sistema permite atingir um nível de purificação superior a 90%, índice acima das exigências previstas pela legislação ambiental.
Durante esse processo, além da água tratada, é gerada uma biomassa orgânica rica em nutrientes, que passou a ser utilizada como fertilizante em propriedades rurais parceiras.
De acordo com Vinícius Junqueira, diretor-geral da Marajoara Laticínios, estudos técnicos comprovaram o potencial agronômico desse material.
"A biomassa resultante do tratamento é rica em nutrientes essenciais para o solo. Após estudos técnicos, passamos a destiná-la aos pastos de produtores rurais parceiros, contribuindo para a melhoria da fertilidade e da produtividade das áreas."
O transporte é realizado por caminhões-pipa até propriedades previamente cadastradas pela empresa.
Água tratada mantém pastagens verdes durante a seca
Além do reaproveitamento dos nutrientes, a água tratada também ganha uma nova finalidade.
Após passar pelo sistema de tratamento, ela é conduzida por tubulações até uma área de aproximadamente um quilômetro da indústria, destinada à criação de gado de corte.
No local, um moderno sistema de irrigação formado por cerca de 600 aspersores utiliza a água de reuso para manter as pastagens produtivas, inclusive durante os períodos mais críticos de estiagem.
Segundo a empresa, são distribuídos aproximadamente 75 mil litros de água por hora, durante ciclos de irrigação de até 12 horas, totalizando cerca de 1 milhão de litros reaproveitados diariamente.
Após cumprir sua função na irrigação, a água infiltra-se naturalmente no solo, contribuindo para a recarga do lençol freático e completando o ciclo hidrológico.
Projeto fortalece pecuária e preservação ambiental
O reaproveitamento da água tem proporcionado benefícios tanto para a indústria quanto para os produtores rurais da região.
Com pastagens irrigadas mesmo durante os períodos secos, os pecuaristas conseguem manter maior disponibilidade de alimento para os animais, reduzindo perdas de produtividade e aumentando a eficiência da atividade leiteira e da pecuária de corte.
Ao mesmo tempo, a iniciativa diminui a necessidade de descarte convencional dos efluentes industriais e reduz a pressão sobre os recursos hídricos naturais.
Iniciativa já recebeu reconhecimento nacional
A tecnologia adotada pela Marajoara foi submetida à avaliação técnica da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás, que validou a eficiência ambiental do projeto.
O reconhecimento também veio em nível nacional.
Em 2021, a iniciativa foi premiada pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea/Crea), conquistando o primeiro lugar na categoria Elementos Naturais, em reconhecimento às práticas inovadoras de sustentabilidade e gestão dos recursos hídricos.
Economia circular ganha espaço no agronegócio
Projetos como o desenvolvido pela Marajoara Laticínios demonstram que a economia circular já é uma realidade crescente dentro do agronegócio brasileiro.
Ao integrar tecnologia, reaproveitamento de recursos e parceria com produtores rurais, a iniciativa evidencia que sustentabilidade e produtividade podem caminhar juntas, fortalecendo a competitividade da cadeia agroindustrial.
Com a crescente demanda por alimentos produzidos de forma ambientalmente responsável, soluções voltadas ao tratamento de efluentes, reutilização da água e recuperação de nutrientes tendem a ocupar papel cada vez mais estratégico na evolução da pecuária e da indústria de alimentos no Brasil.
Fonte: Portal do Agronegócio
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